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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

- Que lhe hei de eu fazer?... Para evitar fallatorios.

E abancou, metteu um bico novo na penna, escolheu uma folha de papel em que o monogramma luzia mais largo, começou a copiar a carta na sua maravilhosa letra, com finos e grossos, d'uma nitidez de gravura em aço.

Ega no emtanto, de sobrecasaca desabotoada e charuto fumegante, rondava em torno da mesa, seguindo sôfregamente as linhas que traçava a mão applicada do Damaso, ornada d'um grosso annel d'armas. E durante um momento atravessou-o um susto... Damaso parára, com a penna indecisa. Diabo! Acordaria emfim, no fundo de toda aquella gordura balofa, um resto escondido de dignidade, de revolta?... Damaso alçou para elle os olhos embaciados:

- Embriaguez é com n ou com m?

- Com um m, um m só, Damaso! acudiu Ega affectuosamente. Vai muito bem... Que linda letra você tem, caramba!

E o infeliz sorriu á sua propria letra - pondo a cabeça de lado, no orgulho sincero d'aquella soberba prenda.

Quando findou a cópia foi Ega que conferiu, pôz a pontuação. Era necessario que o documento fosse chic e perfeito.

- Quem é o seu tabellião, Damaso?

- O Nunes, na rua do Ouro... Porque?

- Oh! nada. É um detalhe que n'estes casos se pergunta sempre. Mera ceremonia... Pois amigos, como papel, como letra, como estylo, está d'appetite a cartinha!

Metteu-a logo n'um enveloppe onde rebrilhava a divisa «Sou Forte», sepultou-a preciosamente no interior da sobrecasaca. Depois, agarrando o chapéo, batendo no hombro do Damaso com uma familiaridade folgazã e leve:

- Pois, Damaso, felicitemo-nos todos! Isto podia acabar fóra de portas, n'uma poça de sangue! Assim é uma delicia. E adeus...Não se incommode você. Então o grande sarau sempre é na segunda-feira? Vai lá tudo, hein! Não venha cá, homem... Adeus!

Mas o Damaso acompanhou-os pelo corredor, mudo, murcho, cabisbaixo. E no patamar reteve o Ega, desafogou outra inquietação que o assaltára:

- Isso não se mostra a ninguem, não é verdade, Ega?

Ega encolheu os hombros. O documento pertencia a Carlos... Mas emfim Carlos era tão bom rapaz, tão generoso!

Esta incerteza, que o ficava minando, arrancou um suspiro ao Damaso:

- E chamei eu áquelle homem meu amigo!

- Tudo na vida são desapontamentos, meu Damaso! foi a observaçáo do Ega, saltando alegremente os degraus.

Quando o calhambeque parou no Jardim da Estrella, Carlos já esperava ao portão de ferro, n'uma impaciencia, por causa do jantar na Toca. Enfiou logo para dentro atropellando o maestro, bradou ao cocheiro que voasse ao Loreto.

- E então, meus senhores, temos sangue?

- Temos melhor! exclamou Ega no barulho das rodas, floreando o enveloppe.

Carlos leu a carta do Damaso. E foi um immenso assombro:

- Isto é incrível!... Chega a ser humilhante para a natureza humana!

- O Damaso não é o genero humano, acudiu Ega. Que diabo esperavas tu? Que elle se batesse?

- Não sei, corta o coração... Que se ha de fazer a isto?

Segundo o Ega não se devia publicar; seria crear curiosidade e escandalo em torno do artigo da Corneta que custára trinta libras a suffocar. Mas convinha conservar aquillo como uma ameaça pairando sobre o Damaso, tornando-o para longos annos nullo e inoffensivo.

- Eu eslou mais que vingado, concluiu Carlos. Guarda o papel: é obra tua, usa-o como quizeres... Ega guardou-o com prazer, emquanto Carlos, batendo no joelho do maestro, queria saber como elle se portára n'aquelle lance d'honra...

- Pessimamente! gritou Ega. Com expressões de compaixão; sem linha nenhuma; estendido por cima do piano; agarrando com a mão no sapato...

- Pudera! exclamou Cruges desafogando emfim. Vocês dizem-me que me ponha de ceremonia, calço uns sapatos novos de verniz, estive toda a tarde n'um tormento!

E não se conteve mais, arrancou o sapato, pallido, com um medonho suspiro de consolação.

No dia seguinte, depois do almoço, emquanto uma chuva grossa alagava os vidros sob as lufadas de sudoeste, Ega, no fumoir, enterrado n'uma poltrona, com os pés para o lume, relia a carta do Damaso: e pouco a pouco subiu n'elle a mágoa de que esse colossal documento de cobardia humana, tão interessante para a physiologia e para a arte, ficasse para sempre inaproveitado no escuro d'uma gaveta!... Que effeito, que soberbo effeito se aquella confissão do «nosso distincto sportman» surgisse um dia na Gazeta Illustrada ou no novo jornal A Tarde, nas columnas do High-life, sob este titulo- PENDENCIA D'HONRA! E que lição, que meritorio acto de justiça social!

(continua...)

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