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#Romances#Literatura Brasileira

O Garimpeiro

Por Bernardo Guimarães (1872)

Leonel, todo confiado em sua bela presença e seus dotes pessoais apesar da fria reserva de Lúcia, não hesitava um momento que por fim ela acabaria por se lhe render.

O Major nessa mesma tarde foi sondar de novo o coração de sua filha. redobrou de instâncias, multiplicou os argumentos, entre os quais envolveu ameaças mal disfarçadas: nada a abalou. Por fim desceu até a súplica; Lúcia respondeu mergulhando a cabeça entre as colchas do leito, em que estava assentada, e desatou em prantos e soluços. O velho comovido por um momento nada ousou responder a esta explosão de lágrimas e soluços, e retirou-se triste e desconcertado, mas não desanimado.

Como de costume, o jovem baiano apareceu à noite em casa do Major. Lúcia, que até ali só sentira por Leonel a mesma indiferença que para com os anteriores pretendentes, agora experimentava também um certo afastamento, uma repugnância que mal podia dissimular. Já não via nesse homem um simples pretendente: era um ameaço vivo da sua felicidade, era a morte de suas esperanças, porque no fundo da alma Lúcia ainda nutria uma esperança, tímida, vacilante sim, mas era sempre uma esperança, e era ela que ainda lhe alimentava o coração, e dava-lhe coragem para viver. E talvez, quem sabe? com esse instinto admirável de que são dotadas certas mulheres, através das mais brilhantes exterioridades ela sabia penetrar no fundo dos corações, e achava em Leonel alguma coisa que lhe repugnava.

Quando Leonel entrou na sala, Lúcia descorou e estremeceu de modo que teria atraído a atenção de todos, se não fosse a fraca claridade que reinava na sala, iluminada então por uma só vela. Não escapou, porém, a Leonel aquele estremecimento de Lúcia; mas graças à sua vaidade o interpretou como efeito do alvoroço que lhe causava a sua presença, e o tomou como bom presságio. Se pudesse ver melhor o semblante da moça, teria notado nele a extrema palidez e uma expressão de angústia e de horror que o tiraria de seu engano.

Passados alguns minutos da conversação banal, Lúcia retirou-se para acalmar, ou antes para ocultar a agitação de seu espírito. Sua agitação era das mais penosas. Criada na singeleza da roça, habituada apenas à convivência de uma sociedade de costumes chãos e sem etiquetas, não estava acostumada a dissimular seus pesares e inquietações. Mas o instinto delicado de seu espírito advertia-lhe que era mister mascarar sua dor com as exterioridades do contentamento e da tranqüilidade.

A companhia ainda era pouco numerosa: com um gesto o Major convidou Leonel para a mesma janela em que os vimos conversar pela primeira vez. O Major começou o diálogo.

-senhor Leonel, tenho esperanças de que Lúcia aceitará com prazer a mão de esposo que o senhor lhe oferece. Mas, quando ontem conversamos, esqueci-me de tocar em um ponto que entretanto não devo lhe ocultar. O prazer que senti ao ouvir sua proposta provavelmente me fez passar pela idéia esse objeto. Enfim, para encurtar razões, talvez o senhor Leonel, como outros muitos, esteja em engano a respeito de minha posição pecuniária, e. . .

- Basta, senhor major; peço-lhe que não toque em tal assunto, se não quer ofender-me. Eu nunca indaguei, e nem indago quais são os seus haveres. Mercê de Deus, possuo alguma coisa para não precisar. . .

- Não se enfade, senhor Leonel; não é nesse sentido que falo; bem conheço o seu desinteresse. Mas todavia ficaria com um escrúpulo n’alma, se não lhe fizesse essa revelação e não lhe declarasse que estou arruinado.

- Deveras, senhor Major? . . .

- É a pura verdade; completamente arruinado. Este maldito garimpo, que seduz e cega o homem mais do que a mesa do jogo ou a meretriz artificiosa, tem-me devorado em pouco tempo todos os meus haveres, uma sofrível fortuna adquirida à custa de longos anos de trabalho na lavoura e no comércio, sem a mínima compensação. Minha fazenda, meus escravos estão hipotecados quase até o último, e em breve a miséria virá bater-me à porta. Desculpe-me esta franqueza; eu não devia ocultar-lhe as minhas circunstâncias, porque não me ficaria airoso dar-lhe a minha filha em casamento, sem que o senhor soubesse que casava-se com a filha de um miserável.

-miserável. . . não diga tal, senhor major! isso nunca! mas, ainda que fosse um mendicante, mesmo assim eu teria orgulho de ser esposo de sua filha.

-mas a desonra. . . bem sabe que o público é implacável para com o negociante ou especulador infeliz.

- Qual desonra, senhor Major! o mau sucesso de uma especulação, contanto que seja lícita, não desonra a ninguém. Não se acovarde por essa forma. . . não faltarão meios de reabilitar-se. Tranqüilize-se; o público e o comércio não serão tão desapiedados como pensa. Pode-se fazer com seus credores um convênio que salvará tudo. Eu me entenderei com eles, e, graças a Deus, estou em circunstâncias de lhe poder ser útil sem sacrifício meu.

(continua...)

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