Por Bernardo Guimarães (1872)
Ao som daquela voz Lucinda empalideceu e cambaleou. Todos voltaram-se para o lado donde ele rompera, mas o viandante, agachando-se, encolhendo-se, rompeu sereno e rápido como uma seta por entre a turba, que se agitava, e enquanto todos atônitos indagavam com os olhos donde partira aquele grito, saiu rapidamente por uma porta travessa, montou de um salto a cavalo, e desapareceu no primeiro beco que encontrou. Foi direito apear-se em casa de sua mãe, em cuja companhia morava sempre que estava na Franca.
– Meu filho! enfim... sempre chegaste! exclamou a velha, apenas o viu, estendendo-lhe os braços.
– Ah! minha mãe! minha mãe! exclamou o mancebo, e lançou-se nos braços dela soluçando, mas com os olhos secos e chamejantes.
– Que tens, filho, que estás assim amarelo e a tremer...
– Que golpe, minha mãe! que golpe acabo de receber!
– Golpe, meu filho?... agora?... dizia a mãe assustada reparando por todo o corpo.
– Neste instante.
– Mas... não vejo sangue... onde foi o golpe? fala, meu filho; não me assustes assim.
– Não é isso, minha mãe; Lucinda... quem o diria!...
– Ah! já sei; já sei. Já se casou... Graças a Deus, respiro sossegada; pensei que te havia sucedido alguma desgraça.
– Pois quer maior desgraça, minha mãe?...
– Qual desgraça, menino! não perdes nada com isso...
– Ah! minha mãe, só Deus sabe quanto perco. Perco o sossego e a alegria do coração e para sempre...
– Qual para sempre! estás ainda muito tolo, meu filho. Não há mágoa, que o tempo não console. Tu és ainda muito criança. Não faltam por esse mundo moças mais bonitas que a Lucinda, e – aqui entre nós – mais bem-educadas, que te queiram. És um rapaz bem parecido e de muito boas maneiras; o ponto é que sejas comportado e saibas trabalhar, como até aqui tens feito, que noivas ricas e formosas te sairão aos centos.
– Nem falar nisso, minha mãe! eu acreditar mais em moças!?... não quero sujeitar-me a levar outra vez uma desfeita destas.
– Sossega, meu filho; há males que vêm para bem. Bem sabes, que nunca aprovei muito essa tua inclinação para semelhante rapariga. Achava nela um não sei quê de leviana e de estouvada que nada me agradava, e nunca tive fé com esta gente de Ferreiras; são todos falsos, e sem palavra.
As provas estás vendo. Queres que te diga uma coisa?... se não te visse tão agoniado, era este um dos dias mais felizes de toda a minha vida.
– Mas, minha mãe, ela mostrava querer-me tanto, e os pais pareciam fazer tanto gosto em nosso casamento. Quem sabe se não houve por aí algum embuste, alguma patranha... aquele Hipólito é um infame capaz de tudo.
– Meu filho, se eu disser que aí não houve de todo sua tal ou qual velhacaria da parte do moço, minto. Mas histórias! aquilo é mesmo gente sem cruz nem cunho.
– Ah!... logo vi. Então sempre houve patranha.
– Um enredo que de nada valeria, se eles fossem pessoas de palavra.
– Mas enfim, minha mãe, qual foi esse enredo?... estou ardendo por sabê-lo.
– Tu pensas, que não se soube logo por aqui de uma célebre caçada de onça, em que andaste lá pela Uberaba?... Correu por aqui que com risco de vida tinhas livrado das goelas de uma onça uma mocinha, filha de um fazendeiro muito rico, e que dizem ser linda como um sol.
– Até aí tudo é pura verdade; mas que tem isso com...
– Vai escutando. Disseram mais que ficaste por tal forma embelezado pela tal mocinha, que te invernaste na dita fazenda a ponto de parecer que de lá nunca mais sairias, que eras lá todo de dentro, e já parecias um filho da casa; que já nem cuidavas de teus negócios, e mil outras coisas, que não me lembro.
Eduardo suspirou. Este suspiro era um pensamento vago, que queria dizer: – Pobre Paulina!... antes assim tivesse acontecido!
– Daqui a Uberaba não é longe, – continuou a velha,– umas vinte léguas quando muito, e não faltaram portadores que cá trouxessem todas essas novidades. De todas essas coisas o espertalhão do Hipólito da Cana Verde, que bem sabes que era um dos maiores apaixonados da Lucinda, se aproveitou e foi metê-las todas nos ouvidos dela e dos pais, e decerto acrescentando pontos e pintando a coisa com cores ainda mais feias.
– Ah! miserável intrigante! bradou Eduardo batendo os queixos e espumando de cólera. – Não soube aquele infame dizer também que estando eu a caçar o acaso me fez chegar àquela fazenda perseguindo uma onça; que fiz por aquela moça o que faria todo o homem de bem e de coragem, – não ele, que não tem brios, e não passa de um miserável poltrão; – que a onça arrojando-se sobre mim feriu-me gravemente, e atirou-me no chão sem sentidos e esvaindo-me em sangue...
– Santo Nome de Jesus!... exclamou a velha benzendo-se. – Disso ninguém soube por cá. Que perigo! santo Deus!... nunca deixará dessa maldita mania de caçar!... e como vais? – não sofres mais nada?...
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Histórias e tradições da Província de Minas Gerais. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2142 . Acesso em: 24 fev. 2026.