Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Uma Lágrima de Mulher

Por Aluísio Azevedo (1880)

Rosalina, bela, mas já dessa beleza satânica das bacanais - pendente a cabeça, requebrando o olhar e o colo nu, valsava no salão principal com um rapaz de bigodes pretos, reclinada voluptuosamente sobre ele, entregues ambos ao desamparo, feliz e enebriante do prazer e da fadiga. Ele, arquejando, segredava-lhe umas coisas grosseiras e apaixonadas, e ela, ela sorria com indulgente gosto ao som venenoso das palavras que saíam truncadas e ardentes dos lábios do mancebo.

Depois de um trêmulo diálogo, imperceptível para os outros, em que deliberavam mais os olhos que as palavras, ela abaixou comprometedora ternura as pestanas, como respondendo à fixidez interrogadora dos olhos abrasados do par, e ele, com reconhecido sorriso, recolheu esse abaixar de pálpebras, que queria dizer sim.

No mesmo instante separaram-se, e Rosalina, lançando sobre o moço um olhar significativo, desapareceu do salão, sem ser percebida.

Atravessou sozinha e ligeira duas salas, passou pela varanda, desceu a escada que conduzia ao primeiro andar, e, procurando abafar o som dos passos, apalpando cautelosamente as sombras dos corredores, chegou a uma porta, abriu-a e entrou.

Era a porta dos seus aposentos particulares, silencioso e perfumado ninho, onde o ruído do incêndio de cima chegava trêmulo e desfeito, como o murmúrio de uma tempestade ao longe.

Rosalina ao entrar correu de todo o farto cortinado de damasco e atirou-se extenuada sobre um divã. Sentia-se preguiçosamente fraca e terna, tinha uns desejos vagos e incompletos, uma moleza voluptuosa e agradável que a obrigava a fechar involuntariamente as pálpebras.

Pequena lamparina de ágata espalhava nos aposentos meia claridade macia, doce, morna e sonolenta, como o olhar oriental de um elefante. Envolvida nesse nada cor-de-rosa, a moça meditava.

— E em que!...

Ó caprichos da imaginação! — Em Miguel. Desde que o esquecera era a primeira vez que o vulto sombrio do seu amado primitivo lhe acudia a memória; dantes acudia-lhe muitas vezes, porém ao coração. Sem saber porque, Rosalina com tal lembrança começou a sentir o princípio de uma pontinha de remorso — tímido e flexível como o espinho ainda verde mas já agudo. Estava em tempo de quebrar facilmente, porém já doía.

Quando de muda para Nápoles, Rosalina, como única resposta que obteve do pai a respeito de Miguel, ouviu estas duas sílabas: — Morreu.

Naquele momento, esta palavra caiu-lhe inteiriça sobre o coração como uma pedra sobre um túmulo, e, todavia, a idéia de viver em Nápoles com opulência lhe sopeara as lágrimas que porventura queriam rebentar; mas, pouco tempo depois, as festas, o luxo, o amor dos homens, a inveja das mulheres e o ciúme e desespero dos desprezados, matizaram-lhe, como uma primavera cheia de luz e vida, por tal forma o coração, que as flores acabaram por esconder o grosseiro túmulo que jazia.

E desde então Miguel fora totalmente esquecido.

Agora, mistérios do coração! por entre as flores e por entre os risos lobrigava ela o fúnebre alvejar de pedra sepulcral; e o artista levantara-se medonho da sepultura, como um espectro sombrio e ameaçador, a fixá-la das sombras da eternidade.

Esta visão preocupou ainda mais a bela cismadora que, suspirando, ergueuse, passou as costas da mão pelos olhos, e depois acendeu um lustre, como querendo afugentar com a luz o fantasma.

De repente, alguma coisa lhe prendeu a atenção. — Era um som longínquo e profundo, que vinha do jardim pelo lado oposto às salas do baile; Rosalina reclinou vagarosamente a cabeça para aquele som, gemido ou voz, suspiro ou música, e, caindo de novo no divã, quedou-se embevecida a escutá-lo.

O som lembrava ora um mugido de uma criancinha, ora o ciciar da brisa; voz da natureza ou suspirar de homem, chegava-lhe ao coração essa música como coisa estranha, impressiva e sobrenatural.

Havia nesse murmurar um não sei o que de humano e um não sei o que de celeste; mal se diria se eram notas plangentes que vinham do céu ou se uma harmonia de lágrimas, caindo gota a gota numa taça de cristal; enfim, participava tanto do céu como da terra — poder-se-ia dizer que era o roçar das asas dos anjos pelo coração do homem.

Era uma rabeca que falava a linguagem da inspiração — idioma divino só compreendido pelas almas bem formadas.

Rosalina conhecia bem o metal daquela voz; conhecia a rabeca, o arco e conhecia a música, porém a sua alma embalde se esforçava por compreendê-la ainda; produzia-lhe já o efeito de uma língua estranha, digamos de uma língua morta.

E, contudo, a rabeca soluçava a última composição que Miguel lhe dedicara na casinha branca.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...1819202122...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →