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#Novelas#Literatura Portuguesa

Alves & Cia

Por Eça de Queirós (1925)

— De modo que – exclamou Godofredo – fica tudo nisto... Não há nada. Tenho de tragar a afronta.

Medeiros ergueu-se indignado. Ora essa, então pôr quem o tomava ele? Tinha ou não Alves posto a sua honra nas mãos dele e do Carvalho? Tinha. Então não podia supor que eles, seus amigos, o deixassem na lama, miseravelmente...

— Mas – murmurou Alves.

— Mas que? Está claro que te hás-de bater. Foi o que se decidiu. Não há motivo para que seja à pistola, porque foi um simples namoro. Mas como o sr. Machado não tem direito a namorar a tua mulher, há todo o motivo para que seja à espada, um duelo mais simples... Vamos nos encontrar logo com eles em minha casa, às oito horas, e combinar tudo.

— E não temos muito tempo a perder – disse Carvalho puxando o relógio – porque são seis e meia, ainda temos de jantar. Eu estou a cair...

Godofredo ofereceu-lhes então que jantassem lá. De resto ele tinha calculado que apareceriam à hora do jantar e mandara preparar um bocado de assado a mais.

— Não haverá mais que um bocado de assado – disse ele -, mas enfim, em campanha tudo basta... e nós estamos em guerra.

Era a primeira vez que sorria desde a véspera. Mas aquela companhia dos seus amigos ao jantar alegrava-o, evitando-lhe a solidão que ele temia.

E o jantar foi alegre. Tinha-se combinado que não falariam do duelo, nem do caso: mas logo desde o cozido, em todos os momentos que Margarida não estava presente, voltavam a essa idéia, pôr frases curtas e alusões vagas. Pôr fim, Godofredo disse à Margarida que não voltasse sem que ele tocasse a campainha: e então a conversação não cessou mais. Godofredo contou como conhecera Ludovina, e o seu namoro, e o dia do casamento. Depois falou do Machado, mas já sem cólera, chegando mesmo a dizer que era um rapaz brioso. Era ele que o ia buscar ao colégio quando o Machado era pequeno: e às vezes levava-o ao teatro. E estas recordações enterneciam-no, terminou pôr engolir um soluço, disse que se não falasse mais em semelhante coisa. Tocou a campainha, a Margarida trouxe o assado. Houve um curto silêncio, o Medeiros gabou o vinho de Colares. Carvalho, a respeito do Colares, que ele costumava beber em Cabo Verde, lembrou um caso de duelo em que ele lá fora testemunha: e apenas Margarida saiu, contou-o logo: era parecido com o do Alves, também pôr causa duma mulher, mas essa, preta. Isto parecia incrível ao Medeiros. Mas Carvalho gabou a preta, com o olho brilhante:

Em a gente se acostumando, não quer senão daquilo... A preta é grande mulher.

— Mas que diabo, não falemos mais de mulheres – disse Godofredo.

E neste pedido, que ele acompanhou de um vago sorriso, havia como uma resignação na sua desgraça, uma idéia nascente de gozar a vida, na companhia de amigos, nas preocupações do negócio, sem os desgostos que traz invariavelmente a paixão das saias. Então falou-se do Nunes. Medeiros estava contente de num caso tão sério como aquele Ter encontrado pela frente o Nunes, rapaz sério, de experiência e de honra. Estava ao princípio com medo que o Machado tivesse a idéia de nomear para padrinho aquele idiota do Sigismundo, com quem andava sempre. E isto trouxe de novo à conversa o Machado. Então, um pouco animado pelo Colares, Medeiros confessou que já tinha pregado uma ao Machado: tinha sido o amante da francesa com quem ele estivera. Então começou a falar de si, das suas conquistas: e voltou à história da véspera, quando estivera para ser apanhado na cozinha. O Carvalho também tivera uma história assim, em Tomar. Mas aí tivera de saltar pela janela, e caíra em cima duma estrumeira... O Carvalho sabia pior do que isso: um amigo dele, o Pinheiro, não o magro, o outro, o picado das bexigas, que tinha estado escondido num curral de porcos seis horas. Ia morrendo. E quando via um porco punha-se branco como a cal. Então foi entre o Carvalho e o Medeiros um desfilar de anedotas de adultérios. O Godofredo, homem casado e honesto, não tinha destas anedotas: a sua vida fora toda doméstica, sem aventuras, e escutava, bebendo o seu café aos goles, gozando aquele fim alegre de jantar, sorrindo pôr vezes.

E terminou pôr sentir um hálito quente de mocidade, dizer filosófico:

— Homem, é melhor a gente divertir-se pôr sua conta, que os outros se divirtam à nossa custa...

As oito horas aproximavam-se. Carvalho começou a calçar as luvas pretas, Então Godofredo falou em os acompanhar: meter-se-ia dentro do quarto do Medeiros – enquanto se celebrava a conferência na sala -, e eles poupavam assim o trabalho de voltar, a dar-lhe parte do resultado, à rua de São Bento. E – apesar de Carvalho Ter achado isto contra a etiqueta – terminou pôr consentir, pôr não ser coisa muito grave.

Foi-se buscar uma carruagem, e apinhados dentro dela todos três – partiram para a Estrela.

(continua...)

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