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#Comédias#Literatura Brasileira

Uma Pupila Rica

Por Joaquim Manuel de Macedo (1840)

Júlia Ora... papai talvez conheça a família da moça com quem o doutor quer casar, e interessando-se por este resolveria tudo em meu favor...

Firmino É claro que estou metido em uma roda viva...

Teod.

Júlia, é necessário mostrar juízo...

Júlia Mamãe, esperar um ano eu não posso. Declaro que não hei de esperar um ano!!! (com viveza)

Cena 5ª

Firmino, Teodora, Júlia, Corina, e Suzana muito fatigada

Carlos Não houve sessão no Senado por falta de quorum; mas em compensação encontrei a tia Suzana ao chegar em casa.

Júlia (correndo) Tia Suzana!... Não sabe?... Teod. Menina!... Menina!...

Firmino A senhora nos estava dando cuidado...

Suzana Deixem-me descansar... (senta-se, toda (ilegível)) andei muito! Nem em moça... quando... na quinta-feira de endoenças saía a visitar as igrejas...

Teod.

E onde foi, minha tia?...

Suzana Deixem-me descansar. (respira descansando)

Júlia (a Corina) Esquece esse bordado, Corina.

Carlos Pois ainda trabalha?

Corina Esquecê-lo? O bordado me faz não sentir as horas que passam: o que mais gosto de esquecer... é o tempo.

Júlia Tens razão: o tempo custa muito a passar! E um ano então!...

Suzana Ah!... (respirando)

Firmino Está menos fatigada?... Teod. Por onde andou?...

Suzana Andei por [sic] onde me levou o amor do próximo: eu tenho rezado três noites em relação ao meu sentido, e tenho para mim que foi o Senhor que me inspirou o que fiz.

Firmino E é segredo de devoção ou de penitência?...

Suzana Para que segredos? O que não é justo, não se faça; o que é justo, faça-se com os olhos em Deus e sem temor dos homens. Corina, vem cá. (Corina obedece Suzana a achega)

Teod.

Que temos de novo!

Suzana O doutor André de Araújo e Corina se amam...

Firmino Se amam?!!!

Corina Tia Suzana...

Suzana Firmino, tu negaste a mão de tua pupila ao doutor André e eu quis convencer-me da justiça dessa recusa: tenho ainda bons amigos do outro tempo, que receberam em festa a velha Suzana: inquiri a todos, a todos ouvi...

Firmino (Severo à Corina) Retire-se para o seu quarto...

Suzana (abraçando Corina pela cintura) Não: que mal faz que ela ouça o que já sabe?

Teod.

Minha tia, que imprudência é essa?...

Suzana Voltei com os ouvidos cheios de elogios ao doutor André: não houve boca que não lhe louvasse as virtudes, não achei coração que o não amasse: como é isso, Firmino?... Além de seus tesouros morais, ele nem pode ser suspeito de interesseiro, porque não é menos rico do que Corina, e tem as mãos abertas para dar aos pobres.

Firmino E quem a convidou a envolver-se neste assunto?...

Suzana Os pais de André e de Corina foram amigos: a afeição dos dois jovens começou na mais pura ligação de suas famílias, e hoje o amor que os está fazendo sofrer na terra, é sem dúvida abençoado no céu. Firmino! com que direito impedes a felicidade da tua pupila?...

Firmino Donde lhe vieram tais informações?... Mas eu estou vendo... vejo na confusão da hipocrisia...

Suzana Corina me confessou o seu amor, é verdade: ama um homem digno dela, o seu tutor devia aplaudir a sua escolha, mas aqui se premedita um crime de lesa orfandade; tu por Peregrino, Teodora por Carlos, não quereis que haja fogo santo no altar deste coração inocente!

Firmino Inocente... ela que engana seu tutor!...

Suzana Oh! Vocês não imaginam que crimes intentam cometer! Pensem bem: o despojo recolhido pelo salteador chama-se roubo, porque é tomado com violência e abuso da força: como se há de chamar a usurpação do dote de uma pupila tomado por meio de casamento imposto pela violência e pelo abuso da autoridade do tutor?...

Firmino Senhora!...

Teod.

Minha tia!...

Suzana Eu digo que vocês não pensam no que fazem, mas isso é pecado que brada ao céu!... Oh, faço idéia do que irá por esse mundo com as desgraçadas pupilas ricas! Quantas mártires! Quantos tutores e mulheres de tutores que para enriquecer seus filhos, esmagam os corações e lançam para sempre no abismo da desgraça as míseras órfãs.

Teod.

Minha tia nos ultraja.

(continua...)

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