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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

Enquanto padre José apanhava bordoadas de cego nas colunas do Democrata, o subdelegado, o escrivão da polícia, o comandante do destacamento, o juiz municipal e o fiscal da Câmara folgavam, comprazendo-se numa feliz obscuridade, e como o vigário não opunha aos artigos do Chico um procedimento exemplar, as censuras e acusações calavam na opinião, o partido maçônico aumentava, uma corrente de simpatia estabelecia-se entre o jornalista liberal e a população de Silves.

Em segundo lugar, a sua posição de chefe de partido reunira em torno da sua pessoa um grupo dedicado e atento, que amparava e aplaudia na luta, dando-lhe prestígio e força. Francisco Fidêncio já se não sentia isolado, as sua palavras eram repetidas por alguns como Evangelho, as pilhérias que lhe saíam da boca tinham curso forçado. As suas opiniões eram aceitas geralmente, com desconto do exagero que lhe atribuíam os tais homens sérios, em questão de doutrina e de dogma:

— Aquilo é maluquice dele, mas tem razão no que diz dos padres.

— Maluquice resmungou Francisco Fidêncio, levantando-se de novo, e chegando à porta do corredor, gritou para a varanda:

— Então, nem um cafezinho hoje! Olhe que a gente não almoçou!

Cessou o ruído dos bilros, e a voz arrastada da Maria Miquelina respondeu lá de dentro:

— Pensei que vuncê não queria nada hoje. Está de burros, paresque!

A caseira já devia saber que, quando o fígado lhe não permitia comer, o Chico Fidêncio bebia muito café. Era a única coisa que o seu estômago suportava. Demais era carioca da gema. Era da terra do café. E quando estava danado, bebia café. No dia em que fora demitido de professor público no Pará, bebera mais de vinte xícaras desse líquido que prolongara a vida de Voltaire.

Voltou a passear a sala em todos os sentidos, levando a mão à região do fígado e chupando um cigarro apagado.

A chuva continuava, monótona, repenicando nos telhados vizinhos. A flauta do Chico Ferreira cansara. Da casa fronteira vinha um choro de criança manhosa e endefluxada. Os pequenos sinos da Matriz espaIhavam no ar alegres vibrações argentinas, saudando o meio-dia.

A rua continuava deserta. Francisco Fidêncio chegara à janela e não vira pessoa alguma. Pudera! com aquele tempo de cachorro!

Estava de burros, sim, e tinha razão de sobra. Havia mais de meio ano que padre José morrera, e que Fidêncio ficara sem assunto para alimentar a sua correspondência com a folha de Manaus. A questão religiosa amortecera, os episódios da luta iam ficando esquecidos, o terrível adversário do clericalismo estava se tornando inofensivo.

Tivera uma forte tentação de voltar a bulir com os antigos inimigos, para o que não lhe faltaria assunto, graças a Deus. Sabia tudo que se passava em Silves, sem necessidade de espiar, nem de indagar da vida alheia. Contavam-lhe, sem que nada perguntasse.

Podia referir-se ao José Antônio Pereira, que passava por moço de muito bons costumes, mas tinha lá as suas mazelas em casa. Podia contar que o Neves Barriga tinha um serralho no sítio do rio Urubus, e que por isso não queria saber da vila, onde o chamavam os seus deveres de camarista. Que o Valadão, o subdelegado, prendia por dinheiro os negros fugidos, fazendo-se capitão-do-mato. 0 fiscal merecia bem boas sovas pelo estado das ruas que a Câmara o incumbira de zelar, e sem sair das raias do interesse público, que ele, como escritor público, devia e podia superintender, tinha muito que dizer da Câmara, e especialmente dum certo vereador João Carlos, que estava quase sempre na presidência, porque o Neves não gostava de deixar o serralho.

Do Costa e Silva, apesar de amigo, poderia afirmar que pregava de vez em quando o seu carapetão ao Diário do Grão-Pará, porque tinha a imaginação exaltada e era duma credulidade de caboclo. E 0 próprio coletor, o grave e pretensioso capitão Fonseca não ficaria muito livre de culpa, se o Fidêncio quisesse referir-se a certas coisas lá da coletoria que o escrivão Pereira lhe contara muito em confiança...

Mas a dura experiência do passado...

Passara vicissitudes terríveis por causa daquele jeito que tinha para a crítica e o sarcasmo. Conseguira, por um grande esforço de prudência , fugir à tentação em que a falta de assunto o ia despenhando.

Por isso, contentara-se com escrever generalidades contra o clero todo, contra a doutrina da infalibilidade, e especialmente contra os homens do espanhol de Loiola, entremeadas de censuras ao bispo por deixar tanto tempo sem pastor espiritual uma população católica, o que provava, escrevera ele ao Democrata, que a salvação das almas não era a preocupação principal desses senhores de Roma.

Mas que se importava a gente de Silves com o espanhol Loiola e com os homens de Roma?

0 que ela queria era a bela da descompostura a gente conhecida, a referência direta a pessoa do lugar.

(continua...)

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