Por Eça de Queirós (1878)
Tinham passado ali lindas tardes! Ao pé da velha capela morgada havia um adro todo cheio de altas ervas floridas - e as papoulas, quando vinha a aragem, agitavam-se como asas vermelhas de borboletas pousadas...
- E a tília, lembras-te, onde eu fazia ginástica?
- Não falemos no que lá vai!
Em que queria ela então que ele falasse? Era a sua mocidade, o melhor que tivera na vida...
Ela sorriu, perguntou:
- E no Brasil?
Um horror! Até fizera a corte a uma mulata.
- E por que te não casaste?... Estava a mangar! Uma mulata!
- E de resto - acrescentou com a voz de um arrependimento triste -, já que me não casei quandodevia - encolheu os ombros melancolicamente -, acabou-se... Perdi a vez. Ficarei solteiro.
Luísa fez-se escarlate. Houve um silêncio.
- E qual é o outro presente, então, além do rosário?
- Ah! Luvas. Luvas de verão, de peau de suede, de oito botões. Luvas decentes. Vocês aqui usam umas luvitas de dois botões, a ver-se o punho, um horror!
De resto pelo que tinha visto, as mulheres em Lisboa cada dia se vestiam pior! Era atroz! Não dizia por ela; até aquele vestido tinha chique, era simples, era honesto. Mas em geral era um horror. Em Paris! Que deliciosas, que frescas as toaletes daquele verão! Oh! Mas em Paris!... Tudo é superior! Por exemplo, desde que chegara ainda não pudera comer. Positivamente não podia comer! - Só em Paris se come - resumiu.
Luísa voltava entre os dedos o seu medalhão de ouro, preso ao pescoço por uma fita de veludo preto.
- E estiveste então um ano em Paris?
Um ano divino. Tinha um apartamento lindíssimo, que pertencera a Lord Flamouth, Rue Saint Florentin; tinha três cavalos...
E recostando-se muito, com as mãos nos bolsos:
- Enfim, fazer este vale de lágrimas o mais confortável possível!... Dize cá, tens algum retratonesse medalhão?
- O retrato de meu marido.
- Ah! Deixa ver!
Luísa abriu o medalhão. Ele debruçou-se; tinha o rosto quase sobre o peito dela. Luísa sentia o aroma fino que vinha de seus cabelos.
- Muito bem, muito bem! - fez Basílio.
Ficaram calados.
- Que calor que está! - disse Luísa. - Abafa-se, bem!
Levantou-se, foi abrir um pouco uma vidraça. O sol deixara a varanda. Uma aragem suave encheu as pregas grossas das bambinelas.
- É o calor do Brasil - disse ele. - Sabes que estás mais crescida?
Luísa estava de pé. O olhar de Basílio corria-lhe as linhas do corpo; e com a voz muito íntima, os cotovelos sobre os joelhos, o rosto erguido para ela:
- Mas, francamente, dize cá, pensaste que eu te viria ver?
- Ora essa! Realmente, se não viesses zangava-me. Es o meu único parente... O que tenhopena é que meu marido não esteja...
- Eu - acudiu Basílio - foi justamente por ele não estar...
Luísa fez-se escarlate. Basílio emendou logo, um pouco corado também:
- Quero dizer... talvez ele saiba que houve entre nós...
Ela interrompeu:
- Tolices! Éramos duas crianças. Onde isso vai!
- Eu tinha vinte e sete anos - observou ele, curvando-se.
Ficaram calados, um pouco embaraçados. Basílio cofiava o bigode, olhando vagamente em redor.
- Estás muito bem instalada aqui - disse.
Não estava mal... A casa era pequena, mas muito cômoda. Pertencia-lhes.
- Ah! Estás perfeitamente! Quem é esta senhora, com uma luneta de ouro?
E indicava o retrato por cima do sofá.
- A mãe de meu marido.
- Ah! Vive ainda?
- Morreu.
- É o que uma sogra pode fazer de mais amável...
Bocejou ligeiramente, fitou um momento os seus sapatos muito aguçados, e com um movimento brusco, ergueu-se, tomou o chapéu.
- Já? Onde estás?
- No Hotel Central. E até quando?
- Até quando quiseres. Não disseste que vinhas amanhã com o rosário?
Ele tomou-lhe a mão, curvou-se:
- Já se não pode dar um beijo na mão de uma velha prima?
- Por que não?
Pousou-lhe um beijo na mão, muito longo, com uma pressão doce.
- Adeus! - disse.
E à porta com o reposteiro meio erguido, voltando-se:
- Sabes, que eu, ao subir as escadas, vinha a perguntar a mim mesmo, como se vai isto passar?
- Isto quê? Vermo-nos outra vez? Mas, perfeitamente. Que imaginaste tu?
Ele hesitou, sorriu:
- Imaginei que não eras tão boa rapariga. Adeus. Amanhã, hem?
No fundo da escada acendeu o charuto, devagar.
- "Que bonita que ela está!" - pensou.
E arremessando o fósforo, com força:
- "E eu, pedaço de asno, que estava quase decidido a não a vir ver! Está de apetite! Está muitomelhor! E sozinha em casa; aborrecidinha talvez!..."
Ao pé da Patriarcal fez parar um cupé vazio; e estendido, com o chapéu nos joelhos, enquanto a parelha esfalfada trotava:
- "E tem-me o ar de ser muito asseada, coisa rara na terra! As mãos muito bem tratadas! O pémuito bonito!"
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.