Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

A igreja tem, como dantes, três naves. Mas os pilares, que em duas ordens se erguiam e que eram octangulares, são agora redondos, fingindo colunas de mármore.

Os altares elevaram-se ao número de nove, três de cada lado, mais dois em duas capelas aos lados do altar-mor e este. Cada um dos primeiros tem um arco singelo, as capelas os seus zimbórios.

Na altura de trinta palmos corre uma cimalha de madeira de ambos os lados da capela-mor e chega até o fundo da igreja. Por baixo da cimalha daquela, a parede é forrada até o chão com tábuas de cedro, tendo colunas que descem até o soalho e correspondem ao risco do forro. Entre estas devem mostrar-se quatro painéis cercados de obra de talha. Os painéis serão de N. S. de Belém, de S. João Batista, de S. Januário e de S. André Avelino, que conservaram a memória dos antigos que estavam nos altares.

O arco-cruzeiro recebeu ornamentos de obra de talha, e por cima dele vê-se a arca santa, na parte superior da qual se mostra N. Senhora, sendo este grupo cercado de nuvens, no meio das quais aparecem cabeças de querubins e os dois anjos da antiga igreja, ajoelhados aos lados da arca.

As portas laterais e os dois portões da principal são novos e aquelas mais altas que as antigas.

A igreja será dividida por grades com balaústres, que fecharão os altares, a capela-mor e as capelas laterais.

Oportunamente a igreja terá um pátio cercado de grades de ferro e com dois portões também de ferro.

Terminando aqui as informações que posso dar a respeito das obras feitas e por fazer na antiga igreja de S. Sebastião é de justiça dizer que o adiantamento que elas têm tido abonam muito o zelo e a dedicação que nesse empenho há mostrado o reverendíssimo prefeito dos barbadinhos, o padre-mestre frei Caetano de Messina, aliás já recomendável por outros trabalhos da mesma natureza realizados em Pernambuco, e sobretudo, pelo importante colégio de Papacaça, por ele fundado nessa província, e onde se educam muitas dezenas de meninas.

Antes de considerar o assunto principal deste passeio, que é aquele com que o rematarei, quero deixar ainda alguns apontamentos relativos aos barbadinhos italianos.

O padre-mestre frei Fidélis mandou vir da Itália para a igreja de S. Sebastião duas imagens de santas, a de Santa Verônica Juliani capuchinha, e Santa Filomena, virgem e mártir. E vendo que muitos fiéis tomavam por elas grande devoção, lembrou-se de instituir duas irmandades que se ocupassem do culto destas santas. Bem depressa, porém, as irmandades e os religiosos barbadinhos acharam-se em desacordo, e de modo tão positivo e desagradável que o prefeito e comissário geral, frei Fabiano de Scandiano, pôs termo às desavenças, despedindo e mandando com Deus aquelas corporações.

Tenho por vezes repetido o título de comissário geral que teve o padre-mestre frei Fabiano, e tem o atual prefeito o padre-mestre frei Caetano de Messina. Parece-me, pois, conveniente explicar a origem dele e as obrigações que lhe pertencem.

O título de comissário geral é um caráter de superioridade que a sacra congregação e os superiores dos barbadinhos em Roma deram ao prefeito destes religiosos no Rio de Janeiro, a fim de que todos os prefeitos e vice-prefeitos do império do Brasil dependessem dele e a ele recorressem nas dificuldades e dúvidas em que porventura se achassem em suas administrações, e para que também essa autoridade tratasse os negócios das missões com o governo imperial e desse de tudo parte aos chefes em Roma. A princípio, os prefeitos recorriam a Roma ou ao núncio apostólico. Mas pareceu melhor ao governo imperial tratar com um comissário geral, e exigiu que uma tal autoridade fosse criada no Brasil, para que por meio dela negociasse as coisas da missão com os superiores dos barbadinhos na capital do mundo católico.

Os novos religiosos barbadinhos que entraram no Brasil e que administraram a igreja de S. Sebastião acham-se entre nós há vinte e um anos. Tem-se dito e escrito longamente a favor e contra ele. Mas eu já protestei que não entraria em questões desta ordem, e limito-me a declarar que estimaria vê-los sempre muito ocupados com a catequese do nosso gentio e um pouco menos com a direção das almas dos habitantes das nossas cidades e povoações.

Entretanto, é certo que alguns desses religiosos têm prestado bons serviços, e ainda mesmo aqui, na capital, mostram-se dedicados no cumprimento de seus deveres religiosos, especialmente quando nos vimos flagelados pela febre amarela e pelo cólera-mórbus.

Devo lembrar o nome de um desses capuchinhos italianos que deixou suaves recordações e desceu à sepultura, morrendo de morte súbita e inesperada nessa mesma igreja de S. Sebastião do Castelo.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...200201202203204...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →