Por Eça de Queirós (1870)
— Eis aí está por que o senhor não acredita! A coisa foi esta: Eles eram gente pobre mas honrada: marido, mulher e uma filha de seis anos. Para o que desse e viesse dormiamtodos juntos na mesma sala. A pequenita, a quem eles não contavam nada por cau sa do medo, estava numa caminha a um lado. Dormiam com luz na lamparina, e comotrabalhavam muito de dia e estavam cansadís simos à noite, lá pegavam no sono apesar do barulho das faúlhas do fogareiro e das argoladas nas portas. Vai senão quando, à se gunda noite que passavam cá, acordam aos gritos da criança. Ti nha-se apagado a luz. Acenderam-na a toda a pressa. A porta do quarto estava fechada por dentro. Os fechos das janelas achavam-se corridos. No quarto não havia mais ninguém. Mas a roupa da cama da criança estava caída a dois ou três passos de distância do berço em que ela dormia, e a pequenita,nua, transida de medo, branca como o travesseiro e tremendo como varas verdes, disse, quando lhe chegou a fala, que teve perdida por um bocado, que sen tira umas coisas como os pés de uma galinha muito grande que se lhe pousavam na cama; que se achara depoisdescoberta e ouvira umas coisas suspiradas envoltas em soluços e beijos, mimos que metiam medo e que ela não entendia, enquanto um peito coberto de penas se lhe roçava pelo seio nu.A mãe então vestiu-lhe à pressa uns fatinhos, embrulhou-a num xaile, estreitou-a nos braços, pôs-se a dar-lhe beijos e a acalentá-la com o bafo, e saiu para ama aterrada e como doida. O homem, que era valente e destemido, cor reu a casa toda com luz e sem luz, metendo-se portodos os cantos e recantos, rangendo os dentes e picando as paredes enfurecido com uma faca de ponta que levava em punho. Não apareceu nin guém! Ninguém podia ter saído!Ninguém podia ter entrado. No dia seguinte foi levar a chave do prédio ao senhorio, dizendo-lhe que se algum dia tivesse dinheiro lhe compraria esta casa para ele mesmo a deitar abaixo a picão e a machado, para lançar o fogo a quanto pudesse arder, e calcar depoisaos pés e salgar o monte de cinzas, que ficasse no chão.
— Pois senhor, eu nenhuma dessas coisas tenho ouvido, e é es ta a segunda noite quedurmo aqui. — Gabo-lhe o gosto! E não tem medo? — Nenhum.- Por isso por aí dizem do senhor o que dizem!
— Então o que dizem por aí de mim? — Dizem, com o devido respeito, que o senhor é um alemão da Mourama e que tempartes com o demónio.
— Mais um bocadinho para trás, que eu o ajudo! — exclamou o estrangeiro, mudando detom. — Isto assim? — Ainda mais... um quase nada.., até ficar a cabeceira unida à ombreira da porta..Basta!
— Não quer mais nada?- Mais nada. Aqui tem a sua libra, e leve dali uma daquelas velas para que o avejão não apeteça na escada ao apanhá-lo às es curas.
— Não o diga a rir, que eu pela minha parte não me rio! o se nhor gosta...- A falar-lhe a verdade, gosto!
— Seu proveito! Olhe lá: quando se aborrecer com as almas que andam cá, veja sepassa aí para a casa que fica ao lado! — Bem me queria a mim parecer que a casa do lado também tem... — Se tem! Essa então é o diabo, é o próprio diabo que lá mora!O homem que viera ajudar à mudança da cama acendeu a luz e desceu a escada. O alemão ficou só, fechou a porta, e principiou a despir-se para se deitar.O diálogo que eu acabava de ouvir tinha-me impressionado singularmente e despertado em mim o mais curioso interesse.
Sem procurar directamente indagar coisa alguma, começava a entrar pelo modo maisestranho no conhecimento de factos que, posto que deturpados pela superstição ou pela ignorância, explicariam decerto o desfecho a que viemos assistir e a presença do ca dáver nasala em que o fomos encontrar.
Agora nós, meu interessante e precioso vizinho!
III
A cama do alemão tinha ficado, como disse, por baixo do meu buraco de observação.O meu vizinho deitou-se e soprou a vela. O quarto ficou às escuras, e eu senti os colchões que rangiam com o peso do corpo que se ajeitava para dormir.
— Ah! Tu amas o murmúrio dos espíritos invisíveis?... — ex clamei eu dirigindomementalmente ao filósofo que me ficava do outro lado do muro. — Aprazem-te as ondulações sonoras das moléculas da vida animal que vagueiam dispersas no espaço, procurando osopro misterioso que as condense para entrarem na corrente dos seres vivos? Queres encadear ao teu espírito esses elos informes e incoercíveis, que ligam o mundo das coisas conhecidas ao mundo dos seres ignotos? Ora vamos lá a ver como tu em pregas as tuasfaculdades de médium...
E pensando isto, bati-lhe com os nós dos dedos na parede três pancadinhas secas,metodicamente espaçadas, como as dos sinais maçónicos. Senti roçar a mão dele pelo papel que forrava o muro, como quem procurasse apalpar algum sinal do rumor que ouvira.Entrei então a repetir com sucessiva frequência o rebate que lhe dera percorrendo diferentes pontos da parede que servia de fundo ao armário.Percebi que ele se sentava na cama. Ouvi estalar um fósforo. Acendeu-se a luz. Parei. Houve uma pausa, durante a qual me conservei silencioso e imóvel. O meu vizinho apagou finalmente a luz ao cabo de alguns minutos, e eu recomecei a bater devagarinho: erepetidamente como primeiro fizera. Ele, tendo escutado por al gum tempo às escuras, acendeu outra vez a vela e começou a exa minar detidamente o espaço da parede, junto do qual lhe ficava a cama.No momento em que a chama da vela perpassava na mão de le por defronte do meu braço, soprei-lhe de repente e apaguei a luz.O alemão, que se achava de joelhos em cima da cama a revis tar a parede, expediu um pequeno grito, que me pareceu mais de surpresa que de tenor, conquanto o acompanhasse um estrondo pesado e extremamente significativo. O que produzira esse estron do fora obaque do corpo dele caindo da cama abaixo.
Logo depois ouvi a voz do vizinho perguntando com decisão e firmeza:- Quem está aí? Respondi-lhe: — Sou eu.- Quem és tu?
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.