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#Comédias#Literatura Brasileira

Uma Pupila Rica

Por Joaquim Manuel de Macedo (1840)

Suzana (em pé) Meu Deus! se não há na terra leis que tornem impossíveis tais atentados, sede misericordioso, Senhor, com os pais que morrem esquecidos das suas almas e absolvidos nas aflições do mundo, porque não haverá pai nem mãe que não morram nesse pecado, deixando filha menor exposta à opressão e aos tormentos do tutor ambicioso! Perdoai a esses, meu Deus! E amaldiçoados sejam os tutores que sacrificam as pupilas!

Firmino (a Teod.) Faze calar tua tia... ou não me contenho mais.

Suzana Disse-vos a verdade: refleti no que tendes feito e tentares fazer: por mim eu me declaro mãe desta menina; mãe no serviço do Senhor: se atentares contra a liberdade de Corina, a pobre velha sairá para sempre da casa do crime; saindo, porém, há de ir logo denunciar ao juiz dos órfãos, ao povo, ao rei o martírio da órfã, e a tirania dos algozes. Teod. Denunciar-nos!...

Firmino É uma velha demente...

Suzana Sou apenas uma triste pecadora, mas temente a Deus nosso Senhor, o que disse não foi por mal: eu vos amo e padeço pela cegueira com que vos vejo atirados na perdição: pensai bem no que me ouvistes, meus filhos!... Agora vou descansar: vem comigo, Corina, vem...

Firmino Doravante proíbo a Corina a sua companhia.

Suzana Na minha companhia será sempre honesta e pura: sou sua mãe no serviço do Senhor: ela há de vir comigo... quero poupa-la às tuas asperezas... (a Firmino) afasta-te!...

Firmino (tomando-lhe o passo) Quem manda aqui, senhora?...

Suzana (levantando a cabeça) Aqui e em toda parte, acima de todos... Deus! (comoção: Firmino recua um passo: Suzana passa com Corina)

Cena 6ª

Firmino: Teod.: Júlia: Carlos

Firmino Fanática e demente!... E no fanatismo e na demência a língua desenvolta e envenenada!...

Teod.

Com efeito! Minha tia sempre foi intratável com os seus escrúpulos e casos de consciência; nunca porém a vi tão desatinada e insensata!...

Carlos Insensata!...

Firmino Tenho-a sofrido muito! E se não fosse a sua velhice e a minha reputação, despedi-la-ia de nossa casa, provando assim como desprezo o que ela possui, e que de direito herdaríamos por sua morte... Despedi-la-ia...

Teod.

Firmino, ela é irmã de minha mãe...

Firmino Ao menos não quero que continue a desmoralizar Corina: recomendo-te que faças cortar todas, absolutamente todas as suas relações. (passeia agitado)

Carlos (a Teodora) Minha mãe...

Teod.

Que queres?... Bem vês que devo estar preocupada...

Carlos Eu também: é por isso que desejava dizer-lhe já...

Teod.

O que?...

Carlos Qualquer idéia que tenha havido de casar-me com Corina, a pupila de meu padrasto, não é mais concebível de hoje em diante.

Teod.

E por que?

Carlos Porque a tia Suzana disse a verdade.

Firmino (com aspereza) A verdade?!!!

Júlia (oferecendo a mão a Carlos que a afasta) Muito bem Meu irmão! meu Carlos! Acabas de improvisar um belo poema: muito bem...

Firmino Também tu?...

Júlia Também: papai, eu o sinto... o que a tia Suzana disse, caíra-lhe do céu no coração... foi voz de Deus falando pela boca de uma santa velha... chorei ouvindo-a... chorei...

Teod.

Tola!

Júlia Tola?... Papai e mamãe adoram-me: adoram-me tanto que eu vejo bem que muitas vezes abuso caprichosa. Papai e mamãe vivem por mim... são felizes com as minhas alegrias doidas... atormentar-se-iam um século para que eu não padecesse um dia... eu sei... adoram-me.

Teod.

Feiticeira!...

Firmino Se és um anjo, minha filha!...

Júlia Façam pois de conta... a idéia é horrível, mas é força imaginá-la... meu Deus! Perdoai-me a idéia medonha, eu, porém, sou ainda menor... e papai e mamãe estão ali a morrer... (profundamente comovida) eu, sua filha querida, em consternação a chorar... a estender os braços... a pedir compaixão e misericórdia... no pé de mim o tutor que escolheram... papai e mamãe agonizando abraçados comigo... (chorando) e com os olhos em meu tutor pedindo amor e piedade para sua filha, depois o horror da morte. Sua filha querida só no mundo... e depois... o meu tutor oprimindo-me... o meu tutor atormentando-me... e violentando o meu coração... impondo-me a escravidão de um casamento forçado. Papai, mamãe... a sua Júlia, a sua filha, o seu anjo a gemer... a chorar... a padecer... a desejar a morte...

Firmino (em pranto) Minha filha!...

Teod.

(chorando) Júlia, minha Júlia!...

Carlos (soluçando) Minha irmã... muito bem!... eu não brigo mais contigo.

(continua...)

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