Por Adolfo Caminha (1896)
O secretário não gostava de olhar o cemitério: recordava-se tristemente da última vez em que lá fora enterrar a ilustre senhora, bela mulher, cujo nome o Rio de Janeiro todo conhecia... Não gostava, não gostava de olhar o cemitério...
D. Branca estava aflita por chegar aos fundos; queria surpreender o marido de Adelaide com o irrigador de Ermarck.
— Que achas? - perguntou Furtado ao amigo, relanceando os olhos no aposento.
— Bom... bom - murmurou o bacharel. - Vamos cá!
E dirigiu-se aos fundos da casa, inspecionando o teto e o papel do forro.
— Vocês aqui estão muito bem — tornou o secretário.
— Muito melhor que na Cidade Nova — acrescentou D. Branca. — Ao menos estão em Botafogo.
O corredor ia sair na área, forrado em todo o comprimento, claro, fresco e iluminado pelos reflexos da clarabóia.
Percorreram tudo até o quiosqueziriho do terraço, que o bacharel comparou poeticamente a uma "casa da pombos".
— Agora venha ver, Sr. Evaristo, venha ver o que os ingleses deixaram — insistiu de novo D. Branca.
— Tolice de minha mulher, Evaristo!
— Não, não, tenha a bondade, Sr. Evaristo, tenha a bondade. Quero que o senhor veja...
A um canto do terraço, entre o quiosque e o gradil, estava uma espécie de cilindro cor de cobre novo, com uma das extremidades em forma de funil donde saía molemante, quebrando-se em curvas, um tubo estreito de borracha.
— Isso o que é? - perguntou, inclinando-se, o bacharel.
As duas senhoras abriram outra vez na risadaria, cabeceando, agarrando-se como duas colegiais.
— Branca! — advertiu Furtado. — Olha que o Evaristo não é menino de escola...
E segurando o amigo pelo braço o foi levando para dentro do corredor.
— Isso é uma das grandes invenções do século, meu amigo; veio com a descoberta do micróbio parasitário.
Falavam baixo, com hipocrisia de homens que se querem dar ao respeito. Mas D. Branca ouviu ainda um oh! de exclamação que o marido de Adelaide não pôde abafar.
Estava escurecendo. Já o sol mandava o seu último adeus à terça-feira com uns restos de claridade crepuscular.
Tanto o bacharel como a esposa acharam que se devia tratar logo da mudança, ou antes da instalação, porque Evaristo inda não comprara sequer a cama de casal. - Mudar o quê? Só se fosse uma rede que ele trouxera do norte, uma rede esplêndida, de labirinto, e os indiscretos baús de couro..
— Não te faças miserável! — ralhou Furtado. — Um homem não tem o direito de menosprezar-se. Um baú pode conter as minas de Salomão!
— O Evaristo vive a gracejar, Sr. Luís — disse Adelaide. — A mania dele é chamar-se pobre, lamentar-se, berrar contra quem tem dinheiro!... Isso até desanima.
— Mas, então, que querem vocês que eu diga? Que ando com os bolsos recheados? que tenho apólices no Tesouro? que deixei na província uma fazenda de gado? que trago os baús repletos de ouro e prata? Ora muito obrigado, minha mulher!
— Não estou dizendo isso...
Aquele — que querem vocês que eu diga? — referia-se exclusivamente ao marido de D. Branca e a Adelaide. Esta notou o carinhoso plural e como que sentiu no fundo d'alma um prazerzinho em se achar na companhia de homem tão educado e nobre. Aquele vocês, dirigido a ela e ao Sr. Luís, trouxe-lhe um pequeno abalo ao coração, qualquer coisa de intimamente agradável.
— D. Adelaide não está dizendo isso — repetiu Furtado. — O que ela está dizendo é que tens a mania da pobreza, a mania das lamentações...
D. Branca, por seu turno, observou que o marido tratava Adelaide com muita distinção, muita gentileza; mas atribuiu à natural bonomia do secretário.
Evaristo é que não observou coisíssima alguma; dissera vocês, porque achava familiar o tratamento e porque tratava o Luís por você e Adelaide por você, isoladamente. Não havia razão para, referindo-se aos dois, proceder doutro modo.
A mulher, porém, descobre manchas no sol em pleno meio-dia e é capaz de enxergar, com os olhos fechados, uma agulha num palheiro.
No outro dia, quando Evaristo voltou do Banco, encontrou o segundo andar mobiliado; cadeiras, mesas, uma estante para livros, bela cama de casal, guardaroupa, cabides... o inferno!
Adelaide recebeu-o no primeiro andai, como de costume, risonha e feliz, mas estranhando que lhe não perguntasse coisa alguma, rompeu o silêncio:
— Que despesão fizeste!
— Despesão?..
— Sim; quanto custariam as cadeiras, a cama, o sofá.
Evaristo, em pé, no alto da escada, julgou que a mulher houvesse enlouquecido e olhava-a, sem compreender as palavras.
— Que cama? que sofá? que cadeiras?...
— Que mandaste da rua...
— Eu?!
— Está de muito bom gosto a cama, Sr. Evaristo — saltou D. Branca. —
Felicito-o!
(continua...)
CAMINHA, Adolfo. Tentação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16515 . Acesso em: 27 mar. 2026.