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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

Tendo vagado durante algum tempo em busca de sambaquis, por dentro da mata, foi ele dar em uma trilha que lhe era ainda desconhecida. Tomou por ela, e, quando menos pensava, deu consigo em um cajueiral que se perdia de vista. De um lado aparecia uma casa de palha, e por entre o arvoredo, em parte bastantemente destruído pelos machados dos lenheiros, foi descobrindo imensos socavões, de alguns dos quais saiam ainda novelões de fumo negro. O rapaz reconheceu que se achava nas carvoeiras onde tempos atrás lhe tinham ido tão mal as coisas.

De propósito, e por incessantes recomendações de Marcelina, ele tinha, desde essa fatal noite, evitado digressões por aquele lugar, tão rico de belas paisagens e frescos e aprazíveis ermos. Agora, porém, inesperada e involuntariamente achava-se de novo ali. Lembrou-lhe incontinente o que ai passara; pareceu-lhe ouvir a matinada dos cães, e sentir nas carnes os dentes deles e o jagunço dos negros.

Eles levaram a sua avante – disse instintivamente consigo mesmo – porque eu estava desarmado. Se nos encontrássemos agora, a coisa havia de ser outra muito diferente. Já sou homem, e trago o meu facão, que está bem amolado. Eu havia de tirar a minha desforra.

Pincel fatal ou fatídico avivava em sua imaginação a cada passo, que dava o rapaz, as cenas do sanguinolento episódio, que parecia de todo apagado de sua memória. Imediatamente os ferozes instintos de outr’ora ressurgiram violentamente como línguas de serpente ou de fogo em seu cérebro, exigindo pronta vingança.

Sem mais refletir, Lourenço botou-se para a palhoça. Achou-a sem gente. Mas havia criação pelo terreiro, e debaixo do pequeno alpendre viu ele vasilhas de serviço diário, sinal de que os negros ainda ali residiam.

Quando estava a olhar para uma banda e para outra, a ver se dava com algum dos antigos conhecidos, descobriu ao longe um vulto acocorado á beira de uma das covas que apareciam no vasto tabuleiro de areia.

Encaminhou-se para ai, saboreando com antecipada sofreguidão o prazer da projetada vingança.

VIII

O vulto era o moleque, já então quase negro feito, que lhe tinha posto os cachorros em cima àquela fatal noite. Lourenço reconheceu-o logo: nem foi preciso para isto esforço, visto que uma vez por outra o estava vendo, ora entrar, ora sair do sitio.

- Que está você fazendo ai? perguntou ele, com voz de senhor arrogante e provocadora.

Benedicto voltou-se espantado, e por única resposta, vendo quem a ele se dirigia, proferiu estas palavras:

- Que quer saber? É da sua conta?

E com gestos e meneios de quem fazia pouco caso do visitante, deixou-se ficar na mesma posição em que se achava, a saber, de cócoras á beira da cova, e de costas voltadas para o seu interlocutor.

Veja lá como fala – retorquiu Lourenço, aproximando-se. Não foi você quem me botou aqui há tempos os cachorros em cima como se eu fosse alguma raposa au maracajá? Foi você mesmo, que nunca mais sua cara me saiu da lembrança.

- Fui eu mesmo – respondeu Benedicto. E que tem que fosse? É você meu senhor, ou meu pai para vir falar-me assim? Ora vá fazer seus balaios e suas gaiolas, e deixe-me sossegado, que eu não faço conta de você.

- Este negro está enganado comigo, retorquiu Lourenço, como se dirigisse a terceiro. Então você acha que eu havia de esquecer aquele desaforo? Eu não sou de Goiana, sou do Pasmado; e se faço gaiolas e cestos, é para não fazer facas de ponta. Agora, quanto a dizeres, negro, que não me levas em conta, isto é coisa que é mais fácil de dizer do que mostrar.

A esse tempo Lourenço achava-se já pertinho de Benedicto, e este estava de pé. As vistas de um cruzavam-se com as do outro como floretes manejados por dois inimigos, peritos no jogo, e curtidos no rancor.

De repente o olhar de Benedicto se perturba, e ele, de negro, que era, faz-se fulo. Palidez mortal cobriu-lhe a face, há pouco retinta como carvão. Tinha descoberto o facão, que Lourenço trazia e em cuja larga folha se refletia a claridade do dia.

Lourenço aproximou-se mais do seu antagonista.

- Se és homem, disse ele, em atitude de quem estava mete não mete o facão no rapaz – repete as palavras que há pouco disseste.

- Você então quer brigar comigo deverás? Ora deixe-se disso. O que passou está passado.

O que passou comigo não está passado, não, negro mofino e sem vergonha. Eu só sinto não encontrar também aqui os outros dois tições – teu pai e tua mãe – para dar a vocês todos um ensino de mestre com a folha deste facão. Mas não há de faltar ocasião.

Benedicto, que não era bom, encarou novamente com Lourenço, como quem sentia voltar-lhe o animo que fugira um momento. Tinha-lhe lembrado um recurso, que ele passou imediatamente a pôr em pratica.

- Você diz tudo isto porque tem ai um facão na mão; se não fosse ele, não tinha barbas para o dizer. Mas ainda estando com esse ferro e não tendo eu arma nenhuma, não faço conta de você, quanto mais meu pai e minha mãe. E para que fique sabendo, de uma vez por todas, que eu não me lembro de suas valentias, vou dizer-lhe uma coisa: se tiver o atrevimento de passar outra vez de noite por junto do poleiro, tenha certeza de que lhe hei de pôr os cachorros, como fiz da outra vez.

(continua...)

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