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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Para que algum incrédulo não pense e diga que estou improvisando, declaro alto e bom som que tenho por mim os valiosos testemunhos de dois veneráveis escritores, um que é o bom Santa Maria no seu Ano Histórico, tomo II, § 3º, pág. 397, e outro que é o maçantíssimo Simão de Vasconcelos na sua Crônica da Companhia de Jesus, livro III, § 96, págs. 352 e seguintes.

Em resumo, a história foi esta. Em dias de julho de 1566, quando Estácio de Sá tinha já lançado os fundamentos da cidade de S. Sebastião, perto do Pão de Açúcar, e se mantinha ali diante dos franceses e dos tamoios seus aliados, vieram alguns desses selvagens em vinte canoas simular um ataque, e realmente provocar os portugueses, que, deixando-se iludir saíram em quatro canoas a combatê-los. Fingiram-se os tamoios amedrontados e foram-se retirando. Com o que, ainda mais animados os portugueses, lançaram-se em seguida em perseguição do inimigo. Mas, de súbito, ao dobrar um cabo, viram-se no meio de duzentas canoas que cercaram as suas quatro. O combate era desigual e o êxito não podia ser duvidoso, tanto mais que alguns franceses animavam e dirigiam os índios. Sucedendo, porém, atear-se o fogo na pólvora de uma das canoas, e logo a mulher do principal ou Guaixará, que assim se chamava, ao ver o incêndio, começou, tomada de pavor, a bradar que era ardil dos portugueses para queimar a todos os tamoios, e logo deita a fugir, assim como o Guaixará e todos os seus companheiros de combate. Os portugueses atribuíram a milagre de S. Sebastião o terem escapado a tão grande perigo. O padre Simão de Vasconcelos diz que foi visto um soldado, muito gentil homem, aparecer de canoa em canoa, combatendo contra os selvagens, e referindo-se ao padre José de Anchieta, pretende que esse soldado fosse S. Sebastião. Certo é que voltaram à cidade nascente aqueles bravos de Estácio de Sá e os seus valorosos aliados, os índios do intrépido Ararigbóia; e em ação de graças por vitória tão assinalada. começaram a celebrar no dia 20 de janeiro, dedicado àquele santo mártir, a solenidade que por muito tempo ficou conhecida por Festa das Canoas.

Creio que os meus companheiros de passeio devem-me estar muito agradecidos pelo resumo que fiz de não sei quantas colunas no livro aterrador do padre Simão de Vasconcelos. Mas, em vez dos louvores que mereço por serviço tão relevante, eu peço em prêmio – a instituição de regatas – no Rio de Janeiro.

Digam-me cá. Os venezianos, armando-se em guerra e fazendo-se ao mar em perseguição dos piratas que lhes tinham roubado as suas noivas, e enfim batendo-os e trazendo em triunfo as suas belas, tiveram para as suas regatas origem mais interessante do que essas quatro canoas de portugueses e índios aliados, que não recuam diante de duzentas canoas inimigas, e que, pelejando com ardor, têm por companheiro no combate o próprio S. Sebastião, que espanta os inimigos com um fogo milagroso, que se diria, naquele caso e por aquele motivo, uma celeste flama?

Que importa que o sobrenatural se misture nesta tradição com os fatos registrados na História? Todos os povos amam e guardam zelosos suas tradições com todos os milagres que as exaltam, e vêem nelas um encanto e a poesia do seu passado.

Aproveitemos o pouco que temos em uma curtíssima vida de três séculos e meio.

As regatas são instituições utilíssimas. Não é preciso demonstrá-lo.

Achar na sua história uma origem romanesca para a instituição das regatas é ouro sobre azul para qualquer nação.

Pois então?

Restaure-se entre nós a Festa das Canoas com a instituição das regatas. O dia da festa marítima está marcado pela História. É o dia 20 de janeiro.

Que nos falta? Quem queira ser o juiz da festa?

O juiz da festa acha-se natural e suavemente eleito sem empenhos nem cabala.

O juiz da festa deve ser a corporação da marinha brasileira, que prestará assim um grande e bonito serviço à pátria e ao mártir S. Sebastião.

Disse.

(continua...)

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