Por Joaquim Manuel de Macedo (1870)
O sr. Furtado Coelho no papel de Cincinato criou um tipo delicioso, mistura feliz de estouvamento com as mais nobres qualidades do coração. Os srs. Amoedo (Adriano), Guilherme (Clarimundo), Paiva (Fábio), Gusmão (Bráulio), e as sras. Leolinda (Helena), Rosinha (Úrsula), e Virgínia (Dionísia) sustentaram bem as suas partes, formando um conjunto que agradou a todos. O sr. Graça no papel de usurário apenas estaria uns cinco minutos em cena, mas foi quanto bastou para arrancar aplausos gerais, tornando notável uma das personagens mais insignificantes do drama.
O autor, assistindo à segunda representação, foi vitoriado pelo público e agradeceu do seu camarote estas demonstrações não só de simpatia, mas também de merecida homenagem ao talento.
PERSONAGENS
HELENA............................................................................................Ismênia
ÚRSULA...........................................................................................Rosinha DIONÍSIA..........................................................................................Virgínia
GERTRUDES....................................................................................
ADRIANO.........................................................................................Amoedo
CLARIMUNDO............................................................................Guilherme
CINCINATO.......................................................................................Furtado
FÁBIO....................................................................................................Paiva
BRÁULIO..........................................................................................Gusmão
DEMÉTRIO.......................................................................................Pinheiro
VENCESLAU........................................................................................Graça
O DR.GONÇALVES..............................................................................Lima
LOURENÇO.....................................................................................Caminha
SILVEIRA..............................................................................................Costa
D.DONALDO....................................................................................Timóteo
José........................................................................................................Torres
Criados da casa de jogo – Jogadores – Senhoras e Cavalheiros.
A ação se passa na cidade do Rio de Janeiro.
Época a atualidade.
ATO I
Sala muito modesta; mesa com candeeiro a querosene; sofá; porta à esquerda, abrindo para aposentos interiores; outra à direita, comunicando com a sala de jogo; portas ao fundo, que abrem para a sala principal que, apenas se vê e onde há piano no qual se ouve tocar e cantar.
CENA I
BRÁULIO, vindo da direita, FÁBIO, entrando pelo fundo.
FÁBIO (Para a sala do fundo.) – Cante muito; a sua voz dá-me felicidade (A
Bráulio.) Como vai a sessão?... (Conversam ambos à meia voz.)
BRÁULIO – Ameaçando tempestade: as cartas arranjaram-se e d. Donaldo na primeira tripa fez maravilhas: a segunda tripa começou agora.
FÁBIO – As cartas falhas são pois quatro, seis e o rei...
BRÁULIO – E nos baralhos novos, se os pedirem, passam a ser três, dama, e, principalmente, sete e às.
FÁBIO – Sei: e além de mim e do capitão há mais feitos?...
BRÁULIO – Nenhum: não convém estender a confiança mesmo entre os cavalheiros honrados, alguns têm o defeito de dar à língua por gabolice.
FÁBIO – Creio que me demorei bastante para excluir qualquer idéia de conluio; antes, porém, de ir jogar, urge dizer-lhe duas palavras: Adriano...
BRÁULIO – Não chegou até agora...
FÁBIO – Pouco importa: não é mais o jogo, é sua sobrinha que o deve escravizar, e a ocasião para a última cartada é agora; amanhã, ou ao mais tardar depois de amanhã, Dionísia se fará levar daqui por Adriano; depois de amanhã ou nunca.
BRÁULIO – O prazo é muito curto... mas...
FÁBIO – Basta que Dionísia queira e exija: Adriano já não se governa; o senhor sabe o que tem a ganhar; depois de amanhã ou nunca... disponha sua sobrinha... se quiser logo conversaremos; agora tenho pressa. (Vai-se pela direita.)
CENA II
BRÁULIO e logo GERTRUDES
BRÁULIO – Gertrudes! (Entra Gertrudes.) é preciso que Dionísia hoje mesmo obrigue Adriano a estar pronto para levá-la consigo depois de amanhã à noite... e veremos até lá.
GERTRUDES – É coisa feita: o pobre rapaz está pelo beiço... então o senhor Fábio...
BRÁULIO – Acaba de dar-me as suas ordens em tom de meu amo... digo-te que me aborrece muito o ar que ele toma comigo; mas o diabo paga bem.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Remissão de Pecados. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2159 . Acesso em: 6 jan. 2026.