Por Joaquim Manuel de Macedo (1860)
Leonina — E por que não havia de entrar, uma vez que vem procurar a meu pai ou a minha mãe? (Com austeridade.) Retira-te.
Petit (À parte) — Ah! Sapristi!...(Vai-se)
Leonina — O senhor quer ter a bondade de sentar-se?
Anastácio (Sentando-se) — Sou capaz de apostar que a menina não adivinha quem eu sou.
Leonina (À parte) — A menina!...já se vê que este homem é grosseiro. (A
Anastácio) Certamente, que não tenho a fortuna de o conhecer.
Anastácio — Ora aí está, como são as coisas! Eu conheço a menina como as palmas das minhas mãos.
Leonina (Á parte) É um velho doido! (A Anastácio) — Não admira, porque eu sou bastante conhecida, pelo menos na alta sociedade do Rio de Janeiro.
Anastácio — Pois não deve ufanar-se disso. O que mais convém a uma senhora honesta é que não se fale muito em seu nome, nem em bem e ainda menos em mal; e a uma menina solteira o que melhor assenta é, recolhida no seio da modéstia, fazer-se notar pela virtude que não se ostenta, e que, no entanto, excita a admiração, por isso mesmo que não procura louvores.
Leonina — Meu senhor, eu prefiro que em lugar de dar-me conselhos, que não pedi, diga-me o que pretende e se deseja falar a meu pai.
Anastácio — Já agora conversaremos um pouco; hei de provar que a conheço bem: sou um velho feiticeiro que adivinha a vida, os pensamentos e até os segredos do coração das moças! Olha para mim sorrindo-se?...pois escute: a menina chama Leonina, e bem que assevere a todas as suas camaradas que conta somente dezessete anos de idade, vai completar os seus vinte dois justinhos daqui a cinco dias.
Leonina — Senhor!
Anastácio — A menina toca alguma coisa o seu piano; canta um pouco mal a sua ária italiana; tem de cor algumas frases do francês; desenha um nariz que parece uma orelha; dança e valsa noites inteiras nos bailes; passeio e conversa sem vexame com os rapazes, e presume por isso que tem uma educação completa. Engano, menina! A Verdadeira educação de uma moça é aquela que, antes de tudo, deve torná-la uma boa mãe de família; a outra, a educação fictícia, aquela que recebeu, e que muitas recebem, pode dar em último resultado excelentes e divertidas namoradas, porém esposas extremosas e mães dignas deste nome sagrado, palavra de honra que não, minha senhora!
Leonina — O senhor tem a idéia de ofender-me?
Anastácio — A sua história é em tudo semelhante à de muitas outras. Cedo, bem cedo foi a menina arrastada para o turbilhão das festas ardentes, onde o delírio segue de perto a alegria, a sensibilidade se embota, e o fingimento usurpa o lugar da inocência; e a menina, na idade em que devia ainda brincar com bonecas, sonhou com amores e conquistas, amou ou supôs amar ao próximo antes de amar a Deus, e só se lembrou da igreja lembrando-se do casamento.
Leonina — Assim mesmo para um roceiro, o senhor fala corretamente! É provável que seja eleitor e juiz de paz na sua terra.
Anastácio — Dentro em pouco a vaidade encheu de teias de aranhas essa cabecinha de criança. A menina realmente não é feia, julga-se, porém, a primeira formosura das cinco partes do mundo: critica e murmura desapiedadamente até das suas próprias amigas, e supõe-se por isso muito espirituosa; é filha de pais muito honrados, mas tão plebeus como este seu criado, e presume-se fidalga de sangue azul e torce o biquinho a todo aquele que na tem excelência de jure, e quinze avós ainda mesmo arranjados de encomenda entre os descendentes dos doze pares de França.
Leonina — Isso é demais! (Levanta-se) Eu vou chamar meu pai, que o fará sair imediatamente desta casa!
Anastácio — Escute ao menos um segredo do seu coração...
Leonina — Um segredo! (Com orgulho.) Que pode o senhor saber de mim?...
Anastácio — Foi, há dois meses; a menina encontrou no Clube Fluminense um elegante mancebo que lhe fez a corte, e, ou porque realmente gostasse do seu novo apaixonado, ou porque não achasse inconveniente em acrescentar mais um nome à lista dos seus namorados, mostrou corresponder ao amor desse jovem; os encontros repetiram-se nos bailes; das conversinhas misteriosas já se tinha chegado aos apertos de mão, e à troca de flores, e é escusado dizer que o papai e a mamãe não viam absolutamente nada; mas em certa noite, ainda no Clube Fluminense, alguém murmurou aos ouvidos da menina as seguintes palavras: — “Aquele moço que a requesta é um pintor e filho de um marceneiro”; — a terrível notícia acendeu os brios da fidalga, e o namorado plebeu foi condenado ao desprezo. Diga, menina, não é verdade?
Leonina — Não o nego; mas porventura deveria eu continuar a aviltar-me?...
Anastácio — Oh!
não, não, de modo nenhum; há porém no fim dessa história, uma tristíssima e
fatal realidade!
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Luxo e vaidade: comédia em um ato. Rio de Janeiro: Typ. Nacional, 1860. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1666 . Acesso em: 3 jan. 2026.