Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
“As proporções e grossura geralmente observadas nas peças ósseas que melhor se conservaram; o notável desenvolvimento das desigualdades e asperezas destinadas às inserções musculares, como assim das espinhas ósseas e dos sulcos diversos; o volume das extremidades articulares dos ossos longos dos membros; o comprimento, a grossura e a notável incurvação da clavícula encontrada; a grande espessura do frontal, como dos fragmentos de outros ossos largos do crânio, que foram igualmente encontrados; os caracteres anatômicos das vértebras achadas, e sobretudo, a disposição das duas porções ilíacas dos respectivos ossos coxais, nos induzem com efeito a acreditar que o esqueleto de que se trata pertenceu a um individuo do sexo masculino. Não podendo, todavia, deixar de lastimar a impossibilidade em que nos achamos de apreciar a disposição geral da escavação da bacia, o grau de concavidade da face anterior do sacrum as dimensões e configuração dos buracos infrapubianos, o grau de afastamento das cavidades cotilóides, como assim as dimensões dos principais diâmetros do pélvis. elementos cuja apreciação imprimiria a esta nossa conclusão o desejável caráter de certeza anatômica.
“7ª Que esse esqueleto procede de um indivíduo cuja idade pode, com grande verossimilhança, ser calculada entre 35 a 50 anos.
“Na deficiência dos elementos anatômicos que principalmente caracterizam semelhantes idades sobre o esqueleto; uma completa da primeira peça do sacrum com as outras: soldadura do apêndice xifóide com o corpo do sternum, como assim do sacrum com o cóccix: – baseamos esta nossa conclusão sobre – a completa soldadura dos discos epifisários das vértebras encontradas, e sobre o estado das suturas dos ossos do crânio. As metades do frontal eram perfeitamente reunidas ou soldadas. A sutura frontoparietal e as porções encontradas das suturas sagital e lambdoidal são ainda muito aparentes, conquanto a união das peças ósseas e o encravamento das suas dentilações sega assás completo. O segundo molar encontrado é alvo e pouco gasto na sua coroa.
“8ª Que este esqueleto devia pertencer a um indivíduo cuja estatura aproximada e provável deve ser avaliada em lm.74l, por isso que o osso tíbia tinha 0,36c.
“9ª Que esse indivíduo seria de um corpo regular, pois a clavícula encontrada tinha 0.14c., o que inculca que o peito na sua parte superior, de um extremo clavicular a outro, ofereceria mais ou menos 0,32c. Por outra, que era um indivíduo de tipo português e de estatura regular.
“10ª Que os ossos pertencentes a este esqueleto, despidos tanto quanto foi possível da terra argilosa que lhes era aderente, pesaram 7 libras e 5 onças ou 117 onças; a saber: os ossos que por muito quebrados não foram classificados e os detritos purulentos, 56 onças. Ossos classificados, 61 onças.
“11ª Que os ossos reunidos pertencentes aos dois esqueletos encontrados no primeiro jazigo pesam 128 onças.
“12ª Que, finalmente, as peças ósseas encontradas no segundo jazigo, e que fizeram o mais particular assunto dos nossos estudos e análise, estiveram indubitavelmente inumadas por um imenso período durante séculos, pelo menos dois, pois que séculos são necessários para reduzir os ossos humanos às condições em que foram encontrados os restos que, com todo o fundamento, se julga pertencerem a Estácio de Sá.
“E para que conste a todo o tempo se lavrou o presente auto, que é assinado por S. M. o Imperador e por todas as pessoas acima designadas – D. Pedro II, Imperador constitucional e defensor perpétuo do Brasil, Augusto Duque-Estrada Meyer, Dr. Antônio Dias Coelho Neto dos Reis, Frei Caetano de Messina, Visconde de Sapucaí, Dr. Joaquim Manuel de Macedo, Joaquim Norberto de Sousa e Silva, Dr. José Ribeiro de Sousa Fontes, Carlos Honório de Figueiredo, Antônio Alves Pereira Coruja, Antônio Manuel de Melo, Manuel Ferreira Lagos, Felizardo Pinheiro de Campos, A. D. de Pascoal.”
No fim desta transcrição veio-me à lembrança que um homem sério, um desses altivos e carrancudos senhores que torcem o nariz a tudo quanto lhe cheira a poesia, achou poesia, id est, extravagância e falta de juízo na exumação dos restos de Estácio de Sá, e nas subseqüentes honras que foram prestadas à memória do assinalado varão, e olhando-me um pouco de revés, teve a complacência de dirigir-me a palavra perguntando:
– Para que serve isso?
Isso é um adjetivo que, pronunciado com certa contração dos lábios, exprime o profundo desprezo que sente quem o pronuncia.
Confesso a minha vergonha. Não pude responder ao homem sério, porque receei perder o restinho de confiança que lhe merecia. Mas, pensando comigo mesmo nos tributos de gratidão que se devem pagar aos varões prestantes que floresceram no passado; pensando que as honras prestadas aos beneméritos que já não vivem são incentivos que excitam à prática de virtudes; pensando que a história do passado é um tesouro que só os brutos desprezam, pus-me a avivar na memória os feitos de Estácio de Sá. E, idéia desperta idéia, lembrança chama lembrança, recordei-me de um fato do tempo desse distinto capitão, fato que bem pudera ser aproveitado para a instituição de uma festa muito popular e muito útil, e que, sem a menor dúvida, teria o seu encanto pelas recordações que despertaria.
As regatas de Veneza, sem dúvida muito famosas pelo número, riqueza e velocidade das gôndolas que tomavam nelas parte, e pela pompa com que se celebrava essa festa nacional, não eram menos pela sua origem romanesca. Ninguém ignora que os venezianos comemoravam com as regatas a libertação das noivas venezianas que atrevidos piratas haviam raptado.
Pois bem. Nós temos igualmente uma origem histórica e
romanesca para a instituição de regatas no Rio de Janeiro, e nesse ponto não
nos levará vantagem a antiga rainha do Adriático. Mais ainda. Nos tempos
primitivos da cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro, celebrava-se anual e
regularmente uma solenidade que então tinha o nome de Festa das Canoas.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.