Por Lima Barreto (1909)
A delegacia continuava silenciosa e as pessoas sentadas pelas cadeiras não ousavam entreolhar-se. Não havia duas horas que eu, no restaurant, me pusera a imaginar grandes coisas. Gregoróvitch incitara-me a trabalhar pela grandeza do Brasil; fez-me notar que era preciso difundir na consciência coletiva um ideal de força, de vigor, de violência mesmo, destinado a corrigir a doçura nativa de todos nós. Pela primeira vez de lábios humanos, ouvi dizer mal da piedade e da caridade: sentimentos anti-sociais, enfraquecedores dos indivíduos e das nações... Virtudes dos fracos e dos cobardes, resumia ele.
Houve um grande estupor em mim; eu tinha do meu natural um grande respeito por essas virtudes e a minha educação isolada, comprida, órfã de afetos, só fizera estimular e aumentar esse meu respeito. Não sei como a conversa foi variar para a beleza. Ele riu se da nossa opinião habitual dela, da insignificância do critério dos nossos literatos. Gente, disse-me ele, que vive perturbada, desejosa de realizar ideais de povos mortos, ideais que já se esgotaram; prisioneira da arqueologia, e muito certa de que a verdade está aí, como se houvesse uma beleza absoluta, existindo fora de nós e independente de nós. Por aí ele fez uma formidável charge aos nossos intelectuais. Eu sinto não poder reproduzi-la aqui. Estávamos em meio do almoço e o vinho dava asas às suas palavras e tornara mais lúcido o meu espírito. Referindo-se ao Laje, chamou-o de águia, homem de presa, super-homem e por mais que eu quisesse tirar informações sobre o padeiro, ele se limitou sempre a ditos sibilinos que mais me aumentaram as velhas suspeitas.
O meu conhecimento com o doutor Ivã, se bem que recente, vinha sendo mantido e fortalecido com freqüentes encontros na Rua do Ouvidor. O meu provincianismo e acanhamento davam-se perfeitamente no tumulto que a anima. Nela, eu combinava as minhas necessidades de sociabilidade com o meu temperamento delicado e desconfiado, ao qual uma sociabilidade mais perfeita expunha a ofensas e a indelicadezas dolorosas. Depois, olhava, olhava a fartar: homens, moços e velhos, mulheres, senhoras. Quando acontecia encontrar o jornalista internacional, trocávamos cumprimentos com os chapéus, polidamente, atenciosamente. O gênio comunicativo do russo e o hábito de viajante de adquirir rapidamente relações e camaradas, foram vencendo aos poucos a minha reserva e a desconfiança. Convite como este, já me fora feito várias vezes e eu sempre recusara com delicadeza e dignidade. Entretanto no hotel, logo ao sentar-me, tive ímpetos de confessar os meus desgostos ao jornalista; o meu orgulho irracional fez-me calar...
Por esse tempo, passos fortes na escada vieram perturbar os meus pensamentos. Todos nos viramos para a porta de entrada. Pela sala adentro entrou aquele senhor de cartola e calças brancas que me disseram senador, num bonde de Barcas. Tirou a cartola com repugnância, enquanto o inspetor levantava-se respeitosamente.
— Vossa Excelência?!
— Boa tarde, Barros não está?
— Não, senhor. Saiu e só voltará para a audiência das seis horas.
— Que diabo! fez aborrecido o senador.
— Se Vossa Excelência quer alguma coisa urgente, pode procurá-lo agora no Pascoal... Ele me disse que ia para lá...
O alto dignitário da nação fez menção de retirar-se e o inspetor já se tinha sentado, quando subitamente o senador se voltou dizendo:
— Era coisa urgente... você bem me podia informar se...
Olhou ao redor cautelosamente e depois continuou a falar naturalmente:
— Você bem me podia dizer se o “Nove-Dedos” está preso aqui?
— Aqui, não, senhor senador. Até agora, só temos no xadrez um ébrio...
— Mas... disseram me que tinha feito um roubo... Esse rapaz é um doido!
— Onde foi, Excelência?
— No largo de São Francisco.
— Ahn! Não é aqui conosco; é com a nona.
— Obrigado.
Apertou a mão do rapaz cheio de agradecimento e saiu murmurando de modo que fosse ouvido por todos nós: Aquele doido só me leva a incomodar!
A sala da delegacia voltou novamente ao seu silêncio primitivo. Um soldado veio apresentar-se, trocando rápidas palavras com o inspetor. Um relógio próximo bateu quatro horas. Dos compartimentos do fundo, chegou um personagem ventrudo, meão de altura, de pernas curtas, furta-cor, tendo atravessado no peito um grilhão de ouro, donde pendia uma imensa medalha cravejada de brilhantes. Dirigiu-se ao inspetor:
— Raposo, vou sair: há alguma coisa?
— Nada, Capitão Viveiros.
— E o caso do Jenikalé? Já apareceu o tal “mulatinho”?
(continua...)
BARRETO, Lima. Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1865 . Acesso em: 8 maio 2026.