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#Romances#Literatura Portuguesa

O Mistério da Estrada de Sintra

Por Eça de Queirós (1870)

Eis aqui o que às onze horas e meia da noite se estava passan do no quarto contíguoàquele que me serve de prisão:

II

Havia dois homens que arrastavam um grande leito de ma deira do lugar em que eleestava para ao pé da parede que divide a casa em que eu me acho daquela em que se passava a cena que descrevo, e exactamente para junto do lugar em que eu acabava de abrir o buracoque me servia de olho e de orelha.

Um desses homens dizia assim: — Será o que muito bem quiser, mas eu é que não torno a vir cá a andar aostrambolhões com os móveis à hora da meia-noite.

— Há-de ter muita razão de queixa! — tornava o outro. — Dou-lhe uma libra para meajudar, quero saber se não é melhor isto do que estar lá em baixo estendido ao pé da manjedoura, à espera que chegue o trem para ir tratar dos cavalos, a enfastiar-se, sem ga nhar vintém.

Aquele que dizia estas palavras, conquanto se expressasse claramente, tinha todos os defeitos de pronúncia que distinguem o estrangeiro que fala português. Pela aspiração especial de certas vogais e pela contracção labial com que pronunciava os aa, era por certoalemão.

O que primeiramente falara, prosseguiu: — É bom lucro... Parece que é bom lucro, mas eu para mim não o quero. E olhe quenão encontra seis homens aqui na rua que en trem cá de noite, a estas horas, ainda que os pese a ouro!- Para mudar uma cama!

— Não é pela cama, é por ser a casa que é! — Ora adeus! que tem a casa?!...- Não tem nada! É uma graça! Ela é de tal casta que o senho rio teve-a quatro anos por alugar, foi sempre baixando na renda e por fim dava-a já de graça e não tinha alma viva quelhe pegasse! A última gente que cá morou esteve só duas noites, e foi-se da qui tolhida com as coisas que lhe apareceram e com as trapalha das que ouvia. Cruzes, demónio! cruzes, diabo!- Petas! histórias da vida!

— O senhor! Não me diga a mim que são petas! Pois eu não vi a família!... Não estivecom eles!? Fugiram de noite, fugiram à se gunda noite que dormiram cá, estarrecidos de medo.

— Então que viram eles?- Eles não viram nada.

— Então aí tem. — Não viram, mas ouviram.- Haviam de ouvir boas coisas!

— Ouviram, sim, senhor, ouviram. E não foi só a eles que su cedeu isso, foi a todosquantos cá moravam. E era gente de bem, que não mentia, que não tinha precisão de mentir, que tinham pago a sua renda e que ficaram com ela perdida!

— Então que ouviam eles?- O senhor bem o sabe!.., O que eles ouviam? Ouviam panca das nas portas, quando ninguém batia, nem lhes tocava! Ouviam espirrar o lume e estalarem os carvões exactamentecomo se estivessem abanando à fogueira, quando estava a cozinha só e o fogão apagado! Sentiam o bater das asas de um pássaro que principia va a voar pelas casas apenas se apagavam as luzes; ouviam-no ar quejar e bufar aproximando-se cada vez mais dos queestavam deitados, pairando tão rente das camas que se sentia o estremecer das penas, o calor de lume que ele deitava do bico e ao mesmo tem po o frio de neve que fazia a mover as asas!- Ora adeus! tinham ouvido falar nisso e pareceu-lhes que sentiam o tal pássaro, de que já falavam os inquilinos anteriores, os quais também tinham ouvi do falar nele, não havendo no fim de contas ninguém que verdadeiramente o tivesse ouvido.- Então o senhor não sabe porque foi que eles fugiram, os úl timos que estiveram cá, faz agora quatro anos?- Ouvi falar nisso, mas por alto, não me deram pormenores.



(continua...)

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