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#Romances#Literatura Brasileira

As Mulheres de Mantilha

Por Joaquim Manuel de Macedo (1870)

De duas destas acusações o conde da Cunha defendeu-se, confessando-se enganado, e descarregando as culpas da corrução por dinheiro e depravação por luxúria sobre o ajudante oficial-de-sala, tenentecoronel do regimento velho, que se chamava Alexandre Cardoso de Meneses, e a quem despediu mal recomendado para Lisboa. 

Mas a tão infames crimes não bastava esse simples banimento, e a suavidade do castigo dado por quem tão severo com todos se mostrava, não é de grande proveito e de convincente defesa para a memória do conde da Cunha, que aliás foi de improviso, sem que o esperasse, e menos airosamente substituído em novembro de 1767 no vice-reinado do Brasil pelo conde de Azambuja, o que indicia que o marquês de Pombal desagradou-se da sua administração. 

Como quer que seja, Alexandre de Meneses, o ajudante oficial-desala, foi a asa-negra do vice-reinado do conde da Cunha. 

Como escrevemos sempre e somente para aqueles que sabem tão pouco que ainda sabem menos do que nós, e não para aqueles que nos podem ensinar, vamos, porque isso é preciso, dizer o que era e o que podia naqueles tempos o ajudante oficial-de-sala do vice-rei. 

A melhor lição é o exemplo, é dizer o que nos nossos dias e nos nossos costumes corresponde hoje àquele cargo da época colonial. 

O exemplo e a explicação saem ingenuamente e sem malícia alguma. 

O ajudante oficial-de-sala do vice-rei era então o que é hoje em dia o oficial-de-gabinete do ministro de Estado ou do presidente de província. 

Ora, o oficial-de-gabinete é meio ministro e meio presidente de província, e às vezes não é meio, é todo, e sem responsabilidade perante os juízos daqueles de quem está na confiança: era tal e qual assim o ajudante oficial-de-sala do vice-rei. 

O mais humilde, e especialmente os mais humildes dos pretendentes do nosso tempo sabem de quantos milagres e de quantos abusos é capaz um oficial-de-gabinete, que sendo hábil toma-se em vez de mão direita do ministro ou presidente de província, cabeça e árbitro do ministro ou presidente de província que for menos hábil que ele. 

E dão-se casos em que a ilustração e superiores habilitações do ministro ou do presidente de província cedem à firmeza e à energia do oficial-de-gabinete que ou pela simpatia e confiança que inspira, ou pela influência da idade mais vigorosa, do entusiasmo mais fascinador, ou do prestígio da prática e dos conhecimentos minuciosos da administração, governa, fingindo submeter-se, e, quando lhe convém, abusa impunemente, escondendo-se atrás da pobre e inocente sombra do responsável, cuja confiança explora. 

O ajudante oficial-de-sala do vice-rei era pois exatamente como é hoje um oficial-de-gabinete de ministro de Estado, ou de presidente de província. 

O conde da Cunha era um déspota; não há porém fundamento para julgar-se que tivesse sido concussionário, nem devasso; era um violento opressor; mas não vendia a justiça, nem atacava a moral das famílias. 

Entretanto, Alexandre de Meneses abusava da confiança que merecera do vice-rei, e explorando a importância oficial, alimentava indignamente os instintos da sua ambição, e da sua lascívia. 

Gula de ouro, e sede de prazeres sensuais, dois golfões em que se afoga a honra, duas fontes de corrução que infamam os corrutores e os corrompidos. 

Os habitantes da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro estavam pois sofrendo muito: o despotismo cruel do conde da Cunha e o desenfreamento de Alexandre de Meneses, que era imitado por alguns companheiros e protegidos seus, traziam a todos em susto contínuo e em tristes incertezas da vida. 

Mas os fluminenses tiveram sempre e tem ainda hoje alguns pontos de semelhança com os franceses: dir-se-ia que estes, tendo sido os primeiros ocupadores do Rio de Janeiro, deixaram nesta parte do Brasil o seu gosto pelo sarcasmo e pela zombaria contra o governo que detestam e que só obrigados toleram. 

Antes de se revoltar levam anos a ridicularizar a opressão. 

Com o seu rir sarcástico desacreditam, solapam, diluem o poder que hão de mais tarde e oportunamente destruir de todo, e quando não podem destruí-lo, vingam-se ao menos, ferindo-o com as setas do epigrama e da zombaria. 

No governo do conde da Cunha os fluminenses sofriam muito e riam-se ainda mais. 

Eis aqui uma das cantigas desse tempo, cantiga que devemos à memória de um velho octogenário, fiel herdeiro de recordações que lhe foram legadas.

Não é preciso dizer que de 1763 a 1767 somente em segredo e em sociedade bem retirada e cautelosa se ousava cantar a copia audaciosa que aliás todos sabiam de cor. 

(continua...)

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