Por José de Alencar (1870)
Era essa uma das razoes; a outra era o receio de achar-se em face dos dois moços, repartida entre a sedução de um e a fascinação do outro. Pressentia que desse conflito, resultaria alguma coisa, que ela não podia definir, mas que a enchia de sustos e inquietações.
Por isso exigiu de Horácio que não fosse à casa de D. Clementina:
— Costumam lá ir algumas dessas pessoas que se ocupam em inventar novidades Sua apresentação, Sr. Horácio, daria pretexto a algum romance.
— Mas por que ainda freqüenta semelhante casa?
— Pedidos... bem sabe; nem sempre uma pessoa se pode recusar. Mas se o senhor aparecer lá, eu deixarei de ir.
— Esteja tranqüila.
Amélia continuou a passar de vez em quando uma noite em casa de D Clementina. A princípio não tinha dia certo, e sucedeu por isso que Leopoldo desencontrou-se dela duas vezes. Uma noite porém o moço perguntou-lhe:
— Vem sábado?
— Talvez.
Desde então o dia escolhido era o sábado, a menos que não precedesse aviso especial da dona da casa para alguma partida.
Nunca mais houve desencontro; Amélia achava sempre o mancebo no seu posto, defronte da porta para vê-la entrar.
Em uma dessa noites deu-se um incidente que é preciso referir.
Falava-se a respeito de uma senhora casada, a quem o marido causava sérios desgostos. Pessoa que sabia das particularidades dessa família explicava o fato à sua maneira.
— Ela era muito linda, o marido a adorava; casou-se por paixão. Poucos dias depois de casada, teve ela uma grave moléstia que a reduziu àquele estado. Não há paixão que resista!
— Com efeito, sabe ser feia!
— Ninguém acreditará que foi bonita.
— Pois foi uma beleza.
Leopoldo, que ouvia calado, interveio:
— O marido nunca a amou!
— Asseguro-lhe que teve uma paixão louca.
— E eu afirmo-lhe que não; que ele nunca teve paixão pela mulher. O que ele adorava era unicamente a sua beleza, a forma; isto é, um acidente. O homem que ama a mulher destinada a ser companheira de sua existência, o complemento de seu ser imperfeito, não despreza essa mulher, porque a desgraça a feriu no invólucro material de sua alma. Ele pode sofrer com aquela desgraça; mas deve redobrar de amor e adoração, para que nem seus olhos vejam o defeito, nem ela, a mulher amada, se lembre nunca de que o tem para ele, embora o tenha bem claro para os indiferentes.
— É bonito de dizer! acudiu um apreciador das mulheres formosas.
— Todos dizem o mesmo, mas fogem das feias, observou uma senhora idosa, talvez por experiência própria.
— O que eu digo, minha senhora, já o experimentei em mim mesmo, replicou Leopoldo.
— Ah!
O mancebo cravou em Amélia um olhar eloqüente, e disse com a palavra lenta e calma:
— É verdade; já o experimentei em mim. Por que hei de ocultá-lo? Minha alma já passou por esta dura prova, e saiu triunfante. Hoje sei que tenho forças para amar até os defeitos da mulher que Deus me destinou.
Amélia perturbou-se com aquelas palavras, e o olhar ardente que parecia gravá-las em sua alma. Nessa noite retirou-se pensativa; e por muito tempo a figura pálida de Leopoldo esvoaçou na penumbra de seu leito de virgem.
CAPÍTULO X
Pela manhã se dissiparam essas névoas que no espírito de Amélia deixara a noite antecedente.
Era domingo. A moça, envolta em seu roupão alvo, com os cabelos soltos pelas espáduas, encostou o rosto à vidraça da janela. Afastando a cortina de cassa branca, podia enxergar perfeitamente a rua, sem que de fora vissem o seu gracioso desalinho.
Não tardou que se ouvisse um tropel de cavalo. Era o leão que ia dar seu passeio matutino. Vendo agitar-se a cortina, e desenhar-se no vidro a ponta de uns dedos cor-de-rosa, Horácio cortejou enviando um sorriso à janela.
À noite o moço dirigiu-se à casa do Sales; Amélia o esperava. A sala estava cheia de visitas. Entrando, o olhar de Horácio encontrou um olhar terno que o saudava de longe.
Mas o sorriso se desfez com a perturbação que de repente sentiu a moça. A vista do leão tinha descido até o tapete, e se fixara com uma insistência visível na fímbria do vestido, ligeiramente arregaçada. Horácio julgou que pudesse lobrigar a ponta do pezinho que idolatrava.
A moça concertou as dobras da saia de modo a interceptar o olhar curioso; e disfarçou conversando com uma amiga.
Desde princípio notara Amélia aquele sestro de Horácio. Quando ela o supunha mais embebido em seus encantos, mais rendido à sua beleza, surpreendia o olhar do moço a rastejar pelo chão, procurando insinuar-se por baixo da orla de seu vestido.
Muitas vezes ela perdia os seus mais ternos sorrisos, porque o moço, em vez de procurar-lhe no rosto a esperança de ser amado, esquecia-se a catar sobre o tapete alguma idéia que não se animava a revelar. Já tinha sucedido, durante que ela tocava, distrair-se o leão, e com a atenção presa no pedal, nem ouvir a peça de música.
(continua...)
ALENCAR, José de. A Pata da Gazela. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16673 . Acesso em: 8 jan. 2026.