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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

emtanto não sahia do seu espanto. Mas porque cahia, porque cahia assim um governo com maioria nas camaras, socego no paiz, o apoio do exercito, a benção da Igreja, a protecção do Comptoir d'Escompte?... O Gouvarinho correu devagar os dedos pela pera, e murmurou esta razão:

- O ministerio estava gasto.

- Como uma vela de sebo? exclamou Ega, rindo.

O conde hesitou. Como uma vela de sebo não diria... Sebo subentendia obtusidade... Ora n'este ministerio sobrava o talento.

Incontestavelmente havia lá talentos pujantes...

- Essa é outra! gritou Ega atirando os braços ao ar. É extraordinario! N'este abençoado paiz todos os politicos têm immenso talento. A opposição confessa sempre que os ministros, que ella cobre d'injurias, têm, á parte os disparates que fazem, um talento de

primeira ordem! Por outro lado a maioria admitte que a opposição, a quem ella constantemente recrimina pelos disparates que fez, está cheia de robustissimos talentos! De resto todo o mundo concorda que o paiz é uma choldra. E resulta portanto este facto supra-comico: um paiz governado com immenso talento, que é de todos na Europa, segundo o consenso unanime, o mais estupidamente governado! Eu proponho isto, a vêr: que como os talentos sempre falham, se experimentem uma vez os imbecis!

O conde sorria com bonhomia e superioridade a estes exageros de phantasista. E Carlos, ancioso por ser amavel, atalhou, accendendo o charuto no d'elle:

- Que pasta preferiria você, Gouvarinho, se os seus amigos subissem? A dos Estrangeiros, está claro... O conde fez um largo gesto d'abnegação. Era pouco natural que os seus amigos necessitassem da sua experiencia politica. Elle tornára-se sobretudo um homem d'estudo e de theoria. Além d'isso não sabia bem se as occupações da sua casa, a sua saude, os seus

habitos lhe permittiriam tomar o fardo do governo. Em todo o caso, decerto, a pasta dos Estrangeiros não o tentava...

- Essa, nunca! proseguiu elle, muito compenetrado. Para se poder fallar d'alto na Europa, como ministro dos Estrangeiros, é necessario ter por traz um exercito de duzentos mil homens e uma esquadra com torpedos. Nós, infelizmente, somos fracos... E eu, para

papeis subalternos, para que venha um Bismarck, um Gladstone, dizer-me «ha de ser ssim», não estou!... Pois não acha, Steinbroken?

O ministro tossiu, balbuciou:

- Certainement... C'est très grave... C'est excessivement grave...

Ega então affirmou que o amigo Gouvarinho, com o seu interesse geographico pela Africa, faria um ministro da Marinha iniciador, original, rasgado... Toda a face do conde reluzia, escarlate de prazer.

- Sim, talvez... Mas eu lhe digo, meu querido Ega, nas colonias todas as coisas bellas, todas as coisas grandes estão feitas.

Libertaram-se já os escravos; deu-se-lhes já uma sufficiente noção da moral christã; organisaram-se já os serviços aduaneiros... Emfim o melhor está feito. Em todo o caso ha ainda detalhes interessantes a terminar... Por exemplo, em Loanda... Menciono isto apenas

como um pormenor, um retoque mais de progresso soa dar. Em Loanda precisava-se bem um theatro normal como elemento civilisador!

N'esse momento um criado veio annunciar a Carlos - que o snr. Cruges estava em baixo, no portal, á espera. Immediatamente os dois amigos desceram.

- Extraordinario, este Gouvarinho! dizia o Ega na escada.

- E este, observou Carlos com um immenso desdem de mundano, é um dos melhores que ha na politica. Pensando mesmo bem, e mettendo a roupa branca em linha de conta, este é talvez o melhor.

Acharam o Cruges á porta, de jaquetão claro, embrulhando um cigarro. E Carlos pediu-lhe logo que voltasse a casa vestir uma sobrecasaca preta. O maestro arregalava os olhos. - É jantar?

- É enterro.

E rapidamente, sem alludir a Maria, contaram ao maestro que o Damaso publicára n'um jornal, a Corneta do Diabo (cuja tiragem elles tinham supprimido, não sendo possivel por isso mostrar o numero immundo) um artigo em que a coisa mais dôce que se chamava a

Carlos era pulha. Portanto Ega e elle Cruges iam a casa do Damaso pedir-lhe a honra ou a vida.

- Bem, rosnou o maestro. Que tenho eu a fazer?... Que eu d'essas coisas não entendo.

- Tens, explicou Ega, d'ir vestir uma sobrecasaca preta e franzir o sobr'olho. Depois vir commigo; não dizer nada; tratar o Damaso por «v. exc.ª»; assentar em tudo o que eu propuzer; e nunca desfranzir o sobr'olho nem despir a sobrecasaca...

Sem outra observaçáo, Cruges partiu a cobrir-se de ceremonia e de negro. Mas no meio da rua retrocedeu:

- Ó Carlos, olha que eu fallei lá em casa. Os quartos do primeiro andar estão livres, e forrados de papel novo...

- Obrigado. Vai-te fazer sombrio, depressa!... O maestro abalára, quando diante do Gremio estacou a todo o trote uma caleche.

(continua...)

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