Por José de Alencar (1864)
A respeito do trajo, que é segunda epiderma da mulher e pétalas dessa flor animada, o da menina correspondia a seu físico.
Compunha-se ele de um vestido liso e escorrido, que fechava o corpo como uma bainha desde a garganta até os punhos e tornozelos; de um lenço enrolado no pescoço; e de umas calças largas, que arrastavam, escondendo quase toda a botina.
Emília ainda assim não parecia satisfeita. Estava constantemente a encolher-se, fazendo trejeitos para mergulhar o resto do pescoço e o queixo no talho do vestido, e sumir as mãos no punho das mangas. Caminhando, dobrava as curvas a fim de tornar comprida a saia curta; sentada, metia os pés por baixo da cadeira.
Tinha um cuidado extremo em puxar para a frente as longas tranças do cabelo, que andavam sempre a dançar-lhe, como antolhos pelo rosto. Se lhe falava alguma pessoa de intimidade da família, não lhe voltava as costas como fazia com os estranhos; mas sentia logo uma necessidade invencível de coçar a cabeça, acompanhada por um repuxamento dos ombros. Eram modos de atravessar o braço diante do rosto e furtar o queixo, escondendo assim o que lhe restava de fisionomia.
Muitas vezes o Sr. Duarte zombava com terna ironia desses biocos da filha:
Deixa estar, Mila!... dizia ele abraçando-a. Vou mandar fazer para ti um saco de lã com dous buracos no lugar dos olhos.
Tal era Emília aos quatorze anos.
Entretanto, quem soubera a anatomia viva da beleza, conhecera que havia nessa menina feia e desengraçada o arcabouço de uma soberba mulher. O esqueleto ali estava: só carecia da encarnação.
Ainda me lembro da cólera infantil de Emília, quando, a primeira vez que estive com ela, eu a perseguia de longe chamando-a:
—Minha noiva! —Feio!... dizia-me então.
E pronunciava essa palavra como se ela simbolizasse a maior injúria possível.
II
COMEÇARA o verão de 1855.
Uma manhã apareceu Geraldo em minha casa. Entrou, conforme o seu costume, estrepitosamente, e cantarolando não sei que ária do seu repertório italiano.
—Vai ver minha irmã! disse passando por mim e sumindo-se pelo interior da casa.
Voltou logo com o charuto aceso:
—Tua irmã? perguntei sem compreendê-lo.
—Sim, Mila, que amanheceu com uma febre danada.
—Ah! É como médico que me pedes para ir ver tua irmã? —Pois então!... Vamos; veste-te; o carro está na porta à espera.
—Mas, Geraldo... Foi tua família que mandou chamar-me? —Foi meu pai.
—A mim, designadamente? —E esta!... Mandou-me chamar um médico; tu és um... logo! —Quem sabe! Talvez não lhe inspire confiança.
—Ora Deus!... Ele não entende disso! Ao entrar no carro, Geraldo despediu-se :
—Não vens? —Para quê? Não faço falta lá. Até logo! Geraldo pertencia à classe dos homens a quem lateja a moleira toda a vida, e velhos já, são ainda meninos de cabelos brancos. Não te admire portanto a leviandade desse moço.
Cheguei à chácara do Sr. Duarte à uma hora da tarde.
A família estava na maior aflição. A menina ardia em febre desde a véspera, queixando-se de fortes pontadas sobre o coração.
Todos os sintomas pareciam indicar uma afecção pulmonar.
No aposento reinava uma frouxa claridade que mal deixava distinguir os objetos. Emília prostrada no leito, sob as coberturas de lã, parecia inteiramente sopitada no letargo da febre. Sua tia D. Leocádia, que fazia-lhe agora as vezes de mãe, estava sentada à cabeceira.
—Minha senhora, disse eu, é necessário auscultar-lhe o peito.
—Então, Sr. doutor, aproveite enquanto ela dorme. Se acordar, nada a fará consentir.
A senhora afastou a ponta da cobertura, deixando o seio da menina envolto com as roupagens de linho, Mal encostei o ouvido ao seu corpo, teve ela um forte sobressalto, e eu não pude erguer a cabeça tão depressa, que não sentisse no meu rosto a doce pressão de seu colo ofegante.
O que passou depois foi rápido como o pensamento.
Ouvi um grito. Senti nos ombros choque tão brusco e violento, que me repeliu da borda do leito. Sobre este, sentada, de busto erguido, hirta e horrivelmente pálida, surgira Emília. Os olhos esbraseados cintilavam na sombra : conchegando ao seio com uma das mãos crispadas as longas coberturas, com a outra estendida sob as amplas dobras dessa espécie de túnica, ela apontava para a porta.
—Atrevido!... clamou o lábio erriçado de cólera e indignação.
Fiquei atônito. D. Leocádia pediu-me que saísse um momento.
Ao retirar-me, o olhar da menina, repassado de um ódio profundo, acompanhou-me até que desapareci na porta.
Com pouco o Sr. Duarte veio à sala.
(continua...)
ALENCAR, José de. Diva. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1839 . Acesso em: 15 jan. 2026.