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#Romances#Literatura Brasileira

Diva

Por José de Alencar (1864)

Emília não tinha rivais, não me disputava a ninguém; dominava-me na soberania de sua beleza, e atraiame ou arredava-me a seu bel-prazer, com um senho apenas da sua graciosa majestade. 

Eu era para essa moça como um vaso onde ela guardava as essências de sua alma para mais tarde aspirarlhes o perfume. Quando chegavam as horas dessa afluência do coração, ela procurava-me para vazá-la em mim: a sua palavra ardente abundava então do lábio vívido. Outros dias chegava-se muda e absorta; parecia haver dentro dela uma grande solidão, onde seu espirito se perdia. 

—Diga-me alguma cousa! murmurava ela. Fale-me... Fale do céu, das nuvens, do mar, do que Deus criou de melhor neste mundo!... 

E eu falava; e ela bebia as minhas palavras, que lhe matavam a sede d'alma. 

Fora desses momentos, em que sua alma sentia'uma necessidade irresistível de expansão ou de absorção, ela parecia esquecer-me. 

Foi por este tempo que eu tomei uma grande resolução. Afagara sempre a idéia de ter uma pequena chácara onde me refugiasse às tardes, escapando ao burburinho da cidade. 

Aproveitei esse pretexto para aproximar-me de Emília. Indo visitá-la um dia, vi com escritos uma casinha pendurada na aba da montanha, perto de sua chácara. Dali descortinava-se o seu jardim, o terraço e as janelas dos aposentos que ela ocupava na face esquerda do edifício. Com um óculo de alcance eu poderia vê-la a cada momento. 

Alugada a casa, assaltou-me o receio de desagradar-lhe. Sabia eu se era amado? E quando o fosse já, a imprudência que ia cometer não assustaria uma afeição nascente? —Não importa! pensei eu. R um meio decisivo de saber se ela me ama. 

Fui vê-la. Estava no jardim com D. Leocádia; brincava com um grande cão da Terra-Nova, e parecia sentir um indefinível prazer em irritar a cólera do tranquilo animal. Uma vez sorri, pensando que ela ia ser vitima da sua imprudência; o cão irado rosnava, encolhendo o dorso, e rolando a pupila injetada. 

Emília sorriu; a um gesto de sua mão, o animal foi deitar-se a seus pés, acariciando a fímbria do vestido. Ela atirou-lhe um olhar desdenhoso, e tocando-o com a ponta da botina obrigou-o a afastar-se. 

Depois voltou-se para mim com uma expressão indefinível de orgulho repassado de tédio: 

—Não tenha receio... Tudo aqui me obedece, até este bruto!... 

Por mais que o irrite... Não passa disso! Anunciei-lhe a resolução que tomara de aproximar-me dela; e o fiz trêmulo e receoso. Respondeu-me com simplicidade: 

—Melhor! Estaremos mais perto! Estimo bem. 

—Pois eu receava que isso lhe desagradasse! —Por que motivo? —Já não tem medo?... perguntei-lhe sorrindo. 

—Do senhor?... Kão!... De mim... talvez. 

Emília tinha dessas frases incompletas, proferidas com uma singeleza volúbil, das quais era impossível compreender o verdadeiro sentido. 

Imagina que delicia foram para mim os dous breves meses que passei naquele pitoresco retiro do Rio Comprido, onde eu me abrigava todas as tardes como no regaço da felicidade. Trabalhava então com entusiasmo. Os júbilos que vertiam de minha alma sobrariam à vida mais pródiga; eu tinha ventura em profusão, que chegaria bem para encher duas existências. E entretanto não ousara ainda confessar a Emília o meu amor! Como as plantas mimosas, a minha ventura só floria na sombra. 

Era na intimidade e no isolamento que Emília vertia para mim os perfumes de sua alma. Na sala, apesar de marcar-me com a distinção sutil e delicada que é um tato do coração, contudo eu sentia que o seu olhar soberano me confundia entre a multidão, sobre que ela reinava pela formosura. As noites em que do seu lábio altivo fluíam ondas de fino sarcasmo, nem a minha submissa admiração achava graça perante ela. 

Chegou a véspera de Corpo de Deus. Emília estava sentada ao meu lado: 

—Amanhã não vou à cidade; disse-me ela. Se o dia estiver bonito como o de hoje, pretendo fazer um passeio, que há muito tempo não faço. Quer acompanhar-me? —Ia suplicar-lhe esse favor, mas não me animava. 

—Iremos até o alto da montanha. Quando eu percorria só essas veredas escarpadas, os rumores da mata, as grandes sombras que oscilam pelas encostas, o ermo da profunda solidão, me faziam cismar, e sentir cousas que eu não compreendia. Desejava ter ali, perto de mim, alguém a quem falar; um coração amigo que recolhesse o que transbordava do meu, para mo restituir depois. Iremos juntos amanhã. 

Quero ver como sentirei agora ao seu lado, o que sentia outrora no isolamento de minha alma. 

(continua...)

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