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#Romances#Literatura Brasileira

O Livro de uma Sogra

Por Aluísio Azevedo (1895)

A invariável convivência matrimonial é coisa muito séria, é a grande razão da corrente infelicidade doméstica, é a causa imediata da fatal desilusão dos cônjuges, mesmo daqueles que se casam por amor legítimo e verdadeiro, como eu me casei; é fonte de inevitável desgraça para a vida inteira, desgraça que os noivos ainda mais agravam, imprudentemente, com os recursos artificiais e hipócritas do namoro, quando aliás a mocidade, a graça natural e o amor, deviam ser os únicos agentes da atração que os ajunta e abrocha.

Quando um moço, ou uma moça, quer casar, qual é o seu primeiro cuidado? — Enfeitar-se; ou melhor — disfarçar-se.

Ela recorre às torturas do espartilho para fazer a cinta inverossimilmente fina, às torturas dos sapatinhos apertados para fazer o pé microscópico; recorre aos arrebiques, ao pó de arroz, às opiatas, ao dentista, ao cabeleireiro, à modista. De feia pode fazer de si uma dessas elegantes bonecas de salão, por quem às vezes os homens se enfeitiçam. Ele, por outro lado, trata logo de dar brilhantina e cosmético ao bigode, calça-se com esmero, e estuda os meios, não de conseguir a própria felicidade e a daquela que pretende para esposa, mas de tornar-se irresistível dançando a valsa; e põe monóculo, e faz versos, ou arranja quem lhos faça. E ambos, depois de bem enfrascados em perfume, depois de bem adornados e convertidos no que não são, esforçam-se, cada qual com mais empenho, em esconder aos olhos do outro os seus defeitozinhos e as suas pequenas misérias de entes civilizados.

Ela, coitada! para de si dar cópia de um ser poético e vaporoso, recita poesias sentimentais ao piano, fala de coisas românticas que pescou de relha, levando a comédia ao ponto de não querer à mesa, se houver rapazes presentes, quase que tocar nos pratos; e suspira, e requebra os olhos, e sibila os ss, e remexe-se toda, e toma langorosas posturas estudadas; e quando anda, e quando fala, e quando dança, e quando pousa na cadeira, é sempre com a mesma simulação e fazendo mil esgares de faceirice, mil trejeitos de ingenuidade e ao mesmo tempo de provocação amorosa.

Ele, bem barbeado, cheiroso, limpo e janota, afeta grande pureza de costumes e de maneiras, escolhe para a conversa assuntos finos e termos convenientes; faz-se terno, cordato, circunspecto, com um gênio de anjo; e fala do seu amor e do seu futuro conjugal, com tal doçura e tão voluptuosa virtude, que uma donzela ao ouvi-lo imagina logo que a vida, em companhia de semelhante puritano, há de ser uma nova edição, correta e aumentada, do paraíso, antes da gulodice da maçã.

E assim, mutuamente enganados, mutuamente iludidos e engodados — casam-se.

Essa ilusão servirá para a garantia do primeiro filho. Está muito bem! Mas ainda os dois falam entre si e com os amigos em “lua-de-mel”, e já cada um por sua conta começa a descobrir no companheiro imprevistas particularidades, reais e prosaicas, que vão surdamente desdourando o insubstituível prestígio poético que exerciam um sobre o outro.

Hoje um flato mal disfarçado, amanhã um ligeiro transbordamento de humor bilioso, em seguida uma cólica desmoralizadora, e em breve o marido já se não esforça por esconder os seus calos e a sua dispepsia, nem a esposa tem o cuidado de caracterizar-se de mulher bonita: já não mete os cabelos em papelotes para os trazer crespos sobre a testa, já não aperta com sacrifício a cintura e os pés, já não arma aqueles divinos sorrisos provocadores que parecia fazerem parte integrante da sua fisionomia, e já não arranja aqueles fascinantes olhares voluptuosos, que foram talvez o que mais decisivamente determinou a conquista do homem que agora é seu marido.

E as pequenas e apoquentadoras misérias do gênio e do caráter, que se vão revelando dia a dia? E os egoísmos feminis? E os desleixos do corpo, que não chegam a ser desasseio, mas que já não são, decerto, o sedutor perfume que ambos sentiam um do outro, durante o período do namoro, e sob cuja influência se amaram, e se desejaram, e se tiveram?

O cheiro! Que importante papel representa ele no amor conjugal e nos destinos da família!...

(continua...)

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