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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

“Por baixo desta inscrição viam-se as armas de sua casa.

“E removida a lápide, com facilidade conheceu-se então que não havia depósito algum, como era de presumir, por isso que, sendo o corpo de Estácio de Sá sepultado em Vila Velha, povoação e fortaleza por ele fundadas nas imediações do Pão de Açúcar, só dezesseis anos depois é que seus ossos foram removidos para a nova povoação do morro do Castelo, traçada por Salvador Correia de Sá, que a firmou com o marco da conquista, que ainda existe à porta principal do templo, e que daí a um século se ficou chamando Cidade Velha, para distinção da novíssima povoação que se estendeu pelos vales de S. Bento, da Misericórdia e Ajuda, e ainda da primitiva, conhecida por Vila Velha. Assim pois, era uma sepultura rasa sobre o solo artificial da igreja, o qual foi cavado cuidadosamente na extensão de dez palmos sobre cinco de largo e cinco de profundidade.

“E, começadas as escavações, apareceram nas primeiras camadas de argila alguns ossos de criança, e depois ossos de adulto, e finalmente, onde terminava o aterro e começava o solo primitivo da montanha, encontraram-se ossos que por sua antiguidade mereceram ser recolhidos separadamente dos outros. E, tendo-se concluído a exumação, e levados os restos mortais para a capela provisória de S. Sebastião, estabelecida na sacristia da mesma igreja, entoou frei Caetano de Messina com os demais sacerdotes de sua missão um memento, a que assistiram S. M. o Imperador, as pessoas aqui declaradas e grande número de indivíduos de todas as classes; e finda a cerimônia religiosa recomendou S. M. Imperial que se lavrasse o presente auto, sendo os ossos previamente sujeitos a exame científico, de que foram encarregados pelo mesmo augusto senhor os Srs. José Ribeiro de Sousa Fontes e Francisco Ferreira de Abreu, para serem quanto antes encerrados convenientemente em urna duradoura e depositados no mesmo lugar, sob a lápide que os cobre há 279 anos.

“E, feito o exame ordenado por S. M. o Imperador, apresentaram os mencionados doutores as 12 seguintes conclusões:

“1ª Que foram evidentemente reconhecidos e com precisão determinados durante a exumação (pelo 1º perito) e pelos exames ulteriores feitos em comum, apreciada a disposição e natureza do solo, os limites da sepultura indicada como devendo conter os ossos de Estácio de Sá.

“2ª Que nessa sepultura não fora inumado cadáver algum, mas sim, depositadas as peças pertencentes a três esqueletos. Este fato se deduz naturalmente da falta de relações anatômicas em que foram encontrados os diferentes ossos, acumulados sem ordem, confundidos entre si, como assim do respectivo exame anatômico dos mesmos.

“3ª Que os ossos encontrados no primeiro jazigo ou camada superficial, a uma profundidade apenas de dois palmos mais ou menos, procedem de dois indivíduos distintos, o primeiro dos quais teria no máximo 15 anos de idade, e cujo sexo não pode ser determinado, e o segundo era um adulto.

“4ª Que as peças ósseas do primeiro jazigo, separadas das do segundo por uma espessura de terreno de três palmos pouco mais ou menos, e visivelmente distintas destas últimas por sua maior consistência e peso específico, pela melhor conservação dos seus elementos, e por outros caracteres mais, procedem indubitavelmente de indivíduos que sucumbiram posteriormente, e em uma época muito mais aproximada de nós. Procedem elas dos restos de outros membros da mesma família ou tronco, e que mais tarde foram também trasladados para o mesmo jazigo.

“5ª Que as peças ósseas encontradas no segundo jazigo, e em grande parte carcomidas ou destruídas pela voracidade do tempo, parecem pertencer todas a um único e mesmo esqueleto.

“6ª Que este esqueleto pertenceu a um indivíduo do sexo masculino.

(continua...)

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