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#Romances#Literatura Portuguesa

A Cidade e as Serras

Por Eça de Queirós (1901)

Uma das senhoras murmurou:

-Mas, não é a Gilberte!...

E um dos homens:

-Parece um cornetim...

-Agora são palmas...

-Não, é o Paulim!

O Grão-Duque lançou um chut feroz... No pátio da nossa casa ladravam os cães. De Além do ribeiro respondiam os cães do João Saranda. Como me encontrei descendo pôr uma quelha, sob as ramadas, com o meu varapau ao ombro? E sentia, entre a seda das cortinas, num fino ar macio, o cheiro das pinhas estalando nas lareiras, o calor dos currais através das sebes altas, e o sussurro dormente das levadas...

Despertei a um brado que não saía nem dos eidos, nem das sombras. Era o Grão-Duque que se erguera,

encolhia furiosamente os ombros:

-Não se ouve nada!... Só guinchos! E um zumbido! Que maçada!... Pois é uma beleza, a cançoneta:

Oh les casquettes,

Oh les casquette-e-e-tes!...

Todos largaram os fios – proclamavam a Gilberte deliciosa. E o mordomo benedito, abrindo largamente os dois batentes, anunciou:

-Monseigneur est servi!

Na mesa, que pelo esplendor das orquídeas mereceu os louvores ruidosos de S. Alteza, fiquei entre o etéreo

poeta Dornan e aquele moço de penugem loura que balouçava como uma espiga ao vento. Depois de desdobrar o guardanapo, de o acomodar regaladamente sobre os joelhos, Dornan desenvencilhou da corrente do relógio uma enorme luneta para percorrer o menu – que aprovou. E inclinando para mim a sua face de Apóstolo obeso.

-Este Porto de 1834, aqui em casa de Jacinto, deve ser autêntico... Hem?

Assegurei ao Mestre dos Ritmos que o “Porto” envelhecera nas adegas clássicas do avô Galião. Ele afastou, numa preparação metódica, os longos, densos fios do bigode que lhe cobriam a boca grossa. Os escudeiros serviram um consommé frio com trufas. E o moço cor de milho, que espalhara pela mesa o seu olhar azul e doce, murmurou, com uma desconsolação risonha:

-Que pena!... Só falta aqui um general e um bispo!

Com efeito! Todas as Classes Dominantes comiam nesse momento as trufas do meu Jacinto... Mas defronte Madame de Oriol lançara um riso mais cantado que um gorjeio. O Grão-Duque, numa silva de orquídeas que orlava o seu talher, notara uma, sombriamente horrenda, semelhante a um lacrau esverdinhado, de asas lustrosas, gordo e túmido de veneno: e muito delicadamente ofertara a flor monstruosa a Madame de Oriol, que, com trinado riso, solenemente, a colocou no seio. Colado àquela carne macia, duma brancura de nata fina, o lacrau inchara, mais verde, com as asas frementes. Todos os olhos se acendiam, se cravam no lindo peito, a que a flor disforme, de cor venenosa, apimentava o sabor. Ela reluzia, triunfava. Para ajeitar melhor a orquídea os seus dedos alargaram o decote, aclararam belezas, guiando aquelas curiosidades flamejantes que a despiam. A face vincada de Jacinto pendia para o prato vazio. E o alto lírico do Crepúsculo Místico, passando a mão pelas barbas, rosnou com desdém:

-Bela mulher... Mas ancas secas, e aposto que não tem nádegas!

No entanto o moço de loura penugem voltara à sua estranha mágoa. Não possuirmos um general com a sua espada, e um bispo com seu báculo!...

Ele atirou um gesto suave em que os seus anéis faiscaram:

-Para uma bomba de dinamite... Temos aqui um esplêndido ramalhete de flores de civilização, com um Grão-Duque no meio. Imagine uma bomba de dinamite, atirada da porta!... Que belo fim de ceia, num fim de século!

E como eu o considerava assombrado, ele bebendo golos de Chateau-Yquem, declarou que hoje a única emoção, verdadeiramente fina, seria aniquilar a Civilização. Nem a ciência, nem as artes, nem o dinheiro, nem o amor, podiam já dar um gosto intenso e real às nossas almas saciadas. Todo o prazer que se extraíra de criar estava esgotado. Só restava, agora, o divino prazer de destruir!

Desenrolou ainda outras enormidades, com um riso claro nos olhos claros. Mas eu não atendia o gentil pedante, colhido pôr outro cuidado – reparando que em torno, subitamente, todo o serviço estacara como no conto do Palácio Petrificado. E o parto agora devido era o peixe famoso da Dalmácia, o peixe de S. Alteza, o peixe inspirador da festa! Jacinto, nervoso, esmagava entre os dedos uma flor. E todos os escudeiros sumidos!

(continua...)

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