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#Comédias#Literatura Brasileira

Antonica da Silva

Por Joaquim Manuel de Macedo (1880)

Que saiba aparecer.

E adeus!

Até outra folgança!

E adeus!...

Até outra festança!

E adeus! adeus!... adeus!

Quem sabe querer bem

O longe torna perto,

E quer mais bem por certo

Quem menos tarde vem

E adeus!...

Até outra folgança!


PERES – Joana, acompanha os nossos amigos!... vão também, meninas. (Vão-se).


CENA II

Peres e Benjamim.


PERES – Complete a carta de seu pai; que houve?

BENJAMIM – Eu era sacristão da igreja do convento dos franciscanos de Macacu:

aprendi o latim e a música e queria chegar a ser frade.

PERES – Deixemos isso... vamos ao essencial...

BENJAMIM – Caí no ódio do capitão-mor, e... foi-se o frade...

PERES – Seu pai fala-me em honra da família...

BENJAMIM – Meu pai é pobre, e o capitão-mor tentou debalde seduzir minha irmã... uma noite, por sinal que eu saía do convento, o capitão-mor vem a mim, e me oferece três moedas de ouro para que eu lhe entregasse minha irmã...

PERES—E que fez?...

BENJAMIM – Confessar, confesso: eu dei uma bofetada no capitão-mor.

PERES – Depois?

BENJAMIM – No outro dia ordem de me prenderem para soldado e eu duas semanas no mato como negro fugido! depois minha mãe foi lá vestir-me assim, meu pai deu-me a carta para vossa mercê, meteram-me num barco e eis o aspirante a frade metido em saias de mulher.

PERES – Quero abraçá-lo pela bofetada que deu. (Abraça-o.)


CENA III

Peres, Benjamim, Joana, Inês, Brites e Mendes.


JOANA (À parte) – E esta?... o meu homem manda-nos acompanhar os convidados, deixa-se ficar aqui, e venho encontrá-lo abraçando a Antonica da Silva!...

PERES (A Mendes) – Espera, compadre (A Benjamim) Escute. (A um lado) Minha mulher e minhas filhas devem absolutamente ignorar o seu verdadeiro sexo. Não posso responder por línguas de mulheres: o vice-rei é cruel e nós ambos estamos expostos a grandes castigos.

BENJAMIM (A Peres) – Juro pelos frades franciscanos que nenhuma das três senhoras terá conhecimento do meu disfarce sexual.

JOANA (À parte) – Agora segredinhos... mesmo na minha cara!...

PERES – Joana, o lugar está bonito: vai com as meninas e com a senhora Antonica dar duas voltas pelo jardim: tenho um particular com o compadre... (Fala a este).

BENJAMIM (À parte) – Que encanto e que precipício! caso de heroicidade original em que um homem deve mostrar que não é homem! com a velha não há perigo; mas as meninas!... é mais fácil estar escondido no mato!

PERES – Vai, Joana!

JOANA (À parte) – Ele a quer bem fresquinha com o sereno da noite... e eu criada da Dulcinéia!...(Alto.) Vamos, meninas.


CENA IV

Peres e Mendes.


PERES – Pedi que ficasses para te consultar. Compadre, começa a preocupar-me a inconveniência de guardar em minha casa este rapaz vestido de mulher.

MENDES— Quê!... o vice-rei já te faz medo?...

PERES – Tenho duas filhas moças e solteiras: entendes agora?...

MENDES – Mãos à palmatória!... tens razão: mas sem ofensa da amizade não podes livrar-te do hóspede...

PERES – Posso: ele tem asilo seguro no convento dos franciscanos... não te lembra a carta do guardião ao provincial?...

MENDES – E verdade; ótimo recurso: amanhã já...

PERES – E que pensará Jerônimo? pobre, mas meu amigo de quase meio século!

ele podia ter mandado o filho diretamente para o convento da cidade; teve, porém, confiança em mim!...

MENDES – Não conheço o grau da amizade que tens com esse Jerônimo: o caso é melindroso: dá cá tabaco. (Tomam)

PERES – Olha: eu deixo a Antonica em casa oito dias...

MENDES – Oito dias a mecha ao pé do paiol da pólvora!...

PERES – É isso! toma tabaco (Tomam) reduzo os oito dias a cinco.

MENDES – Em cinco noites uma gambá acaba com um galinheiro.

PERES – Pois bem: ao menos três dias...

MENDES – Dá-me mais tabaco...

PERES – Não dou: Jerônimo merece algum sacrifício, O pior é que não me animo a confiar o segredo...

MENDES – À comadre?.,, é santa criatura; mas logo contaria tudo às filhas... e estas.

PERES – Tal e ....... e então a sua afilhada? apesar da educação severa que lhe dou, é cabeça de fogo, toda exaltada... por tua culpa! ensinaste-lhe ler contra a minha vontade... trazes-lhe novelas...

MENDES – E hei de trazer-lhas,,, não te dou satisfações. (À janela) Venha, comadre! o sereno pode fazer-lhe mal.


CENA V

(continua...)

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