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#Romances#Literatura Portuguesa

O Conde d'Abranhos

Por Eça de Queirós (1925)

Este ventre – segundo a frase de José Estêvão – era naturalmente um títere, um títere obeso nas mãos de sua mulher: era ela quem lhe puxava as guitas da vontade. D. Laura Amado, de aspecto, dava a impressão de uma régua: esguia, chata, erecta,.28 perpendicular, com o seu vestido de seda negra, parecia, não uma senhora, vivendo num prédio à Estrela, mas uma criação pitoresca do ilustre Dickens. Moralmente, tinha a mesma rigidez dura e inflexível, o mesmo rectilíneo de régua. Era uma devota, de uma pontualidade de máquina no cumprimento da sua devoção. Desde nova até ao dia em que a levou uma benemérita escarlatina, rezou, rezou imperturbavelmente, cronometricamente, com um tique-tique-tique, de relógio.

Era dotada de uma língua feroz com que lacerava todas aquelas – porque raras vezes, decerto por pudor, se referia aos homens – que não exerciam uma devoção tão complicada, ou tinham os gozos, os luxos, as paixões que lhe proibia o seu Deus, um Deus especial, dela – um Deus terrível, que vivia na Igreja de S. Domingos, insaciável de louvores, pródigo de catástrofes, sempre pronto a despedir, como raios, doenças mortais ou desgostos com as criadas, e que era necessário abrandar constantemente com promessas, missas, ladainhas e ofertas, porque o seu divino temperamento, de uma irritabilidade fora do vulgar, o mantinha no desejo frenético de fazer mal.

O sacerdote particular deste Deus, o intérprete na terra das suas vontades, era o padre Augusto, que morava numa casa de hóspedes às Portas de Santo Antão, e de quem D. Laura recebia a direcção espiritual, as ordens, os conselhos, as admoestações e as baforadas do hálito impregnado de alho.

Pode parecer irrespeitosa esta apreciação da família Amado, mas, para minha justificação, direi, que o Ex.mo Conde a abominava. E todavia – tanto a sua polidez era perfeita – nunca deixou de beijar respeitosamente a mão de sua devota sogra – mão magra, amarela e seca como um caranguejo, de longos dedos que ela tinha sempre postos em atitude de reza, contra o peito, na igreja, sobre o regaço, na sala, e em cima do prato, à mesa.

Desta devota, e do outro, do montão de gordura de que falei acima, tinha nascido um anjo.

Que me perdoe a memória do Conde, mas D. Virgínia Sarmento Amado, primeira Condessa d'Abranhos, era um anjo!

Não ignoro os seus erros: mas se, para os atenuar, não bastasse lembrar-me que há 1800 anos, Jesus de Nazaré defendeu das pedras farisaicas a pobre mulher amorosa prostrada a seus pés, bastar-me-ia recordar a bondade de D. Virgínia, a sua tocante delicadeza, o mimo das suas maneiras, aquela necessidade de ver todos à volta dela confortáveis e contentes... Era um anjo, tanto na sua alma, viva e toda espontânea, como nos seus cabelos loiros, sempre um pouco desordenados, nos seus grandes olhos activos e banhados num largo riso doce, no seu nariz tão fino, de um tom de marfim, na sua figura delicada, patrícia, de movimentos de ave... Era um anjo!

Desta família, o pai foi magistrado condecorado, a mãe, devota respeitada, e a filha – segundo a lei e a moral corrente – criminosa repulsiva. Hoje, dormem os três no jazigo monumental do Alto de S. João, e eu estou bem certo que esta opinião dos homens não foi corroborada por Deus. A devota estimada está, não o duvido, atravessada pelo espeto tradicional, que um diabo, por toda a Eternidade, vai fazendo girar, para a assar ora de um lado ora do outro. O pai, magistrado coberto de honras, impossível para ser de Deus, muito abjecto para ser do Diabo, deve estar nesse lugar tenebroso, latrina da Eternidade, onde os Vitellius torpes e os Amados pútridos chafur-dam para todo o sempre numa massa líquida, feita dos excrementos dos homens e da baba das feras.

E ela, a doce culpada, a loira condessa, parece-me vê-la, com um vestido cândido, a palma verde na mão, os fios de ouro fino dos seus cabelos soltos, banhada na luz paradisíaca e mística que sai dos olhos de Deus.

Que não me acusem de ir, nestas apreciações, de encontro à moral social, ou,.29 possuído de um orgulho sobre-humano, de dar indiscretamente um conselho a Deus. O crime de Virgínia é horroroso – mas a sua pessoa era adorável. À que pecara como ela,

Cristo perdoou, e – lavada a culpa pelo perdão divino – o que nos resta é uma deliciosa criança loira, daquele loiro que um dia cantou em versos inolvidáveis o mavioso poeta das Névoas:

O ouro da tua trança

Vaie os milhões dum avaro;

Não é pagar muito caro

Morrer por a ter beijado!...

Este anjo fazia 18 anos na noite em que o Dr. Vaz Correia conduziu Alípio à casa apalaçada do Desembargador Amado.

O Conde, que era supersticioso como Napoleão e Lamartine, contou-me depois que entrara na sala com o pé esquerdo.

Preocupado com isto, quando se achou defronte de uma grande barriga que um amplo colete branco vestia, em lugar de dizer «Sr. Desembargador», titubeou «Sr. Conselheiro», o que foi tão agradável ao obeso magistrado, que, ao apresentar Alípio à sua seca e hirta esposa, exclamou:

– É já colega do Vaz... Diz que é um talentarrão!...

Isto fez má impressão na devota senhora, que, em todos os homens novos e com talento, via invariavelmente inimigos da religião.

(continua...)

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