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#Romances#Literatura Portuguesa

O Conde d'Abranhos

Por Eça de Queirós (1925)

Mas o nosso Alípio desfez bem depressa esta impressão hostil, afiançando a D. Laura, o que era de resto exacto, que sempre, antes e depois dos actos em Coimbra, ia à Sé Nova, prostrar-se aos pés da imagem de Nossa Senhora da Saúde, antes, a implorar a sua mística influência nos lentes, depois, a agradecer humildemente o nemine discrepante. E corroborou esta descrição da piedade dos seus costumes, mostrando a gravidade das suas maneiras: em vez de procurar a companhia das meninas, que, de boquinha ao lado e olhos doces, perturbam a paz dos espíritos puros, foi de preferência juntar-se ao grupo severo dos magistrados e sólidos negociantes. E isto fez dizer a D. Laura que Alípio parecia ser «um moço de propósito».

A soirée era de resto animada; e pelo conhecimento que eu mais tarde tive da famosa sala do Desembargador e das pessoas que habitualmente a frequentavam, e pensando na influência que essa noite exerceu no destino do Conde d'Abranhos, mais de uma vez me tenho entretido a reconstituir essa soirée, com os seus personagens, os seus agrupamentos e a sua decoração.

Ali está, sob o retrato a óleo do Desembargador, o alto sofá de damasco vermelho e as quatro poltronas empertigadas e sentenciosas em que se sentam D. Laura e as duas ricas manas Vitorino, ambas magras, cor de cidra, de nariz acavalado, bandós achatados, com enfeites pretos, todas de uma tonalidade negra onde destaca o lenço branco, sustentado na mão seca de cordoveias fortes, sobre o regaço. Muito liberais, seu irmão, magistrado, fora enforcado no Porto no tempo de D. Miguel, e este incidente patético, de que ainda falam, parece ter-lhes perpetuado a tristeza na alma e a amarelidão na face.

Ali vejo também o velho Serrão, coronel reformado, com o seu espesso bigode grisalho, aparado à tesoura, a calça cor de flor de alecrim esticada pelas presilhas, ainda rijo, cheio de opiniões, censurando com rancor as promoções do exército e acompanhando uma filha, aquela magrinha de vestido de cassa com pintinhas, dentes maus do abuso dos doces, omoplatas salientes sob o estofo transparente, e tendo, a falar com os homens, a impertinência familiar de quem está sempre a pensar nos seus vinte contos de réis de dote. Na sombra, quase a um canto, lá está a pobre D. Joana Carneiro, triste e macerada, com o seu cirro no estômago, muito lamentada por todos, que admiram a sua resignação, apesar de lhe censurarem o mau hálito.

Junto ao piano, vejo ainda D. Amália Saraiva, cujos seios enormes parecem dois pequenos odres; traz sempre sua filhinha, de 7 anos, a Julinha, que durante toda a noite, muito sossegada, com o cabelo encaixando-lhe a canta magra, folheia o volume ilustrado da Ásia Pitoresca, admirando pagodes índios e selvagens seminus, até que a chamam para recitar: então, no círculo admirador, sob o olhar ansioso da mãe, cujos odres arfam de emoção, diz, numa vozinha fina e igual, como o correr do fiozinho de água numa torneira estreita:

Vai alta a Lua na mansão da morte,

Já meia-noite com vagar soou...

Ao fundo, junto à mesa do voltarete já armada, o Conselheiro Andrade, atraído para ali pela paixão das cartas, vai fazendo a sua paciência devagar, e explicando os seus contratempos de lavoura ao amigo Torres Pato e a outro personagem taciturno, apenas conhecido pelo nome de «o Doutor», que, muito apertado numa sobrecasaca azul, só quebra o seu silêncio lúgubre para murmurar, com a testa franzida numa grande concentração de espírito:

– É notável! Homem, é notável!

Mais além, vejo ainda, de peito alto e penteado soberbo, a bela Luísa Fradinho, casada há pouco com o Dr. Fradinho, advogado e publicista, que aparece atrás, fincando no nariz a luneta de ouro ou retorcendo entre os dedos finos a ponta das suíças de azeviche.

D. Luísa é, nas soirées do Desembargador, a bella, a sereia. O coronel, o conselheiro, os magistrados admiram os seus soberbos olhos, o seu corpo de estátua, as suas toilettes de enxoval; diz-se baixo que inspirou uma paixão a um Augusto Personagem; os seus movimentos, os seus olhares, os seus gestos, são seguidos por olhos vorazes de velhas que a criticam, sob a vaga sensação da influência que deve ter nos homens aquela soberba criatura de cor de pele tão brilhante: uma, acha que ela ri atabalhoadamente e com coquetismo; outra, que arruína o marido em vestidos; e quando ao fim da noite o Dr. Fradinho lhe diz: «são horas, filha, vai-te agasalhar» – todos, o coronel, o conselheiro, as damas, a doente do estômago, os seguem com os olhos, com um pensamento involuntário ao leito conjugal, onde decerto se vão recolher.

Ao canto do sofá, no seu lugar consagrado, lá vejo também, de grande casaco negro e volta branca, com a face gorda, grave, trigueira, muito barbeada, o reverendo padre Augusto.

Junto da janela, a adorável Virgínia e as duas amigas, as filhas do Conselheiro Andrade, cochicham vivamente, com as cabecinhas muito juntas.

(continua...)

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