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#Contos#Literatura Brasileira

Tentação

Por Adolfo Caminha (1896)

Cada vez o bacharel compreendia menos o que lhe estava entrando pelos ouvidos.

— De bom gosto?...

— Pois não foi o senhor quem escolheu a mobília?

— Eu não escolhi nada, pelo amor de Deus! - nem sei do que se trata...

— Quer nos debicar, Adelaide, quer fazer surpresa... — disse a mulher do secretário.

— Debicar!... surpresa!... Temos aqui almas doutro mundo?

Adelaide não quis acreditar numa brincadeira do marido, tal era a sisudez que ele imprimia às palavras naquela ocasião. Evaristo brincava, mas conhecia-se logo o seu tom de pilhéria.

— Deixem-me primeiro tomar fôlego, que eu estou me acabando! — exclamou, dirigindo-se à sala de jantar.

As duas senhoras o acompanharam, entreolhando-se.

O bacharel encostou a bengala, respirou com alívio e sentou-se.

— O Furtado inda não veio?

— Té agora, não — respondeu D. Branca.

— Então, que história é essa de cadeiras e camas e sofás? Expliquem-se!

Adelaide explicou o caso da mobília: às duas horas, mais ou menos, tinha vindo um galego trazendo, numa carrocinha, meia dúzia de cadeiras, um sofá, uma cama de casal, uma estante e outros objetos "para a casa do Sr. Evaristo de Holanda, em Botafogo". Não podia haver engano.

— Onde estão esses objetos?

— Lá em cima, tudo arrumado. A cama é que é um pouco larga...

Pois ele não mandara coisíssima alguma nem tampouco autorizara compra de móveis ao Furtado. Às duas horas tinha estado com o secretário no Banco e ele em tal coisa não falara. Salvo se o amigo inda uma vez queria ser generoso e bom apresentando seu nome a algum armazém de móveis... Podia muito bem ser isso... Mas, então, dir-lhe-ia francamente, prevenindo-o com antecedência, tomando mesmo uma nota dos objetos indispensáveis a um casal. O Furtado, porém, não o prevenira, não o avisara sequer! Donde tinham vindo esses móveis? de que armazém? de que rua?

— Você compreende que a minha obrigação era recebê-los — fez Adelaide numa voz humilde.

— Perfeitamente, ninguém diz o contrário.

— O Luís explicará tudo, Sr. Evaristo. Havemos de saber quem foi da idéia. — Corramos um olhar nos tais móveis — disse o bacharel, erguendo-se.

O pavimento superior da casa já não tinha o mesmo aspecto desolado e vazio da véspera, com as suas paredes escorridas, com o seu ar glacial de eremitério. Não. A sala da frente impunha-se agora aos olhos, convidando à familiaridade, ao repouso honesto, à leitura de um bom livro. Meia dúzia de cadeiras austríacas, torneadas, o sofá, cadeiras de balanço, dois consolos, outra mesinha decorativa para o centro... Na alcova o leito, e o toucador com espelho de cristal e pedramármore. Num dos quartos, o guarda-roupa e os baús (os célebres baús de couro) e no outro a estante. Assim é que Adelaide dispusera os móveis, em acordo com D. Branca; unicamente para surpreender Evaristo. Depois comprar-se-ia cortinas e bibelôs. O soalho inda estava úmido da lavagem.

O bacharel cruzou os braços diante daquela transformação quase milagrosa.

— Isto não pode deixar de ser obra do Luís! — disse, risonho. Sim, estava quase convencido de que o Luís queria pregar-lhe uma peça. Quem, no Rio de Janeiro, se lembraria dele senão o secretário? Ninguém, absolutamente ninguém.

Ele é que o tratava com um carinho de irmão.

— Você que acha?

— Penso a mesma coisa. Só o Sr. Furtado...

— No entanto, o Furtado não arredou pé do Banco!

— As almas é que não foram... - murmurou, sorrindo, Adelaide.

E enquanto o outro não chegava, discutiu-se a procedência dos móveis.

O secretário foi recebido com exclamações e altos brados de agradecimento e jovialidade.

— Está de muito bom gosto a cama! — repisou D. Branca. — Assim é que eu queria que você comprasse uma...

— E o guarda-roupa! — exclamou Evaristo.

— E a toilette! — fez Adelaide.

Mas o homem era como se estivesse numa casa de orates; fitava um, fitava outro, com ar interrogativo e surpreso.

— As senhoras estão enganadas... Mobília?...

— Quem havia de ser? — interpelou o bacharel, crendo e não crendo na — estupefação do amigo.

— Não mo perguntes a mim, que também não posso atribuir o caso ao meu bodegueiro ou às almas do outro mundo.

— Ora, falemos sério, não foste tu, mas foi o teu grande coração! — resumiu Evaristo, desapontado. — Juro-te!

— Não acredito.

— Melhor pra ti...

Ao final das contas, a dignidade do bacharel teve um ímpeto de orgulho contra "esse misterioso fornecedor gratuito de móveis", e declarou positivamente que ia mandar tudo para o depósito, as cadeiras, a cama, o sofá... tudo! Não aceitava favores de pessoas estranhas e, de mais a mais, ocultas num criminoso silêncio. Tudo para o depósito!

(continua...)

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