Por Joaquim Manuel de Macedo (1860)
Maurício — Não sei de quem foi: olhei e vi-me rodeado de máscaras: ouvi zombarias e gargalhadas: zombariam de mim?...Rir-se-iam de mim, Hortênsia?..oh, isto é horrível!...Estas músicas soam a meus ouvidos como um canto infernal; este ruído me ensurdece...eu enlouqueço!...Hortênsia!...Hortênsia!...dize-me uma palavra de esperança...uma palavra que me faça esquecer essa ameaça sinistra: Amanhã ao meio-dia, Maurício!...”
Hortênsia — A nossa situação tornou-se realmente grave: Leonina tem desde ontem tratado com azedume e até com desprezo ao comendador...
Maurício — Meu Deus! E que recurso então nos resta?...
Hortênsia — Lancei mão do último. Acabo de expor à nossa filha as circunstâncias desesperadas em que nos achamos; apelei para a sua generosidade, e conto vencer a sua repugnância: pediu-me dez minutos para refletir, e eu corro, porque é tempo de receber a sua resposta a fim de comunicá-la já ao comendador.
Maurício — O sacrifício da vida inteira e da felicidade de Leonina?...oh!...o luxo! A vaidade! Eis aí as suas conseqüências!...
Hortênsia — Nossa filha há de ser feliz, eu te afianço...
Maurício — Não pareces mãe, Hortênsia!...
Hortênsia — Maurício, é a primeira vez que me maltratas.
Maurício — Oh! perdoa-me! Eu não sei o que digo...minha cabeça desgoverna...salva-me, Hortênsia...
Hortênsia — Sossega e confia em mim; mas onde encontrarei agora Leonina?...
CENA V Maurício, Hortênsia e Anastácio, sempre de dominó.
Anastácio — Meditando e a chorar junto à última janela da galeria. (Vai-se)
Maurício — Esta voz!...quem é este máscara?...
Hortênsia — Sabê-lo-emos depois; agora cumpre salvar-nos. (Vai-se)
CENA VI Maurício, só — Continua a música alegre.
A música soa festiva e alegre! As luzes brilham! Admira-se em toda parte o luxo, a riqueza, o fausto e a magnificência do baile...tudo isto partiu de mim, e eu sou mais pobre do que o último mendigo!...hoje a festa...e amanhã ao meio-dia a miséria e o opróbrio!...oh! e medroso do infortúnio que eu preparei por minhas mãos; aterrado pela idéia do mais justo castigo; eu, no meio das músicas estridentes, do ruído da alegria, do movimento jubiloso de todos, eu, pai desnaturado e mau, consinto que vão arrojar minha filha no abismo que cavei debaixo de meus pés!...minha filha!...Leonina!...misericórdia, meu Deus! Sou vil, sou infame, reneguei, desprezei meus parentes...reneguei a honra e a virtude, e ainda vou renegar minha filha!...sinto as ânsias do seu coração, vejo as lágrimas dos seus olhos, e ainda assim com as minhas mãos arrasto-a para o altar do sacrifício...oh! não!...não! este crime, esta abominação, este sacrilégio não há de realizar...não quero...não! não! (Partindo).
CENA VII
Maurício, que logo se retira, e Anastácio.
Anastácio — É tarde: Leonina deixou-se vencer por sua mãe.
Maurício — Não! Não...não é tarde nunca para correr um pai e salvar sua filha!...(Vai-se).
Anastácio — Vai, desgraçado, vai: a obra é tua, não tens portanto que maldizê-la: vai! Enxuga e esconde as tuas lágrimas, esmaga o teu coração e ri, e ri mil vezes aos olhos dessa sociedade mentirosa, em que quase todos são vítimas, e quase todos querem parecer triunfadores!...Oh! que sociedade! Ali dentro daquelas salas há homens que soltam gargalhadas e que têm no seio o fogo do inferno; há mulheres que se festejam e desejariam poder dilacerar-se; há moças que se estão beijando e que têm vontade de morder-se; ali dentro a inveja derrama veneno, a traição forja ciladas, a calúnia despedaça reputações, a corrupção se propaga, a hipocrisia triunfa, e melhor, e mais sublime que tudo isso, a miséria contradança e o calotismo dança a polca! Oh que mundo do diabo! (Sente passos) Quem vem lá?...é ela. (Vai-se)
CENA VIII
Leonina (Só)
Está lavrada a minha sentença...meu Deus! Não há mais riso para meus lábios, nem felicidade para o meu coração. Máscara! Máscara! Não me deixes mais: agora tu és o meu único recurso. A desgraça feriu meus pais, um crime vergonhoso está a ponto de desonrá-los...oh!...não há que hesitar..é preciso que eu me sacrifique para salvá-los. Coragem! Há por aí tantas como eu vou ser...ânimo! mas, meu Deus, é muito!...uma vida inteira é muito!...Oh! meu Deus, manda-me um anjo que me salve!
CENA IX
Leonina e Henrique — Ambos têm as máscaras nas mãos.
Henrique — Leonina!
Leonina — Eu te pedia um anjo, meu Deus!...
Henrique — Oh! o amor às vezes é quase um anjo, porque o amor puro e santo é todo cheio de influxo divino!...Leonina, eu amo!
Leonina — Não mo diga, não...agora é muito tarde, para quem a tempo não quis ouvi-lo! Não é um anjo, não, meu primo! Para mim o senhor é um remorso! Ah! Eu estou no caso dos moribundos, que uma hora antes de expirar pedem perdão àqueles a quem ofenderam; perdão, Henrique!...
Henrique — Leonina, coragem!...nós seremos ainda felizes...
Leonina — Impossível!...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Luxo e vaidade: comédia em um ato. Rio de Janeiro: Typ. Nacional, 1860. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1666 . Acesso em: 3 jan. 2026.