Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Era o religioso a que me refiro de família abastada, e no século floresceu como sacerdote e vigário colado na Itália. Desprezou, porém, todos os bens do mundo pelo amor de Deus e pelo desejo de se agregar à congregação dos barbadinhos, professando a regra respectiva com o nome de padre frei Paulino de Limone. Sendo destinado às missões e mandado para o Brasil, desembarcou na Bahia, e nessa província se ocupou da catequese dos índios em Rodelas durante cinco anos. Chamado depois pela obediência a esta corte, distinguiu-se na pregação da palavra de Deus. Era de todos estimado.
Tinha frei Paulino por costume ir todas as tardes fazer oração em um quarto que havia no ângulo do hospício do lado do mar. No dia 6 de outubro de 1854, pelas duas horas da tarde, rompeu uma furiosa tempestade. Ribombavam os trovões com violência, quando frei Paulino, chegada a hora costumada de suas orações, dirigiu-se ao quarto mencionado. Apenas, porém, acabava de entrar nele, caiu morto, fulminado por um raio.
Agora, meus companheiros de passeio, chegamos ao último ponto com que me cumpre ocupar a vossa atenção. Não vos contarei novidade alguma, porque tenho apenas de referir fatos que se passaram recentemente aos olhos de todos na cidade do Rio de Janeiro, e que devem ficar registrados neste rápido estudo que vou fazendo.
Adiantando-se as novas obras da igreja de S. Sebastião do Castelo, e chegada a ocasião de se tocar no pavimento que devia ser melhorado e alteado, recebeu disso comunicação o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, que, rendendo as devidas honras ao primeiro fundador da cidade do Rio de Janeiro, resolveu ir testemunhar e ainda presidir a exumação dos restos de Estácio de Sá, que conseqüentemente foram recolhidos e depois solenemente encerrados em uma urna, em sinal do respeito e gratidão que se devem à memória do ilustre varão.
As duas cerimônias de que acabo de falar acham-se perfeitamente descritas em um artigo da redação do Jornal do Comércio, a 22 de janeiro de 1863, porque, além da descrição da solenidade do dia 20 do mesmo mês e ano, vem nesse artigo transcrito o ato da exumação a que se procedera no dia 16 de novembro de 1862. Sendo assim e achando eu trabalho feito, aproveito-me do labor alheio, e sem mais cerimônia, copio ipsis verbis tudo quanto a respeito escreveu o Jornal do Comércio.
Aí vai a história.
“Estácio de Sá – Publicamos em seguida a notícia circunstanciada do que se passou no dia 20 do corrente, por ocasião da nova exumação dos restos mortais deste homem ilustre.
“Efetuou-se com toda a solenidade a inumação dos restos de Estácio de Sá, primeiro governador e fundador desta cidade que há 296 anos desbaratara os tamoios, que se haviam aliado aos franceses e se achavam entrincheirados nas aldeias de Urucumirim e Paranapuca.
“Comprou Estácio de Sá a vitória à custa de sua própria vida, e, mártir, regou com sangue os alicerces da cidade que fundava, e que, mal sabia ele, tinha de ser a capital de um grande império.
“O Instituto Histórico Brasileiro associou-se a este ato de homenagem de S. M. o Imperador, que, para lhe dar maior realce, ordenou que a festa de S. Sebastião, o santo mártir padroeiro da nossa cidade, que até aqui se celebrava na capela imperial, se fizesse este ano na primitiva Sé do Rio de Janeiro, na igreja do Castelo.
“Às 11 3/4 horas chegou S. M. o Imperador, acompanhado de seus semanários.
“Os Srs. Ministros dos Negócios Estrangeiros e das Obras Públicas, o presidente da Câmara Municipal, o cabido e mais empregados da Sé catedral da imperial capela, o prefeito dos capuchinhos e seus missionários e os membros do Instituto Histórico saíram ao encontro de Sua Majestade, que foi recebido ao som do hino nacional, tocado pela banda de música da guarda de honra postada ao lado da igreja.
“O templo, erguido do meio de suas ruínas, não está ainda completo. Viam-se ainda algumas construções incompletas através de suas singelas galas. No teto abobadado do presbitério e por cima da campa do grande capitão sobressai um painel análogo à reconstrução da igreja. É um monge amparando um templo que se desmorona. Do céu como do seio de uma aurora boreal, saem estas palavras:
Vai, Francisco, Repara a minha casa,
Que está caindo em ruínas.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.