Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

“A igreja continha um numeroso concurso de pessoas de todas as classes e sexos. Começou para logo a cerimônia religiosa, e a música suave e melancólica, com toda a pompa da natureza brasileira, e digna por certo de José Maurício Nunes Garcia, ecoou nas restauradas naves do templo. Fez o panegírico de S. Sebastião, e recordou as tradições históricas de Estácio de Sá, o rev. cônego José Luís Gomes de Meneses. Finda a festividade, seguiu-se a cerimônia fúnebre. Ergueu-se no corpo da igreja uma eça, onde foi depositada, sobre uma padiola, a urna que contém os restos do grande capitão. É um cofre fabricado de pau-brasil, fechado a tornos, encerrando outro de chumbo com 16 polegadas de comprido, 10 de largo e 10 de altura, no qual foram postas as cinzas em 30 de novembro do ano passado, e depois soldado. Desse ato se lavraram dois termos de um só teor, assinados pelo presidente do Instituto, o Sr. visconde de Sapucaí e seus secretários, os Srs. Drs. José Ribeiro de Sousa Fontes e Carlos Honório de Figueiredo, e o rev. prefeito frei Caetano de Messina.

“Entoou-se, ao som melancólico e religioso do órgão, um memento.

“Então. S M. o Imperador, deixando o dossel, veio em pessoa prestar augusta homenagem a tão venerandos restos.

“Pegaram nas argolas da padiola S. M. o Imperador e o Sr.

conselheiro Sinimbu à direita os Srs. marquês de Abrantes e visconde de Sapucaí à esquerda, e conduziram a urna para junto da campa. A fim de receber a urna, entrou o Sr. dr. Sousa Fontes no carneiro, construído de pedra de alvenaria e dividido em duas partes. Na parte de cima estava um caixão de cedro contendo os ossos duvidosos encontrados na campa. Na parte de baixo havia um vão, forrado de cantaria lavrada, destinado à urna de pau-brasil.

“S. M. o Imperador ordenou que se lesse o auto da exumação de cuja redação fora incumbido o Sr. J. Norberto de Sousa e Silva. O Sr. cônego Dr. J. C. Fernandes Pinheiro procedeu à sua leitura, que foi ouvida com religiosa atenção, como 1º secretário do Instituto.

“Depositou-se depois o auto no vão formado pelas pedras de cantaria. O Sr. A. A. Pereira Coruja apresentou as gazetas publicadas no dia e as seguintes moedas, que foram colocadas no mesmo lugar: 1 de 20$ e 1 de l0$ do ano de 1861, e 1 de 5$, de 1855, todas de ouro; 1 de 2$, de 1857, 1 de 1$, 1 de 500 rs. e 1 de 200 rs., de 1862, todas de prata. Frei Caetano de Messina ofereceu uma medalha de ouro sobre o dogma da imaculada Conceição da Santa Viagem com a efígie de Pio IX e outra de prata com as imagens de N. S. da Conceição e S. Francisco de Assis, as quais tiveram o mesmo destino e foram postas sobre o auto.

“Metida a urna no vão de cantaria, foi este hermeticamente fechado com uma lápide de mármore, tomada com cimento, contendo em letras indeléveis e douradas a seguinte inscrição:

Restos mortais de Estácio de Sá, exumados desta sepultura

em 16 de novembro de 1862, a ela restituídos em 20 de janeiro de 1863.

“A pesada lápide da antiga campa rolou então sobre o pavimento e ajustou-se sobre o carneiro. Eram 2¼ horas da tarde.

“S. M. o Imperador deu a cerimônia por concluída e retirou-se, descendo a ladeira da Ajuda, acompanhado de quase todas as pessoas que assistiram a este ato de tão grande acatamento e respeito pago ao fundador da capital do império.

“Aqui transcrevemos o auto da exumação dos ossos de que acima falamos.

“Aos 16 dias do mês de novembro do ano de 1862, nesta cidade do Rio de Janeiro, e na igreja de S. Sebastião do morro do Castelo, antiga Sé da cidade velha, achando-se presentes S. M. o Imperador o Sr. D. Pedro II, acompanhado de seus semanários gentil-homem da imperial câmara, Augusto Duque-Estrada Meyer e guarda-roupa Dr. Antônio Dias Coelho Neto dos Reis, o prefeito dos missionários capuchinhos que ao presente ocupam a mesma igreja, frei Caetano de Messina, e mais missionários e os membros do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, visconde de Sapucaí, presidente Dr. Joaquim Manuel de Macedo, 2º vice-presidente, Joaquim Norberto de Sousa e Silva, 3º dito, Dr. José Ribeiro de Sousa Fontes, 2º secretário, bacharel Carlos Honório de Figueiredo, secretário adjunto, Antônio Álvares Pereira Coruja, tesoureiro, e os sócios conselheiros Antônio Manuel de Melo, comendador Manuel Ferreira Lagos, bacharel Felizardo Pinheiro de Campos e A. D. de Pascoal, e grande número de pessoas gradas, se dirigiram ao meio-dia ao presbitério da capela-mor da mesma igreja, onde junto aos degraus do altar se achavam sepultados os ossos de Estácio de Sá, primeiro governador e povoador do Rio de Janeiro, para proceder à sua exumação, visto ter entrado a igreja em conserto e ser necessário elevar o pavimento da mesma, a fim de que a todo o tempo conste o respeito e veneração que mereceu a conservação dos restos do fundador da capital do império, que na sua conquista adquiriu a glória do martírio pela coragem e afouteza com que barateou a vida nas batalhas de Uruçumirim e Paranapuca, que foram ganhas aos tamoios e aos franceses seus aliados.

“E, sendo ordenada a exumação por S. M. o Imperador, procedeu-se à remoção de uma lápide de granito do país, lavrada, mas não polida, de nove palmos de comprido, quatro de largo e um de espessura, que se achava rente com o solo e tinha gravado na face exterior o seguinte epitáfio, em letras capitais de caráter latino, sendo o algarismo em caracteres arábicos:

Aqui jaz Estácio de Sá, primeiro capitão e conquistador desta terra e cidade, e a campa mandou fazer Salvador Correia de Sá, seu primo, segundo capitão e governador, com as suas armas. E esta capela acabou no ano de 1583.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...202203204205206...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →