Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Simples em seu aspecto exterior, a igreja de S. Sebastião do Castelo apresentava na frente uma porta principal e duas laterais. Sobre a primeira uma janela e um óculo davam luz ao coro. Duas torres formavam os ângulos da frente da igreja. Das portas laterais uma olhava para o Castelo, a outra para a barra do Rio de Janeiro. Perto da porta principal e do lado do Castelo via-se erguido um frade de pedra, como o povo chama, tendo em uma de suas faces gravadas as cinco chagas e na outra uma cruz. Era tradição, mas tradição que me parece não ter fundamento, que debaixo dessa pedra fora sepultado o primeiro soldado que morrera nas pelejas do dia 20 de janeiro de 1567. No fundo ligava-se ao templo uma pequena casa que era a sacristia.
Em seu interior o templo pertencia em sua arquitetura à ordem toscana. Havia três naves, no meio elevavam-se cinco pilares octangulares, de cada lado com as suas bases forradas de madeira, as paredes laterais eram de trinta palmos e as do meio, que eram sustidas por arcos assentados sobre os pilares, tinham quarenta palmos. Corria em todo o corpo da igreja uma pequena cimalha de madeira.
Os altares eram cinco, dois de cada lado e o principal. Do lado do Evangelho, no primeiro havia um painel de N. S. de Belém, que representava a adoração dos Reis Magos. No segundo estava S. André Avelino, que, por muito estragado, frei Fidélis fez substituir por outro painel em que se viam S. Francisco de Assis, S. Antônio e S. Afonso de Liguori. Os altares do outro lado pertenciam a S. João Batista e a S. Januário. Os altares eram singelos e sem obra de talha.
Antigamente, e ainda no século atual, o povo do Rio de Janeiro era muito devoto de S. Januário, a quem se festejava com pompa todos os anos, e igualmente de N. S. de Belém, que era honrada com especialidade em todo o oitavário do Natal.
O arco cruzeiro da igreja era de extrema singeleza, tendo apenas algum trabalho de talha. No altar-mor, o retábulo era em parte dourado e em parte pintado de amarelo. Pouco trabalho de talha nele havia, e apenas se notavam dois anjos de seis palmos de altura. Sobre o trono do altar-mor estava um nicho onde se via o padroeiro S. Sebastião, tendo a imagem quatro palmos de altura.
No meio do arco cruzeiro da capela-mor viam-se a coroa de Portugal e as armas e o escudo do Brasil.
No prebistério da capela-mor, ao pé dos degraus, que são três e eram de pedra do país, estava (e estará) a sepultura de Estácio de Sá, da qual já em outro passeio dei conta, e por conseqüência julgo-me dispensado de tornar a fazê-lo neste.
Fora da grade do altar-mor havia algumas pedras sepulcrais, umas tendo inscrição e outras não. Uma daquelas estava ao lado da Epístola e rezava deste modo:
Francisco d’Alvarenga deitado jaz aqui neste crucifixo e seja ressuscitado daqui donde está sepultado em o dia derradeiro.
Outra, que era de pedra de Lisboa e estava ao lado do Evan-
gelho, rezava:
A
S
De Francisco de Caldas
e de sua mulher Helena de
Sousa e seus Herdeiros.
Outra pedra sepulcral estava na capela-mor do lado do Evangelho, e tinha inscrição. Esta, porém, tão consumida pelo tempo que não foi possível entendê-la ou decifrá-la bem.
Limita-se ao que deixo escrito tudo quanto posso dizer a respeito da antiga igreja de S. Sebastião do Castelo.
Em 1842, achava-se esta igreja em verdadeiro estado de quase abandono e de evidente ruína. O capim e as ervas cresciam em torno do templo e ameaçavam conquistá-lo. O madeiramento do teto, as cimalhas, os altares da santa casa de S. Sebastião, a casa toda, enfim, achavam-se podres, e expostos a cair ao impulso das tempestades. O cruel esquecimento em que se deixava uma igreja histórica, a mais antiga do Rio de Janeiro, o teto sagrado que se dedicara ao padroeiro da cidade e que encerrava em seu seio os restos do primeiro fundador da Sebastianópolis, dava testemunho público da nossa incúria por tudo quanto não é positivo e material.
Muito longe teria eu de ir, se quisesse descrever esse estado de ruína a que chegara a igreja de S. Sebastião do Castelo. Basta dizer que os consertos necessários eram tais, que exigiam uma completa reparação do templo.
E foi assim que os capuchinhos italianos receberam essa
igreja, que, aliás, fora a da sua própria escolha. E enquanto esperavam
recursos para, se lhes fosse possível, tratarem de realizar obras importantes,
ocuparam-se logo de apanhar as goteiras por onde a chuva inundava todo o templo
e de remendar um pouco o arruinado teto; e logo depois, auxiliados pelos meios
pecuniários que lhes subministrou o governo imperial e pelas esmolas do povo,
construíram um modesto hospício, onde se asilaram, mudando-se, enfim de duas
pequenas casas vizinhas da igreja e que pertenciam e pertencem a S. Sebastião.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.