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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

Mas a tipoia estacou antes da calçada, rente ao passeio, em frente d'uma loja de alfaiate. E n'esse instante achava-se ahi parado, calçando as suas luvas pretas, um velho alto, de longas barbas d'apostolo, todo vestido de luto. Ao vêr Maria, que se inclinára á

portinhola, o homem pareceu assombrado; depois, com uma leve côr na face larga e pallida, fitou gravemente o chapéo, um immenso chapéo de abas recurvas, á moda de 1830, carregado de crepe.

- Quem é? perguntou Carlos.

- É o tio do Damaso, o Guimarães, disse Maria, que córára tambem. É, curioso, elle aqui!

Ah, sim! o famoso Mr. Guimarães, o do Rappel, o intimo de Gambetta! Carlos recordava-se de ter já encontrado aquelle patriarcha no Price com o Alencar. Comprimentou-o tambem; o outro ergueu de novo com uma gravidade maior o seu sombrio chapéo de carbonario. Ega entalára vivamente o monoculo para examinar esse lendario tio do Damaso, que ajudava a governar a França: e depois de se despedirem de Maria, quando a caleche já subia a rua do Alecrim e elles atravessavam para o Hotel Central, ainda se voltou seduzido por aquelles modos, aquellas barbas austeras de revolucionario... - Bom typo! E que magnifico chapéo, hein! D'onde diabo o conhece a snr.ª D. Maria?

- De Paris... Este Mr. Guimarães era muito da mãi d'ella. A Maria já me tinha fallado n'elle. É um pobre diabo. Nem amigo de Gambetta, nem coisa nenhuma... Traduz noticias dos jornaes hespanhoes para o Rappel, e morre de fome...

- Mas então, o Damaso?

- O Damaso é um trapalhão. Vamos nós ao nosso caso... Essa immundicie que me mandaste, a Corneta Dize lá.

Seguindo devagar pelo Aterro, Ega contou a historia da immundicie. Fôra na vespera á tarde que recebera no Ramalhete a Corneta?. Elle já conhecia o papelucho, já privára mesmo com o proprietario e redactor - o Palma, chamado Palma Cavallão para se distinguir d'outro benemerito chamado Palma Cavallinho. Comprehendeu logo que se a prosa era do Palma a inspiração era alheia. O Palma nada sabia de Carlos, nem de Maria, nem da casa da rua de S. Francisco, nem da Toca... Não era natural que escrevesse por deleite intellectual um documento que só lhe podia render desgostos e bengaladas. O artigo, pois, fôra-lhe simplesmente encommendado e pago. No terreno do dinheiro vence sempre quem tem mais dinheiro. Por este solido principio correra a procurar o Palma Cavallão no seu antro. - Tambem lhe conheces o antro? perguntou Carlos, com horror.

Tanto não... Fui perguntar á secretaria da Justiça a um sujeito que esteve associado com elle n'um negocio de Almanachs religiosos...

Fôra pois ao antro. E encontrára as coisas dispostas pelas mãos habeis d'uma Providencia amiga. Primeiramente, depois de imprimir cinco ou seis numeros, a machina, esfalfada na pratica d'aquellas maroteiras, desmanchára-se. Além d'isso o bom Palma estava furioso com o cavalheiro que lhe encommendára o artigo, por divergencia na seriissima questão de pecunia. De sorte que apenas elle propôz comprar a tiragem do jornal - o jornalista estendeu logo a mão larga, d'unhas roídas, tremendo de reconhecimento e de esperança. Dera-lhe cinco libras que tinha, e a promessa de mais dez...

- É caro, mas que queres? continuou o Ega. Deixei-me atarantar, não regateei bastante... E emquanto a dizer quem é o cavalheiro que encommendou o artigo, o Palma, coitado, affirma que tem uma rapariga hespanhola a sustentar, que o senhorio lhe levantou o aluguer da casa, que Lisboa está carissima, que a litteratura n'este desgraçado paiz...

- Quanto quer elle?

- Cem mil reis. Mas, ameaçando-o com a policia, talvez desça a quarenta.

- Promette os cem, promette tudo, comtanto que eu tenha o nome... Quem te parece que seja?

Ega encolheu os hombros, deu um risco lento no chão com a bengala. E mais lentamente ainda foi considerando que o inspirador da Corneta devia ser alguem familiar com Castro Gomes; alguem frequentador da rua de S. Francisco; alguem conhecedor da Toca; alguem que tinha, por ciume ou vingança, um desejo ferrenho de magoar Carlos; alguem que sabia a historia de Maria; e emfim alguem que era um covarde...

- Estás a descrever o Damaso! exclamou Carlos, pallido e parando.

Ega encolheu de novo os hombros, tornou a riscar o chão:

- Talvez não... Quem sabe! Emfim, nós vamos averigual-o com certeza, porque, para terminar a negociação, fiquei de me ir encontrar com o Palma ás tres horas no Lisbonense... E o melhor é vires tambem.

Trazes tu dinheiro?

- Se fôr o Damaso, mato-o! murmurou Carlos.

E não trazia sufficiente dinheiro. Tomaram uma tipoia para correr ao escriptorio do Villaça. O procurador fôra a Mafra, a um baptisado. Carlos teve de ir pedir cem mil reis ao velho Cortez, alfaiate do avô. Quando perto das quatro horas se apearam á entrada

(continua...)

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