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#Contos#Literatura Brasileira

Histórias e tradições da Província de Minas Gerais

Por Bernardo Guimarães (1872)

Temiam acaso que aquele crânio oco e ressequido onde há tanto tempo se extinguira a vida e o pensamento, de novo se reanimasse, e reunindo-se ao tronco esquartejado e esparso, desse outra vez o sinal da revolta ao povo oprimido?...

Ou receavam que esse crânio, hasteado na ponta do estandarte da emancipação, fosse o sinal certo da queda dos tiranos e do triunfo da liberdade, como esse célebre tambor que os soldados húngaros fizeram da pele de seu bravo chefe Ziska, morto no campo da batalha, tambor que quando rufava à frente deles, era seguro prenúncio da vitória?

Pobre Tiradentes!... ainda que não fosse tão nobre e santa a causa por que te imolaste, a morte afrontosa que sofreste, e a crueldade, direi asquerosa, com que profanaram teus miserandos restos, eram motivos bastantes para abençoarmos tua memória e execrarmos a de teus algozes.

III

Era uma noite tenebrosa, horrenda, como essa que aí vai correndo.

Impetuosa ventania, zunindo pelos tetos da antiga e opulenta Vila Rica submersa no sono e no silêncio, impelia pelos ares camadas e camadas de espessa e frigidíssima neblina, e fazendo oscilar sobre seu poste a caveira do mártir da liberdade com sinistro estrépito, agitava-lhe os compridos cabelos castanhos ainda aderentes ao crânio.

Parecia que aquela cabeça heróica, bafejada pelo sopro da liberdade que rugia das montanhas, em seu fúnebre oscilar ameaçava ainda os tiranos, e lhes predizia a próxima ruína.

O pálido clarão da lanterna, que balouçava ao vento, ondulava lúgubre sobre a ossada branquicenta, desenhando ao vivo as cavidades negras dos olhos e a dentadura amarelada.

O pobre sentinela, talvez considerando que estava de guarda a um crânio ressequido que a ninguém podia fazer mal, e que longe de excitar a cobiça, só poderia inspirar horror, o sentinela sentado no hão, recostado sobre uma pedra, e com a arma sobre os joelhos, deixava-se furtar do sono.

Um vulto todo rebuçado surge por entre as trevas, e se aproxima cautelosamente do tremendo poste.

Com uma comprida vara que trazia, faz saltar do poste a caveira, apanha-a rapidamente, e de novo desaparece com o favor das trevas e do nevoeiro.

Tudo isto foi feito com tal presteza, que quando o guarda, despertado pelo som rouco da caveira ao cair, deu fé do ocorrido, já era tarde. Viu apenas uma sombra engolfar-se e desaparecer através do nevoeiro.

Um instante depois o relógio da cadeia badalava meia-noite.

O guarda contou que um fantasma de fogo, esvoaçando pelos ares, havia roubado o crânio, e desaparecera nas nuvens.

As sentinelas da cadeia atestaram o fato e o guarda do poste foi acreditado, e não sofreu castigo.

Não era mesmo para acreditar que o anjo do Brasil viesse reivindicar aquela relíquia veneranda do mártir da liberdade?...

IV

Conheceis essa comprida rua, que na extremidade ocidental desta cidade se estende isolada por uma encosta acima, como a cauda de um lagarto.

Chama-se a rua das Cabeças.

A origem desse nome sinistro vem de que aí se fincavam na ponta de estacas as cabeças dos míseros enforcados pelas esquinas dos becos.

– Para servir de exemplo e escarmento aos povos – diziam os tiranos.

Mas os fatos vieram depois comprovar-lhes, que erravam, procedendo assim.

No alto dessa rua, não há muitos anos, existia ainda um velho de vida misteriosa e retraída, a quem o povo olhava com respeito e curiosidade.

Vivendo sozinho em uma casa quase arruinada, comunicando-se raras vezes com seus semelhantes e só em caso de necessidade, parecia um anacoreta ou um homem possuído de singular monomania.

Entretanto os curiosos, que nunca faltam nas cidades, espiolhando um dia pelas fendas das arruinadas paredes da morada do velho, devassaram um singularíssimo segredo de sua vida íntima.

Viram-no abrir com ar de religioso respeito a portinhola de um nicho ou de um armário praticado na parede, tirar dele um crânio humano branco e mirrado, depô-lo silenciosamente sobre uma mesa colocada em frente a um oratório, e ajoelhando-se depois com os braços encostados sobre a mesa, assim ficar por largo tempo, em atitude de profunda meditação, ou no êxtase de uma oração.

Mas esta descoberta, como bem se pode ver, em nada veio dissipar o mistério que pairava sobre a vida do velho. Pelo contrário vinha ainda rodeá-la de mais um sinistro prestígio, e em vez de acalmar a curiosidade do povo, concorreu para mais excitá-la.

Que crânio seria esse, que o velho guardava, e parecia venerar com religioso acatamento?

Seria relíquia de algum ente amado?

Seria o velho algum assassino, que em expiação de seu crime queria ter sempre diante de si o crânio da sua vítima para lacerar continuamente a consciência com o cilício do remorso?...

Seria algum cenobita imitador de S. Jerônimo, que tinha sempre diante de seus olhos uma caveira humana a fim de conservar de contínuo presente ao espírito o nada da existência?

(continua...)

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