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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Entretanto, o sucessor de frei Fidélis de Montuano, o padre-mestre trei Fabiano de Scandiano, prefeito e primeiro comissário geral dos missionários barbadinhos em todo o Brasil, oficiava por vezes ao governo, mostrando a urgente necessidade da restauração da igreja, e perdia o seu papel e a sua prosa como se pregasse no deserto, porque o governo ou não lhe dava resposta, ou lhe respondia com a mais desesperadora concisão: “Não há dinheiro.”

Frei Fabiano de Scandiano foi chamado a Roma, sendo substituído na prefeitura e comissariado geral pelo padre-mestre frei Caetano de Messina, que ainda mais apertou o governo com pedidos e reclamações de meios pecuniários para restaurar a igreja. Creio, porém, que teria sido tão infeliz como o seu antecessor, apesar das promessas que lhe fizeram alguns ministros, se não viesse apadrinhá-lo uma violenta tempestade.

Com efeito, no dia 21 de novembro de 1861, desenfreou-se uma tremenda borrasca, ao ímpeto da qual sentiu-se abalar a velha igreja, que estremeceu em suas cansadas paredes. S. Sebastião susteve ainda nesse dia a sua casa, mas força foi reconhecer que ela não tardaria muito tempo a cair.

A imprensa periódica da capital registrou este fato. O padre-mestre frei Caetano insistiu em seus pedidos, que o governo dessa vez atendeu; e pondo-se logo mãos à obra que devia restaurar o templo, trasladaram-se nos primeiros dias de dezembro desse mesmo ano as sagradas imagens, com toda a solenidade, fazendo-se uma procissão, na qual levou o Santíssimo Sacramento o Ex.mo Sr. Bispo de Goiás, então recentemente sagrado, e, desmanchando-se a igreja arruinada, continuaram, entretanto, os capuchinhos a oficiar em uma capela provisória preparada na sacristia.

Deus escreve direito por linhas tortas.

Diz o povo da nossa capital que o fogo é um elemento de progresso no Rio de Janeiro, porque à medida que alguns incêndios devoram casebres que afeiam a cidade, levantam-se logo depois e no mesmo lugar casas menos mesquinhas.

Para a igreja de S. Sebastião do Castelo, ou para a antiga Sé, o elemento de progresso não foi o fogo. Foi uma tempestade, que esteve a ponto de derribá-la.

Todavia, cumpre confessar que não é das coisas mais bonitas que se esteja esperando por grandes desastres para se tomar providências, aliás reclamadas por urgente necessidade.

Reparo agora que os meus companheiros de passeio estão arfando de fadiga.

Por conseqüência... adiamento no caso. 

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Passeio suplementar II

NO meu último passeio descrevi a igreja de S. Sebastião como ela era em 1842 e se conservou até o fim do ano de 1861. Agora vou descrevê-la como hoje se acha, e como deve mostrar-se em breve prazo, quando se terminarem todas as suas obras.

O templo não mudou em relação à ordem arquitetônica. Sofreu, porém, modificação em algumas de suas disposições.

A igreja antiga era muito baixa e escura, e, encontrando-se nela paredes rachadas e desaprumadas, que tiveram de se levantar de novo, houve ocasião de se corrigir esses defeitos.

A paredes laterais tinham trinta palmos, e têm agora quarenta de altura. As do meio tinham quarenta, e se elevam hoje a mais de cinqüenta. As da capela-mor eram de trinta palmos e passaram a ter quarenta e oito. A da frente da igreja não excedia a quarenta e cinco e excede agora a sessenta.

O templo era, como disse, escuro. O coro recebia luz por uma janela e um óculo, e as naves dos altares laterais por cinco clarabóias colocadas no telhado, uma sobre cada arco. A maior altura que as novas obras deram às paredes permitiu que se rasgassem quatro janelas de cada lado do corpo da igreja, duas de cada lado da capela-mor, e mais duas aos lados do camarim. Ao todo, quatorze janelas, e todas de cantaria.

A torre do lado direito estava rachada desde cima até os alicerces. Foi consertada, ficando sem obelisco, para não agravar mais os alicerces; e ajuntando-se-lhe um gigante do lado do mar, para dar-lhe mais segurança, sobre o gigante construiu-se uma escada, por onde se sobe ao coro e à mesma torre. A outra, do lado esquerdo, também consertada e caiada, perdeu um galo que pousava sobre ela, e que teve de ceder o poleiro a um S. Miguel de cobre. Ignoro se o galo, por ter descido do poleiro, declarou-se em oposição a S. Miguel. É este um problema que deve ser resolvido pelos nossos políticos.

Na frente da igreja corre uma cimalha, e por cima do telhado, entre as duas torres, levantou-se uma cruz de cantaria que tem nove palmos de altura. Por baixo dessa mesma cimalha há um óculo de dezesseis palmos de circunferência, e conservou-se metade da janela do coro.

No interior da igreja levantou-se o coro à altura de trinta palmos, pôs-se-lhe uma grade de balaústres, deram-se-lhe uma forma mais graciosa e alguns ornamentos de obra de talha.

(continua...)

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