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#Baladas#Literatura Brasileira

A Orgia dos Duendes

Por Bernardo Guimarães (1865)

Por conselhos de um cônego abade

Dois maridos na cova soquei;

E depois por amores de um frade

Ao suplício o abade arrastei.

Os amantes, a quem despojei,

Conduzi das desgraças ao cúmulo

E alguns filhos, por artes que sei,

Me caíram do ventre no túmulo.

GALO-PRETO

Como frade de um santo convento

Este gordo toutiço criei;

E de lindas donzelas um cento

No altar da luxúria imolei.

Mas na vida beata de ascético

Mui contrito rezei, jejuei,

Té que um dia de ataque apoplético

Nos abismos do inferno estourei.

ESQUELETO

Por fazer aos mortais crua guerra

Mil fogueiras no mundo ateei;

Quantos vivos queimei sobre a terra,

Já eu mesmo contá-los não sei.

Das severas virtudes monásticas

Dei no entanto piedosos exemplos;

E por isso cabeças fantásticas

Inda me erguem altares e templos.

MULA-SEM-CABEÇA

Por um bispo eu morria de amores,

Que afinal meus extremos pagou;

Meu marido, fervendo em furores

De ciúmes, o bispo matou.

Do consórcio enjoei-me dos laços,

E ansiosa quis vê-los quebrados,

Meu marido piquei em pedaços,

E depois o comi aos bocados.

Entre galas, veludo e damasco

Eu vivi, bela e nobre condessa;

E por fim entre as mãos do carrasco

Sobre um cepo perdi a cabeça.

CROCODILO

Eu fui papa; e aos meus inimigos

Para o inferno mandei c’um aceno;

E também por servir aos amigos

Té nas hóstias botava veneno.

De princesas cruéis e devassas

Fui na terra constante patrono;

Por gozar de seus mimos e graças

Opiei aos maridos sem sono.

Eu na terra vigário de Cristo,

Que nas mãos tinha a chave do céu,

Eis que um dia de um golpe imprevisto

Nos infernos caí de boléu.

LOBISOME

Eu fui rei, e aos vassalos fiéis

Por chalaça mandava enforcar;

E sabia por modos cruéis

As esposas e filhas roubar.

Do meu reino e de minhas cidades

O talento e a virtude enxotei;

De michelas, carrascos e frades,

Do meu trono os degraus rodeei.

Com o sangue e suor de meus povos

Diverti-me e criei esta pança,

Para enfim, urros dando e corcovos,

Vir ao demo servir de pitança.

RAINHA

Já no ventre materno fui boa;

Minha mãe, ao nascer, eu matei;

E a meu pai por herdar-lhe a coroa

Eu seu leito co’as mãos esganei.

Um irmão mais idoso que eu,

C’uma pedra amarrada ao pescoço,

Atirado às ocultas morreu

Afogado no fundo de um poço.

Em marido nenhum achei jeito;

Ao primeiro, o qual tinha ciúmes,

Uma noite co’as colchas do leito

Abafei para sempre os queixumes.

Ao segundo, da torre do paço

Despenhei por me ser desleal;

Ao terceiro por fim num abraço

Pelas costas cravei-lhe um punhal.

Entre a turba de meus servidores

Recrutei meus amantes de um dia;

Quem gozava meus régios favores

Nos abismos do mar se sumia.

No banquete infernal da luxúria

Quantos vasos aos lábios chegava,

Satisfeita aos desejos a fúria,

Sem piedade depois os quebrava.

Quem pratica proezas tamanhas

Cá não veio por fraca e mesquinha,

E merece por suas façanhas

Inda mesmo entre vós ser rainha.

IV

Do batuque infernal, que não finda,

Turbilhona o fatal rodopio;

Mais veloz, mais veloz, mais ainda

Ferve a dança como um corrupio.

Mas eis que no mais quente da festa

Um rebenque estalando se ouviu

Galopando através da floresta

Magro espectro sinistro surgiu.

Hediondo esqueleto aos arrancos

Chocalhava nas abas da sela;

Era a Morte, que vinha de tranco

Amontada numa égua amarela.

O terrível rebenque zunindo

A nojenta canalha enxotava;

E à esquerda e à direita zurzindo

Com voz rouca desta arte bradava:

"Fora, fora! esqueletos poentos,

Lobisomes, e bruxas mirradas!

Para a cova esses ossos nojentos!

Para o inferno essas almas danadas!”

Um estouro rebenta nas selvas,

Que recendem com cheiro de enxofre;

E na terra por baixo das relvas

Toda a súcia sumiu-se de chofre.

V

E aos primeiros albores do dia

Nem ao menos se viam vestígios

Da nefanda, asquerosa folia,

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