Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

À chegada do padre Antônio de Morais o espírito de luta acendera-se novamente no cérebro do Chico Fidêncio. Escovara a opa encarnada e aguçara os adjetivos. A presença do novo vigário parecia prestar-se à crítica que invocasse a humildade cristã. 0 desapego dos gozos mundanos, de que os primeiros apóstolos deram prova. Desde o dia do desembarque solene, em que a sua pilhéria irritante provocara a má vontade dos figurões, Fidêncio não poupara alusões à batina nova, ao penteado, à cara bem rapada, aos punhos engomados do senhor vigário.

Mas o diabo era que ele, Francisco Fidêncio Nunes, não podia ir além dessas alusões.

Chegou novamente à porta do corredor e gritou para dentro, em voz de caixeiro de botequim:

— Olha esse café que saia!

— Já vai, seu Chico. É o diacho da lenha que está muito molhada, respondeu do fundo da cozinha a voz arrastada da Maria Miquelina. — Pílulas, até a lenha!

Fidêncio entrou na alcova, pegada à sala, e saiu logo depois, abotoando-se.

A chuva diminuíra, mas o céu, estava todo alvacento, empastado de nevoeiros. A umidade do ar penetrava pela janela aberta, esfriando a temperatura e causando ao professor uma sensação de arrepio, levantando-lhe pela raiz os pêlos da epiderme. A luz escassa do dia dava aos objetos uma coloração desmaiada que lhes confundia os contornos. As linhas perdiam-se numa obscuridade vaga, ondulante. 0 preto sujo da velha pindoba do teto pesava sobre a sala, acaçapando os móveis e os quadros. Do chão úmido levantava-se um cheiro a bolor e a ponta de cigarros, insípido e fastiento. A galinha de pintos fora-se pelo corredor fora, a passos lentos, catando o pavimento, cacarejando. 0 pio dos pintainhos irritava os nervos.

Fidêncio olhou vagamente para o teto, para as paredes, para os móveis, indeciso, abstrato, metendo a mão entre o cós das calças e a camisa para acariciar o fígado. As paredes brancas, dum branco sujo, apertavam-no. O retrato de Saldanha Marinho morria no quadro de madeira preta, na tinta pardacenta da litografia ordinária, salpicada de excremento de moscas. Mais abaixo o Sonho de Pio IX, salientado pelo dourado velho da moldura, degenerava numa confusão de pernas largas e de seios pontudos, de taças redondas e de flores chatas, de batinas e coroas num plano só, sem perspectiva. Do outro lado Ganganelli, entre as quatro obreias verdes, na alvura duvidosa do papel de impressão, erguia a mão sem vida segurando os raios pontificais, longas linhas trêmulas e quebradas, a crayon, para fulminar a Companhia, representada por um padre moço e barbado, mas muito branco, barba tesa e braços enormes, parecido com D.Vital. E por baixo, a custo, aparecia, na meia-tinta, a legenda, em versais gastas, mal impressa e incorreta: O PAPA CLEMENTE XIV EXTINGUE A COMPANHIA DE JESUS. VIDE O TEXTO.

Na parede da esquerda, próximo à porta da rua, o cabide parecia sustentar a custo o velho chapéu de pele de lebre, o velho guarda-chuva cor de pinhão e a opa do Santíssimo Sacramento, que tinha agora uma aparência desmaiada, de velho balandrau surrado em procissões e Nossos-pais sem conta; e o candeeiro de petróleo lançava do grande bojo de vidro ordinário, faceado, uma luz amarelada e baça, com reflexos esverdeados de azeite de mamona.

Tudo parecia mais velho; as mesas, os tinteiros, os bancos, a cadeira de palhinha. Do chão escuro e fétido, do teto negro, das paredes úmidas, dos móveis, das roupas, dos contornos de todos os objetos, dos quadros parietais, dos gestos dos personagens, da sua fisionomia dura e chata de figuras malfeitas, vinha como uma emanação de tédio, que ia subindo, espalhando-se pela casa, e depois saía pela janela, para lançar-se sobre a vida toda, estúpida e molhada.

Fidêncio abriu os braços, retorceu-os num espreguiçamento, vergando o corpo para trás, desarticulando as mandíbulas num longo bocejo, e deixou escapar um grito agudo e prolongado que cortou de chofre o silêncio do dia. Na casa fronteira abriu-se um pouco a janela de pau pintada de azul, e pela frincha estreita, uma mulher espiou, curiosa.

A Maria Miquelina, equivocando-se, gritou da varanda:

— Já vai, já vai, seu Chico, tenha um mocadinho de paciência. — Ah, o café! disse o Fidêncio, sorrindo.

Ressoaram no corredor as tamanquinhas da caseira azafamada.

— Pensei que era o café de João Pinheiro! exclamou quando a mulata apareceu à porta da sala, trazendo na mão uma grande xícara de louça azul, de que saía um fumo tênue e um odor forte a café quente.

— Que João Pinheiro, seu Chico?

— Não sabes a história do João Pinheiro, rapariga!

— Como havera de saber, seu Chico? Só se era o João Pinheiro que matou outro dia o Joaquim Feliciano naquele encontro da beira do lago...

— Não, Maria Miquelina João Pinheiro era um fazendeiro da minha terra, muito conhecido e apatacado

— Pois como eu havera de saber dele, se eu nunca estive lá nesses Rio de Janeiro...

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...1920212223...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →