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#Comédias#Literatura Brasileira

O Juiz de Paz da Roça

Por Martins Pena (1838)

José − Além disto há outros muitos divertimentos. Na Rua do Ouvidor há um cosmorama, na Rua de São Francisco de Paula outro, e no Largo uma casa aonde se vêem muitos bichos cheios, muitas conchas, cabritos com duas cabeças, porcos com cinco pernas, etc.

Aninha ? Quando é que você pretende casar-se comigo?

José − O vigário está pronto para qualquer hora.

Aninha − Então, amanhã de manhã.

José − Pois sim. (Cantam dentro.)

Aninha − Aí vem meu pai! Vai-te embora antes que ele te veja.

José − Adeus, até amanhã de manhã.

Aninha − Olhe lá, não falte! (Sai JOSÉ.)

CENA III

Aninha, só − Como é bonita a Corte! Lá é que a gente se pode divertir, e não aqui, aonde não se ouve senão os sapos e as entanhas cantarem. Teatros, mágicos, cavalos que dançam, cabeças com dous cabritos, macaco major... Quanta cousa! Quero ir para a Corte!

CENA IV

Entra Manuel João com uma enxada no ombro, vestido de calças de ganga azul, com uma das pernas arregaçada, japona de baeta azul e descalço. Acompanha-o um negro com um cesto na cabeça e uma enxada no ombro, vestido de camisa e calça de algodão.

Aninha − Abenção, meu pai.

Manuel João − Adeus, rapariga. Aonde está tua mãe?

Aninha − Está lá dentro preparando a jacuba.

Manuel João − Vai dizer que traga, pois estou com muito calor. (ANINHA sai. M. JOÃO, para o negro:) Olá, Agostinho, leva estas enxadas lá para dentro e vai botar este café no sol. (O preto sai. MANUEL JOÃO senta-se.) Estou que não posso comigo; tenho trabalhado como um burro!

CENA V

Entra Maria Rosa com uma tigela na mão, e Aninha a acompanha.

Manuel João − Adeus, senhora Maria Rosa.

Maria Rosa − Adeus, meu amigo. Estás muito cansado?

Manuel João − Muito. Dá-me cá isso?

Maria Rosa − Pensando que você viria muito cansado, fiz a tigela cheia.

Manuel João − Obrigado. (Bebendo:) Hoje trabalhei como gente... Limpei o mandiocal, que etava muito sujo... Fiz uma derrubada do lado de Francisco

Antônio... Limpei a vala de Maria do Rosário, que estava muito suja e encharcada, e logo pretendo colher café. Aninha?

Aninha − Meu pai?

Manuel João − Quando acabares de jantar, pega em um samborá e vai colher o café que está à roda da casa.

Aninha − Sim senhor.

Manuel João − Senhora, a janta está pronta?

Maria Rosa − Há muito tempo.

Manuel João − Pois traga.

Maria Rosa − Aninha, vai buscar a janta de teu pai. (ANINHA sai.)

Manuel João − Senhora, sabe que mais? É preciso casarmos esta rapariga.

Maria Rosa − Eu já tenho pensado nisto; mas nós somos pobres, e quem é pobre não casa.

Manuel João − Sim senhora, mas uma pessoa já me deu a entender que logo que puder abocar três ou quatro meias-caras destes que se dão, me havia de falar nisso... Com mais vagar trataremos deste negócio. (Entra ANINHA com dous pratos e os deixa em cima da mesa.)

Aninha − Minha mãe, a carne-seca acabou-se.

Manuel João − Já?!

Maria Rosa − A última vez veio só meia arroba.

Manuel João − Carne boa não faz conta, voa. Assentem-se e jantem. (Assentam-se todos e comem com as mãos. O jantar consta de carne-seca, feijão e laranjas.) Não há carne-seca para o negro?

Aninha − Não senhor.

Manuel João − Pois coma laranja com farinha, que não é melhor do que eu. Esta carne está dura como um couro. Irra! Um dia destes eu... Diabo de carne!... hei-de fazer uma plantação... Lá se vão os dentes!... Deviam ter botado esta carne de molho no corgo... que diabo de laranjas tão azedas! (Batem à porta.) Quem é? (Logo que MANUEL JOÃO ouve bater na porta, esconde os pratos na gaveta e lambe os dedos.)

Escrivão, dentro − Dá licença, Senhor Manuel João?

Manuel João − Entre quem é.

Escrivão, entrando − Deus esteja nesta casa.

Maria Rosa e Manuel João − Amém.

Escrivão − Um criado da Senhora Dona e da Senhora Doninha.

Maria Rosa e Aninha − Uma sua criada. (Cumprimentam.)

Manuel João − O senhor por aqui a estas horas é novidade.

Escrivão − Venho da parte do senhor Juiz de paz intimá-lo para levar um recruta à cidade.

Manuel João − Ó homem, não há mais ninguém que sirva para isto?

Escrivão − Todos se recusam do mesmo modo, e o serviço no entando há de se fazer.

(continua...)

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