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#Romances#Literatura Portuguesa

A Relíquia

Por Eça de Queirós (1887)

Era o Padre Pinheiro que a celebrava; a Titi, enternecida, colocou-lhe no prato outra asa de galinha; e Padre Pinheiro revelou também a ambição que o pungia. Era elevada e santa. Queria ver o Papa restaurado nesse trono forte e fecundo, em que resplandecera Leão X...

- Se ao menos houvesse mais caridade com ele! - exclamou a Titi. - Mas o Santíssimo Padre, o vigariozinho de Nosso Senhor, assim numa masmorra, em farrapos, sobre palha... É de Caifases, é de judeus!

Bebeu um gole da sua água morna, e recolheu-se ao retiro da sua alma - a rezar a Ave-Maria que sempre ofertava pela saúde do Pontífice e pelo termo do seu cativeiro.

O Doutor Margaride consolou-a. Não acreditava que o Pontífice dormisse sobre palhas. Viajantes esclarecidos afiançavam-lhe até que o Santo Padre, querendo, podia ter carruagem.

- Não é tudo; está longe de ser tudo o que compete a quem usa a tiara; mas uma carruagem, minha senhora, é uma grandíssima comodidade...

Então o nosso Casimiro, risonho, desejou saber (já que todos patenteavam as suas ambições) qual era a do douto, do eminente Doutor Margaride.

- Diga lá a sua, Doutor Margaride diga lá a sua! - clamaram todos, com afeto.

Ele sorria, grave.

- Deixe-me Vossa Excelência primeiro, D. Patrocínio, minha senhora, servir-me dessa língua guisada, que marcha para nós e que me parece preciosa.

Depois de fornecido, o venerável magistrado confessou que apetecia ser par do Reino. Não por alarde de honras, nem pelo luxo da farda; mas para defender o princípio sacro da autoridade...

- Só por isto - acrescentou com energia. - Porque desejava também, antes de morrer, poder dar, se Vossa Excelência, D. Patrocínio, me permite a expressão, uma cacheirada mortal no ateísmo e na anarquia. E dava-lha!

Todos declararam fervorosamente o Doutor Margaride digno desses fastígios sociais. Ele agradeceu, seriíssimo. Depois volveu para mim a face majestosa e lívida:

- E o nosso Teodorico? O nosso Teodorico ainda não nos disse qual era a sua ambição.

Corei; e Paris logo rebrilhou ao fundo do meu desejo, com as suas serpentinas de ouro, as suas condessas primas dos Papas, as espumas do seu champagne - fascinante, embriagante, e adormentando toda a dor... Mas baixei os olhos; e afirmei que só aspirava a rezar minhas coroas, ao lado da Titi, com proveito e com descanso...

O Doutor Margaride, porém, pousara o talher, insistia. Não lhe parecia um desapego de Deus, nem uma ingratidão com a Titi, que eu, inteligente, saudável, bom cavaleiro e bacharel, nutrisse uma honesta cobiça...

Nutro! - exclamei então decidido como aquele que arremessa um dardo. - Nutro, Doutor Margaride, Gostava muito de ver Paris.

- Cruzes! - gritou a senhora D. Patrocínio, horrorizada. - Ir a Paris!...

- Para ver as igrejas, Titi!

- Não é necessário ir tão longe para ver bonitas igrejas - replicou ela, rispidamente. - E lá em festas com órgão, e um Santíssimo armado com luxo, e uma rica procissão na rua, e boas vozes, e respeito, imagens de dar gosto, ninguém bate cá os nossos portugueses!...

Calei-me, esmagado. E o esclarecido Doutor Margaride aplaudiu o patriotismo eclesiástico da Titi. Decerto, não era numa república sem Deus que se deviam procurar as magnificências do culto...

- Não, minha senhora, lá para saborear cousas grandiosas da nossa santa religião, se eu tivesse vagares, não era a Paris que ia... Sabe Vossa Excelência onde eu ia, senhora D. Maria do Patrocínio?

- O nosso doutor - lembrou o Padre Pinheiro - corria direito a Roma...

- Upa, Padre Pinheiro! Upa, minha cara senhora!

Upa? Nem o bom Pinheiro nem a Titi compreendiam o que houvesse de superior a Roma pontifical! O Doutor Margaride então ergueu solenemente as sobrancelhas, densas e negras como ébano.

- Ia à Terra Santa, D. Patrocínio! Ia à Palestina, minha senhora! Ia ver Jerusalém e o Jordão!

Queria eu também estar um momento, de pé, sobre o Gólgota, como Chateaubriand, com o meu chapéu na mão, a meditar, a embeber-me, a dizer "salve!" E havia de trazer apontamentos, minha senhora, havia de publicar impressões históricas. Ora aí tem Vossa Excelência onde eu ia... Ia a Sião!

Servira-se o lombo assado; e houve, por sobre os pratos, um recolhimento reverente a esta evocação da terra sagrada onde padeceu o Senhor. Eu parecia-me ver lá muito longe, na Arábia, ao fim de arquejantes dias de jornada sobre o dorso de um camelo, um montão de ruínas em torno de uma cruz; um rio sinistro corre ao lado entre oliveiras; o céu arqueia-se mudo e triste como a abóbada de um túmulo. Assim devia ser Jerusalém.

- Linda viagem! - murmurou o nosso Casimiro, pensativo.

- Sem contar - rosnou Padre Pinheiro, baixo e como ciciando uma oração - que Nosso Senhor Jesus Cristo vê com grande apreço, e muito agradece, essas visitas ao seu Santo Sepulcro.

- Até quem lá vai - disse o Justino - tem perdão de pecados. Não é verdade, Pinheiro? Eu assim li no Panorama... Vem-se de lá limpinho de tudo!

(continua...)

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