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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

De dentro saltou o Telles da Gama que, ainda com a mão no fecho da portinhola, gritou aos dois amigos: - O Gouvarinho? está lá em cima?

- Está... Novidade fresca?

- Os homens cahiram. Foi chamado o Sá Nunes!

E enfiou pelo pateo, correndo. Carlos e Ega continuaram devagar até ao portão do Cruges. As janellas do primeiro andar estavem abertas, sem cortinas. Carlos, erguendo para lá os olhos, pensava n'essa tarde das corridas em que elle viera no phaeton, de Belem, para vêr aquellas janellas: ia então escurecendo, por traz dos stores fechados surgira uma luz, elle contemplára-a como uma estrella inaccessivel... Como tudo passa! Retrocederam para o Gremio. Justamente o Gouvarinho e Telles atiravam-se á pressa para dentro da caleche que esperára. Ega parou, deixou cahir os braços:

- Lá vae o Gouvarinho batendo para o Poder, a mandar representar a Dama das Camelias no sertão! Deus se amerceie de nós!

Mas o Cruges appareceu emfim de chapéo alto, entalado n'uma sobrecasaca solemne, com botins novos de verniz. Apilharam-se logo na tipoia estreita e dura. Carlos ia leval-os a casa do Damaso. E como queria ainda jantar nos Olivaes, esperaria por elles, para saber o resultado «do chinfrin», no jardim da Estrella, junto ao coreto.

- Sêde rapidos e medonhos!

A casa do Damaso, velha e d'um andar só tinha um enorme portão verde, com um arame pendente que fez resoar dentro uma sineta triste de convento e os dois amigos esperaram muito antes que apparecesse, arrastando as chinelas, o gallego achavascado que o Damaso (agora livre de Carlos e das suas pompas) já não trazia torturado em botins crueis de verniz. A um canto do pateo uma portinha abria sobre a luz d'um quintal, que parecia ser um deposito de caixotes, de garrafas vazias e de lixo.

O gallego, que reconhecera o snr. Ega, conduziu-os logo, por uma escadinha esteirada, a um corredor largo, escuro, com cheiro a môfo. Depois, batendo o chinelo, correu ao fundo, onde alvejava a claridade d'uma porta entreaberta. Quasi immediatamente Damaso gritou de lá:

- Ó Ega, é você? Entre para aqui, homem! Que diabo!... Eu estou-me a vestir...

Embaraçado com estes brados de intimidade e tanta effusão, Ega ergueu a voz da sombra do corredor, gravemente:

- Não tem duvida, nós esperamos...

O Damaso insistia, á porta, em mangas de camisa, cruzando os suspensorios:

- Venha você, homem! Que diabo, eu não tenho vergonha, já estou de calças!

- Ha aqui uma pessoa de ceremonia, gritou o Ega para findar.

A porta ao fundo cerrou-se, o gallego veio abrir a sala. O tapete era exactamente igual aos dos quartos de Carlos no Ramalhete. E em redor abundavam os vestigios da antiga amizade com o Maia: o retrato de Carlos a cavallo, n'um vistoso caixilho de flôres em faiança: uma das colchas da India das senhoras Medeiros, branca e verde, enroupando o piano, arranjada por Carlos com alfinetes: e sobre um contador hespanhol, debaixo de redoma, um sapatinho de setim de mulher, novo, que o Damaso comprára no Serra, por ter

ouvido um dia a Carlos que «em todo o quarto de rapaz deve apparecer, discretamente disposta, alguma reliquia d'amor...»

Sob estes retoques de chic, dados á pressa sob a influencia do Maia, impertigava-se a sólida mobilia do pai Salcede, de mogno e velludo azul; a console de marmore, com um relogio de bronze dourado, onde Diana acariciava um galgo; o grande e dispendioso espelho, tendo entalado no caixilho uma fila de bilhetes de visita, de retratos de cantoras, de convites para soirées. E Cruges ia examinar estes documentos, quando os passos alegres do Damaso soaram no corredor. O maestro correu logo a perfilar-se ao lado do Ega, diante do canapé de velludo, teso, commodo, com o seu chapéo alto na mão.

Ao vêl-o, o bom Damaso, que se abotoára todo n'uma sobrecasaca azul, florida por um botão de camelia, atirou risonhamente os braços ao ar:

- Então esta é que é a pessoa de ceremonia? Sempre vocês têm coisas! E eu a pôr sobrecasaca... Por pouco que não lhe afinfo com o habito de Christo!...

Ega atalhou, muito sério:

- O Cruges não é de ceremonia, mas o motivo que aqui nos traz é delicado e grave, Damaso.

Damaso arregalou os olhos, reparando emfim n'aquelle estranho modo dos seus amigos, ambos de negro, seccos, tão solemnes. E recuou, todo o sorriso se lhe apagou na face.

- Que diabo é isso? Sentem-se, sentem-se vocês...

A voz apagava-se-lhe tambem. Pousado á borda d'uma poltrona baixa, junto d'uma mesa coberta d'encadernações ricas, com as mãos nos joelhos, ficou esperando, n'uma anciedade.

- Nós vimos aqui, começou Ega, em nome do nosso amigo Carlos da Maia...

Uma brusca onda de sangue cobriu a face rechonchuda do Damaso até á risca do cabello encaracolado a ferro. E não achou uma palavra, attonito, suffocado, esfregando estupidamente os joelhos.

(continua...)

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