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#Romances#Literatura Brasileira

A Normalista

Por Adolfo Caminha (1893)

— Sim.

— Casa, mas há-de ser com o diabo! Sujeitos daquela ordem não me entram em casa...

— Mas olha que é um casamentão!

— Nem que ele viesse coberto de ouro num palanque de diamantes. Ela só há-de casar com quem o padrinho quiser. E adeusinho, menino, adeusinho.

Separaram-se.

Passava um enterro caminho do cemitério. Quatro gatos-pingados, de preto, conduziam o caixão cujos galões de fogo reluziam ao sol. Pouca gente acompanhando: uns dez homens cabisbaixos, taciturnos, de chapéu na mão, marchavam a passo e passo. Na frente caminhava um padre, de estola e sobrepeliz, olhando para os lados, indiferente, mais um menino de coro de batina encarnada carregando a cruz.

O sino da Sé dobrava a finados melancolicamente. Gente chegava às janelas para ver passar o préstito.

— De quem é? Quem morreu? perguntava-se com mistério.

— A terra lhe seja leve, fez o Zé Gato abanando a cabeça com um ar triste. João da Mata parou à beira da calçada afagando a pêra com os dedos magros e compridos, nervoso. — Quem morreria? pensava. — E, assim que o préstito passou, foi andando devagar, cabeça baixa, equilibrando-se.

No outro lado da rua o Romão, o negro Romão, que fazia a limpeza da cidade, passava muito bêbado, fazendo curvas, de calças arregaçadas até os joelhos, peito à mostra, com um desprezo quase sublime por tudo e por todos, gritando numa voz forte e aguardentada:

— Arre corno!... Um garoto atirou-lhe uma pedra.

Mas o negro, pendido pra frente, ziguezagueando, tropeçando, encostando-se às paredes, torto, baixo, o cabelo carapinha sujo de poeira, pardacento, repetia, repetia insistentemente, alto e bom som, o estribilho que todo o Ceará estava acostumado a ouvir-lhe — Arre corno! E que repercutia como uma verdade na tristeza calma da rua.

CAPÍTULO V

Um tédio invencível, um desânimo infindo foi se apoderando de Maria do Carmo a ponto de lhe alterar os hábitos e as feições. Começou a emagrecer, a definhar, enfadando-se por dá cá aquela palha, maldizendo-se. Tudo a contrariava agora, tinha momentos de completo abandono de si mesma, o mais leve transtorno nos seus planos fazia-lhe vontade de chorar, de recolher-se ao seu quarto e desabafar consigo mesma, sem que ninguém visse, num choro silencioso. Estava-se tornando insociável como uma freira, tímida e nervosa como uma histérica. Ia à Escola para não contrariar os padrinhos, para evitar desconfianças, mas o seu desejo, o seu único desejo era viver só, completamente só, numa espécie de deserto, longe de todo ruído, longe daquela gente e daquela casa, num lugar onde ela pudesse ver o Zuza todos os dias e dizer-lhe tudo o que quisesse, tudo o que lhe viesse à cabeça. O ruído que se levantou em torno de seu nome incomodava-a horrivelmente, como o zumbir de uma vespa enorme que a perseguisse constantemente. — Que inferno! Todo o mundo metia-se com a sua vida, como se fosse um grande erro ela casar com o Zuza! Era melhor que fossem plantar batatas e não estivessem encafifando-a. Havia de casar com o Zuza, porque queria, não era da conta de ninguém, seu coração era livre como as andorinhas. Oh!...

— Mas, menina, quem diz o contrário? perguntava a Campelinho. Eu sempre te aconselhei que o melhor partido era aceitar o amor do estudante.

Não era a Lídia, eram as outras, as invejosas, as brutas, que nem sequer sabiam conjugar um verbo. Estava cansada de ouvir pilhérias e risinhos tolos, mas à primeira que lhe dissesse tanto assim (e indicava o tamanho da unha), à primeira que abusasse da sua paciência, ela, Maria, saberia responder na ponta da língua. Umas namoradeiras que se punham a dar escândalos com os estudantes do Liceu, umas sem-vergonhas! Havia de mostrar!

Ela é que era uma tola, dizia a Lídia; as normalistas falavam de invejosas; mandasse-as plantar favas. Cada qual namora com quem quer, e, demais, não era nenhuma admiração a Maria casar com o Zuza. Por que ele era rico e ela pobre? Muito obrigada! Napoleão I tinha-se casado com uma simples camponesa, e, mais, era um imperador!

E Maria do Carmo passava noites sem dormir, a pensar no futuro bacharel, retratando-o na imaginação, amando-o de longe. Havia já seis dias que ele seguira com o presidente, num domingo.

Que custo, que viagem sem fim! Aquela demora impacientava-a. Já era tempo de terem voltado...

Todos os dias, à noitinha, ia esperar a Província, na janela, a ver se encontrava alguma notícia dos excursionistas.

Mas, nada!

No domingo seguinte, porém, a folha oficial noticiou que “os ilustres touristes” deviam regressar à capital no dia imediato.

(continua...)

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