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#Romances#Literatura Brasileira

A Moreninha

Por Joaquim Manuel de Macedo (1844)

Ali o senhor descansa a xícara azul em um pires de porcelana... aquele tem uma chávena com belos lavores dourados, mas o pires é cor-de-rosa... aquele outro nem porcelana, nem lavores, nem cor azul ou de rosa, nem xícara... nem pires... aquilo é uma tigela num prato...

— Carraspana!... Carraspana!... gritaram os três.

— Ó moleque! prosseguiu Filipe, voltando-se para o corredor, traz-me café, ainda que seja no púcaro em que o coas; pois creio que, a não ser a falta de louça, já teu senhor mo teria oferecido.

— Carraspana!... Carraspana!...

— Sim, continuou ele, eu vejo que vocês...

— Carraspana! Carraspana!...

Não sei de nós quem mostra...

— Carraspana! ... Carraspana!

Seguiram-se alguns momentos de silêncio, e ficaram os quatro estudantes assim a modo de moças quando jogam o siso. Filipe não falava, por conhecer o propósito em que estavam os três de lhe não deixar concluir uma só proposição; e estes, porque esperavam vê-lo abrir a boca para gritar-lhe: carraspana!

Enfim, foi ainda Filipe o primeiro que falou, exclamando de repente:

— Paz! Paz!...

— Ah! já?... disse Leopoldo, que era o mais influído.

— Filipe é como o galego, disse um outro; perderia tudo para não guardar silêncio durante uma hora.

— Está bem, o passado, passado: protesto não falar mais nunca na carapuça, nem nas cadeiras, nem na louça do Leopoldo... Estão no caso... sim...

— Hein?... olha a carraspana...

— Basta! Vamos a negócio mais sério. Onde vão vocês passar o dia de Sant’Ana?

— Por quê?... Temos patuscada?... acudiu Leopoldo.

— Minha avó chama-se Ana.

— Ergo!...

Estou habilitado para convidá-los a vir passar a véspera e dia de Sant’Ana conosco, na ilha de...

— Eu vou, disse prontamente Leopoldo.

— E dois, acudiu logo Fabrício.

Augusto só guardou silêncio.

— E tu, Augusto?... perguntou Filipe.

— Eu?... Eu não conheço tua avó.

— Ora, sou seu criado; também eu não a conheço, disse Fabrício.

— Nem eu, acrescentou Leopoldo.

— Não conhecem a avó, mas conhecem o neto, disse Filipe.

— E ademais, tornou Fabrício, palavra de honra que nenhum de nós tomará o trabalho de lá ir por causa da velha.

— Augusto, minha avó é a velha mais patusca do Rio de Janeiro.

— Sim?... Que idade tem?

— Sessenta anos.

— Está fresquinha ainda... Ora.... se um de nós a enfeitiça e se faz avô de Filipe!

— E ela, que possui talvez seus 200 mil cruzados, não é assim, Filipe? Olha, se é assim, e tua avó se lembrasse de querer casar comigo, disse Fabrício, juro que mais depressa daria o meu "recebo a vós" aos cobres da velha, do que a qualquer das nossas "toma-larguras" da moda.

— Por quem são!... Deixem minha avó e tratemos da patuscada. Então tu vais, Augusto?

— Não.

— É uma bonita ilha.

— Não duvido.

— Reuniremos uma sociedade pouco numerosa, mas bem escolhida.

Melhor para vocês.

— No domingo, à noite, teremos um baile.

— Estimo que se divirtam.

— Minhas primas vão. Não as conheço.

— São bonitas.

— Que me importa?... Deixem-me. Vocês sabem o meu fraco e caem-me logo com ele: moças!... moças!... Confesso que dou o cavaco por elas, mas as moças me têm posto velho.

— E porque ele não conhece tuas primas, disse Fabrício.

— Ora… o que poderão ser senão demoninhas, como são todas as outras moças bonitas?

— Então tuas primas são gentis?... perguntou Leopoldo a Filipe.

— A mais velha, respondeu este, tem dezessete anos, chama-se Joana, tem cabelos negros, belos olhos da mesma cor, e é pálida.

— Hein?... exclamou Augusto, pondo-se de um pulo duas braças longe do canapé onde estava deitado: então ela é pálida?...

— A mais moça tem um ano de menos: loira, de olhos azuis, faces cor-derosa... seio de alabastro... dentes...

— Como se chama?

— Joaquina.

— Ai, meus pecados! ... disse Augusto.

— Vejam como Augusto já está enternecido...

Mas, Filipe, tu já me disseste que tinhas uma irmã.

— Sim: é uma moreninha de catorze anos.

— Moreninha! Diabo!... exclamou outra vez Augusto, dando novo pulo.



(continua...)

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