Por José de Alencar (1873)
Já me lembrei de escrever para meus filhos essa autobiografia literária, onde se acharia a história das criaturinhas enfezadas, de que, pôr mal de meus pecados, tenho povoado as estantes do Sr. Garnier.
Seria esse o livro de meus livros. Se alguma hora de pachorra, me dispusesse a refazer a cansada jornada dos quarenta e quatro anos, já completos os curiosos de anedotas literárias saberiam, além de muitas outras coisas mínimas, como a inspiração d’O Guarani, pôr mim escrito aos 27 anos, caiu na imaginação da criança de nove, ao atravessar as matas e sertões do norte, em jornada do Ceará à Bahia.
Enquanto não vem ao lume do papel, que para o da imprensa ainda é cedo, essa obra futura, quero em sua intenção fazer o rascunho de um capítulo.
Será daquele, onde se referem as circunstâncias, a que atribuo a predileção de meu espírito pela forma literária do romance.
II
No ano de 1840, freqüentava eu o Colégio de Instrução Elementar, estabelecido à Rua do Lavradio, nº 17, e dirigido pelo Sr. Januário Matheus Ferreira, a cuja memória eu tributo a maior veneração.
Depois daquele que é para nós meninos a encarnação de Deus e o nosso humano
Criador, foi esse o primeiro homem que me incutiu respeito, em quem acatei o símbolo da autoridade.
Quando me recolho da labutação diária com o espírito mais desprendido das preocupações do presente, e sucede-me ao passar pela Rua do Lavradio pôr os olhos na tabuleta do colégio, que ainda lá está na sacada do nº.17, mas com diversa designação; transporto-me insensivelmente àquele tempo, em que de fraque e boné, com os livros sobraçados, eu esperava ali na calçada fronteira o toque da sineta que anunciava a abertura das aulas.
Toda a minha vida colegial se desenha no espírito com tão vivas cores, que parecem frescas de ontem, e todavia mais de trinta anos já lhes pairaram sobre. Vejo o enxame dos meninos, alvoriçando na loja, que servia de saguão; assisto aos manejos da cabala para a próxima eleição do monitor geral; ouço o tropel do bando que sobe as escadas, e se dispersa no vasto salão, onde cada um busca o seu banco numerado.
Mas o que sobretudo assoma nessa tela é o vulto grave de Januário Mateus Ferreira, como eu o via passeando diante da classe, com um livro na mão e a cabeça reclinada pelo hábito da reflexão.
Usava ele de sapatos rinchadores; nenhum dos alunos do seu colégio ouvia de longe aquele som particular, na volta de um corredor, que não sentisse um involuntário sobressalto.
Januário era talvez ríspido e severo em demasia; orem nenhum professor o excedeu no zelo e entusiasmo com que desempenhava o seu árduo ministério. Identificava-se com o discípulo; transmitia-lhe suas emoções e tinha o dom de criar no coração infantil os mais nobres estímulos, educando o espírito com a emulação escolástica para os grandes certames da inteligência.
Dividia-se o diretor pôr todas as classes, embora tivesse cada uma seu professor especial; desse modo andava sempre ao corrente do aproveitamento de seus alunos, e trazia os mestres como os discípulos em constante inspeção. Quando, nesse revezamento de lições, que ele de propósito salteava, acontecia achar atrasada alguma classe, demorava-se com ela dias e semanas, até que obtinha adianta-la e só então a restituía ao respectivo professor.
Meado o ano, porém, o melhor dos cuidados do diretor voltava-se para as últimas classes, que ele se esmerava em preparar para os exames.
Eram estes dias de gala e de honra para o colégio, visitado pôr quanto havia na Corte de ilustre em política e letras.
Pertencia eu à sexta classe, e havia conquistado a frente da mesma, não pôr superioridade intelectual, sim pôr mais assídua aplicação e maior desejo de aprender.
Januário exultava a cada uma de minhas vitórias, como se fora ele próprio que estivesse no banco dos alunos, a disputar-lhes o lugar, em vez de achar-se como professor dirigindo os seus discípulos.
Rara vez sentava-se o diretor; o mais do tempo levava a andar de um a outro lado da sala em passo moderado. Parecia inteiramente distraído da classe, para a qual nem volvia os olhos; e todavia nada lhe escapava. O aparente descuido punha em prova a atenção incessante que ele exigia dos alunos, e da qual sobretudo confiava a educação da inteligência.
Uma tarde ao findar a aula, houve pelo meio da classe um erro. – Adiante, disse Januário, sem altear a voz, nem tirar os olhos do livro. Não recebendo resposta ao cabo de meio minuto, repetiu a palavra, e assim de seguida mais seis vezes.
Calculando pelo número dos alunos, estava na mente de que só à sétima vez, depois de chegar ao fim da classe é que me tocava responder como o primeiro na ordem da colocação.
(continua...)
ALENCAR, José de. Como e por que sou romancista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1837 . Acesso em: 14 jan. 2026.