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#Comédias#Literatura Brasileira

O Noviço

Por Martins Pena (1845)

Ambrósio — É essa compaixão mal-entendida! O que é este mundo? Um pélago de enganos e traições, um escolho em naufragam a felicidade e as doces ilusões da vida. E o que é o convento? Porto de salvação e ventura, asilo da virtude, único abrigo da inocência e verdadeira felicidade... E deve uma mãe carinhosa hesitar na escolha entre o mundo e o convento?

Florência — Não, por certo...

Ambrósio — A mocidade é inexperiente, não sabe o que lhe convém. Tua filha lamentar-se-á, chorará desesperada, não importa; obriga-a e daí tempo ao tempo. Depois que estiver no convento e acalmar-se esse primeiro fogo, abençoará o teu nome e, junto ao altar, no êxtase de sua tranqüilidade e verdadeira felicidade, rogará a Deus por ti. (À parte:) E a legítima ficará em casa.

Florência — Tens razão, meu Ambrosinho, ela será freira.

Ambrósio — A respeito de teu filho direi o mesmo. Tem ele nove anos e será prudente criarmo-lo desde já para frade.

Florência — Já ontem comprei-lhe o hábito com que andará vestido daqui em diante.

Ambrósio — Assim não estranhará quando chegar à idade de entrar no convento; será frade feliz. ( À parte:) E a legítima também ficará em casa.

Florência — Que sacrifícios não farei eu para a ventura dos meus filhos!

CENA III

Entra Juca, vestido de frade, com chapéu desabado, tocando um assobio.

Florência — Anda cá, filhinho. Como estais galante com esse hábito!

Ambrósio — Juquinha, gostas desta roupa?

Juca — Não , não me deixa correr, é preciso levantar assim... (Arregaça o hábito)

Ambrósio — Logo te acostumarás.

Florência — Filhinho, hás-de ser um fradinho muito bonito.

Juca, chorando — Não quero ser frade!

Florência — Então, o que é isso?

Juca — Hi, hi, hi... Não quero ser frade!

Florência — Menino!

Ambrósio — Pois não te darei o carrinho que te prometi, todo bordado de prata, com cvalos de ouro.

Juca, rindo-se — Onde está o carrinho?

Ambrósio — Já o encomendei; é cousa muito bonita: os arreios todos enfeitados de fitas e veludo.

Juca — Os cavalos são de ouro?

Ambrósio — Pois não, de ouro com olhos de brilhantes.

Juca — E andam sózinhos?

Ambrósio — Se andam! De marcha e passo.

Juca — Andam, mamãe?

Florência — Correm, filhinho.

Juca, saltando de contente — Como é bonito! E o carrinho tem rodas, capim para os cavalos, uma moça bem enfeitada?

Ambrósio — Não lhe falta nada.

Juca — E quando vem?

Ambrósio — Assim que estiver pronto.

Juca, saltando e cantando, — Eu quero ser frade, eu quero ser frade... (Etc.)

Ambrósio, para Florência — Assim o iremos acostumando

Florência — Coitadinho, é preciso comprar-lhe o carrinho!

Ambrósio, rindo-se — Com cavalos de ouro?

Florência — Não.

Ambrósio — Basta que se compre uma caixinha com soldadinhos de chumbo.

Juca, saltando pela sala — Eu quero ser frade!

Florência — Está bom, Juquinha, serás frade, mas não grites tanto. Vai lá para dentro.

Juca sai cantando — Eu quero ser frade... (etc.)

Florência — Estas crianças...

Ambrósio — Este levaremos com facilidade... De pequenino se torce o pepino...

Cuidado me dá o teu sobrinho Carlos.

Florência — Já vai para seis meses que ele entrou como noviço no convento.

Ambrósio — E queira Deus que decorra o ano inteiro para professar, que só assim ficaremos tranqüilos.

Florência — E se fugir do convento?

Ambrósio — Lá isso não temo eu... Está bem recomendado. É preciso empregarmos toda nossa autoridade para obrigá-lo a professar. O motivo, bem o sabes...

Florência — Mas olha que Carlos é da pele, é endiabrado.

Ambrósio — Outros tenho eu domado... Vão sendo horas de sairmos, vou me vestir

(Sai pela esquerda.)

CENA IV

Florência — Se não fosse este homem com quem casei-me segunda vez, não teria agora quem zelasse com tanto desinteresse a minha fortuna. É uma bela pessoa... Rodeia-me de cuidados e carinhos. Ora, digam lá que uma mulher não deve casarse segunda vez... Se eu soubesse que havia de ser sempre tão feliz, casar-me-ia cinqüenta.

CENA V

Entrou Emília, vestida de preto, como querendo atravessar a sala.

Florência — Emília, vem cá.

Emília — Senhora?

Florência — Chega aqui. Ó menina, não deixarás este ar triste e lagrimoso em que andas?

Emília — Minha mãe, eu não estou triste. (Limpa os olhos com o lenço.)

(continua...)

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