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#Comédias#Literatura Brasileira

O primo da Califórnia

Por Joaquim Manuel de Macedo (1858)

Celestina – Eis-nos de novo em nossa boa mediocridade.

Adriano – Não! Não posso suportar semelhante desgosto! Isto é um salto mortal! É muito melhor atirar-me de uma janela abaixo! (Corre e esbarra-se com FELISBERTO)

CENA XV

Felisberto e os ditos

Felisberto – Oh! Que me rebenta o nariz!

Adriano (Submisso) – Eu lhe fiz mal... ofendi-o?...

Felisberto – Não foi nada... trago o dinheiro a Vossa Senhoria.

Adriano – A minha senhoria... a minha senhoria acaba de receber a sua demissão.

Felisberto – Não o compreendo, meu prezado amigo.

Adriano – Digo, que agora aparecem suas dúvidas a respeito do negócio.

Felisberto – Que, senhor Adriano! Vossa Senhoria quereria faltar a palavra!... (À parte) Diabo! E eu que já tratei a cessão da casa com vinte por cento de lucro!

Adriano – Não é isso, mas devo dizer...

Felisberto – Nada quero ouvir: tenho a sua palavra, e um homem honrado, senhor, não tem senão uma palavra: eis aqui o contrato de venda para assinar.

Adriano – Todavia...

Felisberto – Ah! senhor Adriano! É possível que tenha em tão pouco a sua palavra?...

Adriano – Senhor Felisberto!...

Felisberto – Esta hesitação me dá o direito de dizer o que disse.

Adriano – E o senhor não se arrependerá deste contrato?...

Felisberto – De modo nenhum.

– E aconteça o que acontecer não se queixará de mim?...

Felisberto – Eu queixar-me?... e de quê?... assine, tenha Vossa Senhoria a bondade de assinar.

Adriano (À parte) – Com efeito... posso bem fazer este negócio... a casa é minha, e eu ganho nesta venda quatro contos de réis; (Assinando) vamos, pois que o senhor o exige, eu assino.

Felisberto – Para lhe provar que o negócio me convém, ajuntei ao dinheiro, que lhe entrego, um recibo de conta que me devia, e portanto estamos quites.

Adriano (Recebe e conta o dinheiro) – Como?... minha conta também?... ah!

Celestina, eis aqui um remorso de adversidade!

Felisberto – O que quer dizer com isso?... CENA XVIOs ditos, Pantaleão e Beatriz

Pantaleão – Isso é um horror! É uma ladroeira!... uma infâmia!...

Todos – Que aconteceu?...

Pantaleão – O senhor músico, meu locatário, é vítima de uma mistificação! Ele é tão rico, como aqui, a velha Beatriz!

Felisberto – Que diabo é isto?... quem me dará um fio para sair deste labirinto!

Pantaleão – O fio é que eu continuo a despedir desta casa e de mestre da minha filha ao tal senhor Adriano Jenipapo!

Adriano – Senhor Pantaleão! O senhor tem um coração abjeto... o senhor é indigno do nome de homem que usurpa!

Pantaleão – Parece-me que o senhor me quer insultar!

Adriano – Sair desta casa! Sairemos dela ambos, miserável taberneiro! Porquanto acabo de vendê-la ao senhor Felisberto...

Pantaleão – Eu vou levá-lo já ao chefe de polícia!

Adriano – Oh! Pois não! Irei mesmo com prazer; tenho que referir ao chefe de polícia uma certa história de monopólio de toucinho e carne fresca... Ah! já se cala?... acabemos com isto: senhor Pantaleão, eu lhe pago a casa que lhe comprei, e o mais que lhe devo e por minha vez, senhor, ouvi todos, ouvi: senhor Pantaleão, rejeito a mão de sua filha que ainda há pouco me ofereceu!

Pantaleão – Ah! ah! ah! e pensava, que eu ainda tinha as mesmas disposições?...

Adriano – Celestina, esta gente não tem vergonha, não?... (Outro tom) – Eu não sei se me devo rir deles!... miseráveis! Vós que me desprezais, lembrai-vos, que abaixastes a cabeça diante de mim! Estúpidos! (Outro tom) Estúpidos?... estúpido sou eu... eles pensam e praticam, como quase todos, isto é a moda... é a época... é o mundo... atualmente o que melhor se sabe do padre-nosso, é o venha a nós!

Celestina – Senhores, vós o vedes, vosso gracejo teve boas conseqüências...

Ernesto – Tanto melhor para ele nô-lo perdoar.

Adriano – De todo o coração, que até vô-lo agradeço.

Felisberto – Mas então o único, que aqui fica com cara de pau, sou eu?... juro, que ainda não compreendi nada desta moxinifada.

Celestina – Pois é muito simples... o primo da Califórnia...

Felisberto – Não está morto?...

Adriano – Nem nascido, mestre Felisberto!

Felisberto (À parte) – Ai que cabeçada!... e a conte que ele me devia!

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