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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Havia a ermida de Nossa Senhora da Conceição, a ermida de Nossa Senhora da Ajuda, a ermida de Nossa Senhora do Ó, três turíbulos em que se queimava o puro incenso da devoção aos pés da Mãe de Deus.

Creio que a mais antiga dessas ermidas, ou antes, a primeira que se levantou fora do morro do Castelo foi a de Nossa Senhora do Ó, e é exatamente dessa que me cumpre falar.

A ermida de Nossa Senhora do Ó estava situada na vargem, diz assim uma memória do tempo, ou mais positivamente à borda do mar, e no mesmo lugar em que depois se levantou o convento do Carmo.

A praia que ficava fronteira à ermida chamava-se praia da Senhora do Ó, nome que, como já ficou dito, perdeu logo que se foram ali edificando algumas casas.

A ermida estava em terras pertencentes a uma mulher cujo nome não chegou até nós. O piedoso devoto que ergueu naquela solidão essa igrejinha modesta e graciosa fora um ermitão que também não pode ser lembrado pelo seu nome.

Nos primeiros quatro lustros que correram depois da fundação da cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro, era a ordem religiosa dos jesuítas a única que tomara um posto e começara a lançar raízes na nova colônia. Essa primazia de direito competia aos irmãos de Nóbrega e de Anchieta, que também muito haviam contribuído para a expulsão dos franceses em 1567.

Mas o ermitão de Nossa Senhora do Ó contava que não tarde viriam igualmente os carmelitas estabelecer-se no Rio de Janeiro; por qualquer motivo ele os amava, e por eles esperando, pedira e obtivera a favor da ermida de Nossa Senhora do Ó a doação do monte que foi depois chamado de Santo Antônio, e que então se chamou o monte do Carmo, porque para os carmelitas o destinava o ermitão.

Até aqui a história. Falaram as crônicas do tempo. Agora começa a tradição e fala o padre velho.

Quem era aquele ermitão? Envolvia-se algum segredo na fundação da ermida? Por que, de preferência, e tanto se lembrava o ermitão dos carmelitas?

A tradição popular adivinhou ou improvisou o seguinte.

Um jovem português, cedendo aos votos de seus pais e aos impulsos do próprio coração, determinara trocar o mundo pelo claustro e acolhera-se ao convento do Carmo de Beja, em Portugal.

Passados alguns meses, em uma pomposa solenidade que teve lugar na igreja do convento, o jovem viu uma donzela de maravilhosa beleza e abrasou-se de amor por ela. Nem a oração, nem os jejuns, nem os cilícios puderam vencer e destruir essa paixão que subitamente lhe rebentara na alma.

O jovem reconheceu que uma mulher se levantava diante da sua vocação de outrora, e que a força o arrastava do claustro para o mundo.

Ainda era tempo: fugiu ao claustro.

O mais velho dos carmelitas do convento, ao vê-lo sair, disse-lhe em tom profético: “Trocas a mãe de Deus pela filha do homem:

não serás feliz! Um dia lembrar-te-ás do Monte Carmelo!”

Apesar disso, o mancebo saiu, mas seus pais o repeliram.

Um ano depois, a família inteira da formosa donzela teve de passar ao Brasil para estabelecer-se na cidade de Salvador! O mancebo apaixonado acompanhou na mesma caravela a dona do seu coração.

Os dois jovens amaram-se e souberam que eram amados. Sorria-lhes o futuro, quando, na cidade do Salvador, um cavalheiro de nobre estirpe, colono português considerado, pediu a donzela em casamento. O pai mandou, a filha chorou, mas teve de obedecer. O amante pensou morrer. Viveu, porém, ainda para amar com o mesmo ardor a mulher que pertencia já a outro.

O marido teve conhecimento daquele amor que era já um desvario; mas conteve-se, porque não podia duvidar da virtude da esposa.

No fim do ano de 1566, Mem de Sá chamou os bravos a pelejar contra os franceses do Rio de Janeiro.

O marido da bela moça alistou-se entre os guerreiros e fez-se acompanhar de sua mulher. Tinha a idéia de ficar na nova colônia que se ia fundar e de assim ver-se livre do importuno apaixonado de sua esposa. Quando, porém, o navio em que ia levantou a âncora, o mancebo apareceu a seus olhos.

O marido turvou-se. Guardou, porém, silêncio.

A expedição chegou ao seu destino, e no dia 20 de janeiro de 1567 travou-se a peleja entre os portugueses e os franceses.

No momento de avançarem os portugueses para atacar a praça do Uruçumirim, o marido voltou-se de repente para trás e viu que sua esposa olhava antes para o antigo amante do que para ele. Corou e tremeu: corara de vergonha e tremera de raiva.

Ao travar-se o combate o marido chegou-se ao amante de sua mulher, bateu-lhe no ombro e disse-lhe:

– Quero ver se sabes ser valente como queres parecer apaixonado.

O amante olhou para o feliz rival com surpresa e furor, e imediatamente atirou-se na peleja como um leão.

(continua...)

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