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#Romances#Literatura Brasileira

Recordações do Escrivão Isaías Caminha

Por Lima Barreto (1909)

Não tenho pejo em confessar hoje que quando me ouvi tratado assim, as lágrimas me vieram aos olhos. Eu saíra do colégio, vivera sempre num ambiente artificial de consideração, de respeito, de atenções comigo; a minha sensibilidade, portanto, estava cultivada e tinha uma delicadeza extrema que se ajuntava ao meu orgulho de inteligente e estudioso, para me dar não sei que exaltada representação de mm mesmo, espécie de homem diferente do que era na realidade, ente superior e digno a quem um epíteto daqueles feria como uma bofetada. Hoje, agora, depois não sei de quantos pontapés destes e outros mais brutais, sou outro, insensível e cínico, mais forte talvez; aos meus olhos, porém, muito diminuído de mim próprio, do meu primitivo ideal, caído dos meus sonhos, sujo, imperfeito, deformado, mutilado e lodoso. Não sei a que me compare, não sei mesmo se poderia ter sido inteiriço até ao fim da vida; mas choro agora, choro hoje quando me lembro que uma palavra desprezível dessas não me torna a fazer chorar. Entretanto, isso tudo é uma questão de semântica: amanhã, dentro de um século, não terá mais significação injuriosa. Essa reflexão, porém, não me confortava naquele tempo, porque sentia na baixeza do tratamento todo o desconhecimento das minhas qualidades, o julgamento anterior da minha personalidade que não queriam ouvir, sentir e examinar. O que mais me feriu, foi que ele partisse de um funcionário, de um representante do governo, da administração que devia ter tão perfeitamente, como eu, a consciência jurídica dos meus direitos ao Brasil e como tal merecia dele um tratamento respeitoso.

As lágrimas secaram-se-me nos olhos, antes que o inspetor me apresentasse ao Escrivão Viveiros. Olhou-me com olhar de entendido. Creio que sondava as minhas algibeiras detidamente, antes de me fazer esta pergunta:

— O senhor é o moço do Hotel Jenikalé?

— Sou um deles.

— Qual é a sua profissão?

— Estudante.

Houve algum espanto na sua fisionomia deslavada. Conteve-se e continuou-me a perguntar:

— Tem documentos?

— Alguns.

— Ah! Pode-se justificar perfeitamente.

— Como?

— Com testemunhas e documentos.

— Se não conheço ninguém aqui no Rio...

— Eu lhe arranjo.

— Aceito e obrigado.

— Mas custa-lhe trinta mil-réis.

— Não posso pagar, capitão. Não tenho dinheiro.

— E o seu correspondente?

— Não tenho.

— Então meu caro...

Encolheu os ombros, afastou-se cheio de indiferença, sem olhar qualquer dos circunstantes. O inspetor continuou a escrever o seu interminável livro. De onde em onde. muito policialmente passeava o olhar dissimuladamente sobre cada um de nós. Nuvens plúmbeas já de todo tinham coberto a nesga do céu vista pela janela. Havia como que fuligem na atmosfera e a luz do sol tornara-se de um amarelo pardacento e fúnebre. A temperatura continuava elevada e o ar abafado da sala incomodava-me. A ressonância especial das ruas subia até nós cada vez mais nitidamente. O bimbalho da campainha era mais agudo, o rolar dos veículos mais redondo e mais dissonante o ranger das ferragens dos bondes, os estalos dos chicotes e os apitos caprichados dos cocheiros. Da delegacia, por entre essa bulha, percebemos que um vozerio se aproximava. O inspetor levantou a pena e esperou. Um grande magote de povo invadia a sala. Os soldados correram e contiveram a multidão. Na frente, vinham duas mulheres do povo, desgrenhadas, rotas, que dois soldados, com esforço, mantinham separadas. Um deles, sem largar a mulher, explicou ao inspetor.

— Estavam brigando e pelo caminho ainda se atracaram; nós...

E logo ambas as duas se quiseram justificar, falando ao mesmo tempo. O inspetor repreendeu-as severamente. O soldado expôs. Moravam em uma estalagem próxima, eram lavadeiras, uma era casada e outra tinha “seu homem”.

— Por que foi? — perguntou o policial.

De novo quiseram narrar ao mesmo tempo o motivo de tão apaixonado pugilato.

— Assim não pode ser, fez o inspetor. Ou uma ou outra... Vá, fale a senhora, acabou designando uma delas.

— Vossa Senhoria sabe: sou pobre... Tenho uma galinha. Mais de uma; mas foi a pedrês. E não é de hoje, há muito tempo, sim senhor. A gente não pode, é verdade; mas que se há de fazer? Um bichinho é sempre bom, “seu” inspetor: dá alegria e ajuda a gente... É por isso que a comadre...

— Diga a senhora afinal por que foi... Vá! intimou o inspetor.

— Eu já digo, sim senhor. Há muito tempo que a minha galinha punha e eu nada de ver os ovos. Procurava daqui, procurava dali, nada de achar... Hoje eu tinha sadio para levar o jantar do Manduca e quando voltei vi que a galinha vinha saindo da casa dessa mulher com a cara de quem já pôs... Ah! “seu” inspetor! deu-me uma gana, uma coisa que eu mesma não sei... Xinguei, fez ela por fim; e foi por isso...

Acabou a narração humilde com uma modulação de choro na voz.

— E a senhora que diz a isso? perguntou a autoridade à outra.

— Não foi assim, não senhor... Essa mulher sempre embicava comigo... Não sei por que, sempre andava com rezinga... Um dia era isso, outro dia era aquilo... Se o vento punha a sua roupa no chão, era eu; se...

— Mas afinal a galinha saiu ou não de sua casa?

— Saiu, sim senhor; mas foi por acaso...

— Por acaso, o quê! sua ladra, sua p...

— Que é isso! exclamou severamente o inspetor. Isto aqui é estalagem? Meto-a no xadrez! Está ouvindo?

(continua...)

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